Lula da Silva: o sentido histórico de uma condenação

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O timing da condenação de Lula da Silva foi de relógio suíço. Deu-se após duas semanas do fracasso da greve geral e enquanto o Senado aprovava, por larga maioria e sob o silêncio das ruas, assalto histórico aos direitos trabalhistas. Se milhões de trabalhadores tivessem descido às ruas, Sérgio Moro esperaria tempos melhores para acionar sua guilhotina e o Senado comportar-se-ia em forma diversa.

No frigir dos ovos, a condenação é parte de uma história muito mais ampla. É apenas a cereja do bolo que há anos é assado, tendo o imperialismo como doceiro e como auxiliares obedientes segmentos nacionais proprietários. Para compreensão mais ampla dos sucessos atuais, temos que nos debruçar sobre o passado.

A submissão plena do Brasil ao status de país semicolonial, sob o tacão do capital mundial, impulsionada no último