A crise intelectual do lulismo (e da esquerda a seu reboque)

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Os movimentos populares combativos no Brasil prosseguem na resistência contra as reformas neoliberais de Temer. Já desde antes da primeira e vitoriosa greve geral de 2017, trabalhadoras e trabalhadores têm mostrado discernimento e disposição para a luta. O mesmo não se pode dizer das burocracias sindicais da Força Sindical e da CUT, que sabotaram as outras greves gerais do ano passado. No caso do campo político lulista, a desmobilização social se explica pela impopular e eleitoreira defesa de Lula que, sob o simulacro de uma bandeira democrática, apenas tenta repor o PT como expressão dos interesses burgueses mais vinculados ao Estado.

Já boa parte da esquerda brasileira, infelizmente, não tem se mostrado à altura da classe trabalhadora que deseja representar. O problema central consiste na rendição de setores desta esquerda às pautas criadas pelo lulismo: “Não vai ter golpe”, “Diretas Já”, “Eleição sem Lula é golpe/fraude”, defesa abstrata da democracia, todos estes slogans inventados pela máquina publicitária lulista – ao gosto da intelectualidade progressista – foram seguidamente derrotados ou esquecidos, por serem desprezados pela maioria de nossos segmentos sociais subalternizados.
 
Tal rendição se configura em dois diagnósticos originários da intelectualidade lulista, compartilhados por certas correntes do PSOL: Unidade Socialista, Insurgência e MAIS, entre outras forças políticas. O primeiro é a caracterização do impeachment de Dilma como golpe, o segundo é avaliação de que há uma ascensão conservadora no plano político-cultural.

Esses diagnósticos foram lançados pelo PT e cia. (sem trocadilhos) como artefatos de marketing para juntar os cacos da desmoralizada militância lulista e retomar algum apoio popular, por ocasião da queda de Dilma (1). Mas, além disso, serviram para atrair parte da esquerda para o universo social e intelectual do lulismo. Ela, que sempre criticou e combateu os governos neodesenvolvimentistas do PT, agora vê alguns setores seus – por fraqueza ideológica, acomodação social ou ambição eleitoral – ficarem a reboque das políticas lulistas de prestação de serviço ao grande capital, de criminalização da pobreza e de cooptação (e consequente enfraquecimento) das entidades populares.

Obviamente, há uma divisão na esquerda, pois a militância mais coerente não se ilude com as benesses de um sistema político democrático-burguês estruturalmente incapaz, sequer, de diminuir a histórica desigualdade social nacional. Decerto que entender esse processo político recente no país não isenta de responsabilidade tal esquerda, que opta por abandonar o classismo da Frente de Esquerda Socialista, em favor da lulista Frente Brasil Popular e da neolulista Frente Povo Sem Medo (frentes que atuam unidas nas manifestações para isolar ou marginalizar a esquerda classista, felizmente com pouco sucesso), bem como da Plataforma Vamos (que inclui PSOL, PT e MTST).

O discurso do golpe como marco da conversão da esquerda neolulista

Mas a adoção, pelos setores reformistas do PSOL, da narrativa em torno do golpe/impeachment de Dilma, como baliza para entender a mudança na conjuntura recente do Brasil e traçar uma nova orientação política, é um fenômeno derivado – ainda que tenha desencadeado o deslocamento de parte da esquerda classista: da oposição aos governos Lula e Dilma para a cooperação com o PT. Sua origem se encontra no lulismo, em seus políticos profissionais e seus intelectuais: acadêmicos, formuladores/operadores de políticas públicas e propagandistas da bolha lulista da internet e das redes sociais.

Com a crise do lulismo expressa inicialmente nas Jornadas de Junho de 2013, o afastamento da direita conservadora (PMDB, PSD, PP etc.) da aliança governista liderada pelo PT poderia ter sido respondido com independência de classe pelo PSOL, que, afinal de contas, nasceu antilulista – num período em que lulistas eram Michel Temer, Henrique Meirelles, Romero Jucá, Eduardo Cunha, Kátia Abreu e outros políticos burgueses – pra não dizer canalhas.

A insatisfação popular com a política institucional deveria ser massivamente politizada à esquerda. Em direção contrária, a parcela mais burocratizada e menos militante do PSOL se uniu ao PT na defesa dos políticos tradicionais, do elitista e corrupto sistema político atual.

Além disso, novas correntes políticas que foram surgindo (MAIS, por exemplo), dentro e fora do PSOL, pressionadas pela narrativa lulista, foram assumindo o diagnóstico do golpe, que expressa o campo sócio-histórico neodesenvolvimentista e serve organicamente aos seus interesses, por meio de três vetores:

1) defendendo-se os avanços sociais dos governos lulistas, que teriam sido interrompidos propositalmente pelo “golpe” e não, como de fato ocorreu, inviabilizados pela crise econômica, reveladora da fraqueza do neodesenvolvimentismo burguês implementado pelos governos do PT;

2) ocultando-se o fato de o “golpe” ter se dado por conta da desmobilização social, inevitavelmente promovida por todo governo de conciliação de classes, como foram os do lulismo;

3) por conseguinte, bloqueando-se a crítica à fracassada experiência lulista, alçada agora – um tanto bizarramente – à condição de tábua de salvação da democracia brasileira por quem sempre combateu aquela experiência: a esquerda classista.

Isto é, ao invés de radicalizar na denúncia do lulismo, dialogando com suas bases populares remanescentes, parte do PSOL passou a emular um discurso empoderador do PT e enfraquecedor do próprio PSOL! (em nome justamente do diálogo com aquelas bases, que, dessa forma, só podem permanecer fiéis ao lulismo)

Em vez de estarmos denunciando fortemente propagandistas/formuladores da política de conciliação de classes – Luis Nassif, Jessé Souza, Laura Carvalho e tantos outros – que alçou ao poder Temer, MBL e o conservadorismo em geral, há militantes de esquerda divulgando os clichês e malabarismos políticos dessa intelligentsia neodesenvolvimentista. No lugar de estarmos na ofensiva política, operamos com ideias e valores antissocialistas que nos fragmentam e nos enfraquecem.

Mesmo para quem entende erroneamente o impeachment como um golpe, a ação política que garante nitidez a uma compreensão dialética da conjuntura, por parte da esquerda classista, reside na crítica à narrativa de que o lulismo faz do golpe – afinal de contas, uma coisa é o “golpe”, outra, a interpretação do golpe pelos intelectuais lulistas. A ausência desta crítica desnuda exatamente a adesão de parte da esquerda ao lulismo.

É bom registrar, também, que o discurso do golpe persistirá enquanto os trabalhadores brasileiros não acumularem novas experiências de luta por meio de movimentos sociais autônomos. Apenas uma consciência popular radical irá impactar positivamente a intelectualidade brasileira no desvendamento da crise nacional que ainda vivemos.  

De qualquer forma, o desenrolar dos fatos mais recentes continua negando o diagnóstico do golpe. A disseminação contemporânea do uso do impeachment nas democracias liberais pelo mundo é um exemplo: aprovados, rejeitados ou cogitados, impedimentos presidenciais ocorrem na Coreia do Sul, Peru, talvez nos EUA com Trump etc. envolvendo atores políticos progressistas ou conservadores – mas sempre burgueses. Já a judicialização da política, fenômeno complexo, também se manifesta independentemente do espectro político-ideológico. Veja-se Evo Morales na Bolívia, que tentará mais uma reeleição, com aval judicial, apesar de derrotado num referendo sobre o tema. Neste caso não se vê ninguém reclamando de um golpe judicial contrário à soberania popular...

A funcionalidade do discurso do golpe em desarmar a esquerda para atuar na conjuntura (2) é proporcional à incapacidade analítica deste diagnóstico em decifrar a realidade política que vivemos.

Ao separar a cena política em dois blocos, um conservador e outro progressista, a intelectualidade lulista retoma o dualismo interpretativo de liberais e nacionalistas brasileiros. A metafísica deste diagnóstico encontra-se precisamente na ocultação da dominação de classe exercida por neoliberais e neodesenvolvimentistas. Bem como na ignorância, que só a dialética de nosso marxismo antidualista resolve, do fato de que nossos conservadorismos (como o da ditadura de 1964), ao se desgastarem, levam aos progressismos (caso do posterior período da redemocratização), e vice-versa – o lulismo é o perfeito exemplo contrário. E mais do que isso, eles se alimentam mutuamente: os progressistas Lula e Dilma sempre governaram com coronéis fisiológicos, empreiteiras corruptas, evangélicos conservadores etc.; os governos FHC não tiveram uma agenda regressista na área dos direitos humanos; a ditadura militar foi industrializante, estatólatra e até nacionalista, e por aí vai.

Um caso anedótico que serve de exemplo é o do ex-ministro da Educação de Dilma, Renato Janine Ribeiro, professor universitário que não recebia para negociar o sindicato que representava sua própria categoria profissional, o ANDES-SN, quando da greve docente nacional de 2015. E que, no cotidiano pós-“golpe”, segue dando força para a Rede Globo golpista ao divulgar um famoso e bisonho reality show (3). Populismo lulista e neoliberalismo necessariamente se retroalimentam, pois são dois esteios da mesma ordem do Capital.

Sendo assim, não faz sentido a esquerda conformar um destes dois campos políticos burgueses, nem ao menos taticamente, uma vez que, em termos estratégicos, um leva ao outro historicamente. Muito menos reproduzir as piores práticas de nossas tradições populista e liberal, o que vemos na decisão burocrática (golpista?) da artificial maioria do PSOL de não realizar prévias para escolher sua candidatura presidencial. É o que se observa também no candidato definido pela legenda, o neolulista Guilherme Boulos, ao se comportar como um ungido (tal qual Lula...), pois foge de contraposições com a militância em favor dos acordos de gabinete com dirigentes e parlamentares do partido.

Haveria evidência mais clara de conversão ao lulismo? Mesmo parte da esquerda psolista abre mão desses princípios básicos de um partido socialista classista, na medida em que dá esse giro na direção do PT e de quem agora orbita a seu redor.

Felizmente, uma parte da esquerda classista resiste e avança no sentido de caracterizar o lulismo como expressão de uma política burguesa não liberal – “capitalismo burocrático”, na conceituação clássica de Caio Prado Jr em “A Revolução Brasileira” – que angaria ainda algum apoio popular. E que, por isso, trata-se de inimigo de classe dos trabalhadores.

A grande inovação do nascente PSOL da década passada foi, de fato, sua índole eminentemente anticapitalista, simultaneamente antineoliberal (contra os governos do PSDB e cia.) e anti-neodesenvolvimentista (oposição de esquerda a Lula e Dilma). Seu atual foco exclusivo na crítica ao neoliberalismo ou ao conservadorismo significa uma regressão no acúmulo histórico da esquerda brasileira e uma adesão ao nacionalismo burguês de viés desenvolvimentista (4).

Ascensão conservadora e fascismo na ótica dos intelectuais

A fragilidade do discurso do golpe também se percebe no diagnóstico da ascensão conservadora. Mas se a primeira narrativa peca por inadequação e contradição (o Brasil e sua democracia iam às mil maravilhas até 2013, passando a ser o absoluto oposto apenas com a derrocada do lulismo...), a segunda é enviesada e reducionista ao observar a realidade.

Ambos os diagnósticos têm grande ressonância por se ajustarem de modo notável à intolerância e à superficialidade dominantes na política tradicional no Brasil dos últimos anos, fortes também na internet e redes sociais. O que um marxista ortodoxo chamaria de irracionalismo na verdade explicita a velha e boa luta de classes, nem sempre palatável aos intelectuais.

Mas tal cenário não deve nos impedir de constatar e combater um falso alarmismo de encomenda para um certo público progressista, temeroso de uma suposta ameaça fascista e que hoje está sob domínio da bolha lulista no mundo digital – os seus homólogos da direita neoconservadora procedem da mesma forma com outra pauta.

Como bem afirma Pablo Ortellado, estes dois “grupos de poder” “usam estrategicamente as mídias sociais para nos fazer agir por impulso, irrefletidamente, tomados por medo ou por indignação (...) uma espécie de aliança tácita entre as plataformas que querem nos viciar e os grupos políticos que querem nos manter permanentemente assustados e indignados. Aos dois atores interessa uma avalanche de notícias aterrorizantes em fluxo constante” (5).

A configuração de um conservadorismo especialmente forte apenas com a queda de Dilma não se sustenta, pois a ânsia pela modernidade ou pelas novidades, mesmo como modismos importados (ideias fora do lugar em Roberto Schwarz, distinção em Bourdieu), sempre foram marcas de determinados segmentos de nossas classes privilegiadas, especialmente as de maior capital cultural. Por isso a Rede Globo nunca entrou na “onda conservadora”, bem como denunciou o obscurantismo da calculada campanha do MBL contra museus em nome do “combate à pedofilia” (6). Nossas ditas classes médias reagem fortemente se o “fascismo” bate à sua própria porta...

É possível que um conservadorismo, instrumental antes que orgânico, seja empurrado pelos “de cima” para as classes subalternizadas brasileiras. Mas mesmo neste caso as diversificadas expressões artísticas populares não deixam de ser apropriadas culturalmente pelo status quo. Enquanto o MBL inutilmente produz fake news contra Pabllo Vittar (que faz enorme sucesso entre ricos, descolados e pobres), políticos tradicionais como ACM Neto, prefeito de Salvador, tiram casquinha da popularidade da artista trans (7) – um momento que poderia ser o epitáfio da narrativa da ascensão conservadora. Outros artistas alvo de preconceito são avidamente disputados pela indústria cultural e publicitária, a fim de promoverem “valores das marcas, como inclusão e diversidade” (8).

Ao mesmo tempo em que o lulismo – e socialistas a seu reboque – combatem um fantasma conservador gestado dentro do seu inevitável campo de alianças, o progressismo capitalista continua explorando e comercializando a inventividade e expressividade anticonservadora dos trabalhadores.

Se examinarmos com mais atenção, ignorando a gritaria emburrecedora de “coxinhas” e lulistas, facilmente observam-se sinais contrários aos simplistas discursos dominantes:

- o STF “golpista” garante mais direitos à população LGBT e às mulheres pobres, refletindo suas lutas (9);

- o progressista blog do Nassif assume pontualmente a defesa do conservadorismo e do racismo (10);

- o ilegítimo governo Temer vota contra Israel e EUA na Assembleia Geral da ONU (11);

Pode-se concluir que o conservadorismo no Brasil (para não dizer no mundo) é um fenômeno menor do que faz parecer os nele interessados, sejam seus defensores, seus estudiosos ou os que alardeiam sobre este “perigo” para nossa “civilização”.

O diferencial da conjuntura recente reside, portanto, no acirramento das lutas – à esquerda e à direita – e na crise que a conciliação de classes sempre lega à classe trabalhadora.

Depois que a crise econômica mundial de 2008 fez ruir o sonho economicista de um capitalismo “justo” sob o lulismo (e agravou a crise de representação da “modernidade organizada” (12) sob o decadente fordismo), a satisfação e a acomodação de quase toda a sociedade brasileira foram substituídas por velhos e novos engajamentos políticos, que muitas vezes fogem à uma “racionalidade” socialdemocrata professada, secretamente ou não, por nós intelectuais.

É nesse contexto que são inteligíveis expressões ideológicas tão díspares como os salvacionismos progressistas (Lula) e conservadores (Bolsonaro), o ultraliberalismo de internet, os marxistas de Facebook, o novo populismo disfarçado de esquerda (Boulos), os diversos e legítimos identitarismos, a renovação de velhas religiosidades, as teorias da conspiração etc.

E mais: a direita tradicional, após anos de hegemonia lulista, se mobilizou contra “governos de esquerda” imitando, premeditadamente, o repertório que a verdadeira esquerda sempre apresentou quando na oposição na sociedade civil, mas com pautas ligeiramente diferentes:

a) a ameaça externa não é o imperialismo, mas um “globalismo” (liberal?);
 
b) o status quo a ser criticado não é mais o da alienação, mas o “politicamente correto”;

c) os inimigos poderosos não são mais a burguesia e seu Estado, mas os políticos corruptos e a “esquerda caviar”;

d) até os escrachos públicos passaram a ser realizados contra personalidades progressistas, não contra políticos, empresários ou intelectuais conservadores.

O uso da internet e redes sociais parece ser a novidade deste ativismo neoconservador de ocasião. De qualquer maneira, o quadro assim composto assusta a intelectualidade progressista, que identifica um ilusório avanço fascista. Ao mesmo tempo, revela seu caráter socialdemocrata, seguindo a lição reformista propugnada por Poulantzas: “manter-se tranquilo e andar na linha sob os auspícios e a palmatória da democracia liberal avançada” (13).

Mas nosso problema e desafio são outros. Os socialistas e revolucionários não deixam de enfrentar eventuais retrocessos conservadores ensejados por governos progressistas fracassados. Mas o melhor combate a tal inimigo é a luta estratégica contra toda e qualquer dominação capitalista, não apenas a extrema-direita, mas notadamente o “centro-extremo” (como bem aponta Tariq Ali (14)), por vezes liderado por políticos de origem na esquerda – casos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, com diferentes matizes políticas.

O viés socialdemocrata, populista ou puramente liberal da intelectualidade progressista revela-se mais cruamente na sua inoperância militante, visto que acredita piamente na democracia representativa. Quanto mais estridente é nas redes sociais, mais paralisada se mostra na vida real da democracia participativa. Mobiliza-se por abaixo-assinados (seguindo a antiga tradição intelectual, desde o famoso Caso Dreyfus na França de fins do século 19), mas não mais consegue conceber greves ou ações diretas como instrumentos históricos da classe trabalhadora.

Ademais, uma dimensão conservadora, de classe mesmo, explicita-se no momento em que os intelectuais lulistas se mexem apenas quando o “fascismo” ou a criminalização perturba seu cotidiano cívico de incluídos sociais. Solidarizam-se com Lula e Dilma, mas não com negros, mulheres e jovens pobres que sofrem sob o encarceramento em massa produzido pelos governos do PT a que serviram.

Seu cinismo intelectual e político denuncia o Estado de Exceção apenas quando este, promovido por eles mesmos nos governos petistas, atinge outros segmentos sociais para além das camadas populares.

Buscando superar os atuais horizontes políticos e intelectuais no Brasil

A este cinismo se combina um irracionalismo, termo péssimo, mas aqui usado apenas para colocar frente ao espelho justamente os intelectuais lulistas: tão ciosos das Luzes e da democracia, mas hábeis também no exercício da intolerância política e reflexiva, tal como os demais atores ordinários da cena política. Afinal de contas, porque os possuidores de capital cultural haveríamos de estar isentos da crise nacional?

À direita e à esquerda muito se escreve de propaganda, mas não de análise, sobre a relação emocional – já anacrônica, é bom que se diga – entre o “povão” e Lula, por exemplo. Para a intelectualidade progressista, não se trataria de irracionalismo, ao contrário dos que buscam uma solução na canalhice reacionária de um Bolsonaro. Intolerantes sempre são os outros, não os filiados ao campo lulista.

Outro exemplo é expressivo da alienação de muitos intelectuais encastelados nas universidades ou em órgãos estatais vinculados a políticas públicas. Incapaz de buscar em si mesma responsabilidades pelo atual estado das coisas, esta intelligentsia burocrata, que sustentou o lulismo e não consegue imaginar por que ruiu o castelo de cartas que ela própria ajudou a edificar, dedica-se a teses bizarras, como o retorno do Rio de Janeiro à condição de capital federal (15). Tal proposição equivale às teorias da conspiração mais obscurantistas, como o terraplanismo. Nós intelectuais sabemos de nossas proezas históricas em termos de alheamento da realidade... (16)

Uma das vias possíveis para mudar o presente cenário político-intelectual brasileiro, além da óbvia rearticulação de movimentos sociais autônomos que vem ocorrendo deste o início desta década, consiste, a meu ver, no processo intelectual real de fazer o caminho de volta do aparelho de Estado para os espaços de rearticulação societária da classe trabalhadora, desde baixo. Voltar a ser militante, voltar a ser uma intelectualidade orgânica, vinculada a movimentos populares contestatórios, em detrimento de se portar como uma tecnocracia estatólatra.

Talvez assim intelectuais progressistas possam reconquistar alguma agência (no sentido sociológico do termo), alguma capacidade maior de interferência no mundo, para além de chorar na internet as mágoas do “retrocesso” que vivemos. Falar um pouco menos e agir muito mais.

Talvez assim também possa nosso campo intelectual deixar de subestimar a agência de nossas classes populares, operação corriqueira nas tradições liberal e nacionalista do pensamento social e político brasileiro. Deixar de subsumir nossos segmentos subalternos a uma liderança carismática, operação basilar realizada pelo populismo varguista e pelo neodesenvolvimentismo lulista. Procedimento agora reproduzido pelo MTST na frente política que dirige: “O impedimento da candidatura de Lula retira do povo sua soberania” (17).

Repete-se o mantra populista, desvendado pela sociologia marxista uspiana nos anos 1960, que identifica os trabalhadores com um líder político conciliador – que necessariamente lhes retira protagonismo histórico enquanto classe. A novidade e gravidade residem no fato de uma entidade popular de trajetória autônoma e classista, como o MTST, regredir a esse tipo de raciocínio eleitoreiro, que não faz jus ao acúmulo de lutas de nossos movimentos sociais mais combativos.
 
A candidatura de Boulos pelo PSOL expressa regressão igual, na medida em que parte de nossa esquerda socialista, ainda que a mais burocratizada, se insere no seio do lulismo. Trata-se não apenas de liquidacionismo partidário e traição de classe, mas de imersão na política burguesa, a qual, seja neodesenvolvimentista ou neoliberal, preserva a histórica desigualdade brasileira por trás de políticas sociais compensatórias mais ou menos efetivas (18).

Expressa ainda uma colonização do PSOL carioca (muito mais forte e militante) pelo PSOL paulista. Este literalmente está no olho do furacão: o cerne da intelectualidade lulista encontra-se em São Paulo.

Em contrapartida, as novas gerações da classe trabalhadora, grande parte da juventude, estão abrindo outros caminhos, ignorando envelhecidas pautas reformistas e promovendo lutas autônomas em torno dos mais diversos marcadores sociais da exploração e opressão de classe, de gênero, étnico-racial etc. Acusados de radicalismo identitário, felizmente ignoram as reprimendas que lhes são direcionadas pelos mais acomodados – assim como no passado o então combativo PT não dava ouvidos à velha esquerda pecebista e trabalhista.

Formulam inclusive novas questões para nossas ciências humanas. Abordam de modo engajado as movimentações e lutas de classes e demais grupos da sociedade brasileira. Talvez, inclusive, na perspectiva de superar, na ótica dos subalternos, os discursos acadêmicos dominantes em torno dos “feitos” da institucionalidade e democracia burguesas no Brasil. Discursos que valorizam nossos atuais especialistas em políticas públicas, bem como os velhos statemakers do pensamento brasileiro – quase sempre homens brancos ilustrados pertencentes às classes dominantes machistas, racistas e homofóbicas, que se arvoravam a saber o que é melhor para o “povo” sem consultá-lo.

Leia também:

1) Ver meu artigo com Viviane Becker Narvaes no Correio da Cidadania, “Depois da farsa do golpe: perspectivas da esquerda classista na crise brasileira em 2016”: http://www.correiocidadania.com.br/72-artigos/imagens-rolantes/11673-depois-da-farsa-do-golpe-perspectivas-da-esquerda-classista-na-crise-brasileira-em-2016.

2) Simetricamente, a narrativa do golpe arma o lulismo desmobilizador contra a resistência classista, no plano dos movimentos sociais – como está explícito numa das bandeiras da oposição sindical cutista no ANDES-SN: “Foi golpe sim!” https://renovaandes.org/2018/02/22/foi-golpe-sim-nota-de-solidariedade-ao-professor-luis-felipe-miguel.

3) Veja-se a coluna de Mauricio Stycer na Folha de São Paulo de 04/02/2018: “O filósofo, a cientista política e o BBB”.

4) A respeito, veja-se meu artigo “Algumas questões para a militância socialista, revolucionária e libertária nos dias de hoje” https://campodebatesocialistarj.wordpress.com/2012/07/05/algumas-questoes-para-a-militancia-socialista-revolucionaria-e-libertaria-nos-dias-de-hoje .

5) Conforme seu post no Facebook às 21:40hs de 18.02.18: https://www.facebook.com/ortelladopablo  

6) Por meio de uma reportagem no programa Fantástico de 08.10.2017. 

7) http://viajay.com.br/blog/visualizar/prefeito-de-salvador-celebra-a-diversidade-com-pabllo-vittar.

8) “Publicidade é o novo alvo de Jojo Toddynho”, reportagem de O Estado de São Paulo de 12.02.2018. Outro exemplo no mesmo sentido é o recente sucesso do hollywoodiano “Pantera Negra”.

9) Respectivamente: https://www.cartacapital.com.br/diversidade/trans-poderao-mudar-de-nome-no-registro-civil-sem-cirurgia-decide-stf; e http://www.huffpostbrasil.com/2018/02/20/stf-decide-que-gravidas-e-maes-de-criancas-ate-12-anos-podem-cumprir-prisao-domiciliar_a_23366814 .

10) Ver: https://jornalggn.com.br/noticia/a-defesa-do-mercado-de-odio-no-caso-waack-por-luis-nassif; e https://jornalggn.com.br/noticia/consideracoes-sobre-o-episodio-william-waack-por-luis-nassif.

11) https://g1.globo.com/mundo/noticia/onu-condena-por-ampla-maioria-a-decisao-dos-eua-sobre-jerusalem.ghtml.

12) Ver “A crise da modernidade – a sociologia política no contexto histórico”, de Peter Wagner, Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 11, n. 31, 1996.

13) Coleção Grandes Cientistas Sociais n. 47 – Poulantzas, São Paulo, Ed. Ática, 1984, pg. 170.

14)  http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/09/1921186-chorar-vitoria-de-trump-e-ignorancia-historica-afirma-ensaista-tariq-ali.shtml

15) https://www.cartacapital.com.br/politica/por-que-nao-reconhecer-o-rio-como-segunda-capital-do-brasil

16) Ver ainda meu artigo “Coxinhas e governistas: dupla face da intolerância da classe média?” no Correio da Cidadania: http://www.correiocidadania.com.br/politica/11186-27-10-2015-coxinhas-e-governistas-dupla-face-da-intolerancia-da-classe-media.

17)  https://esquerdaonline.com.br/2018/01/18/nota-da-frente-povo-sem-medo-em-defesa-da-democracia-e-do-direito-de-lula-ser-candidato .

18) A respeito, veja-se: http://m.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/10/1922936-se-pobre-melhorou-nao-estou-nem-ai-pro-rico-diz-ricardo-paes-de-barros.shtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=compfb.

Marco Antonio Perruso é professor de Sociologia da UFRuralRJ, militante do ANDES-SN e do PSOL.

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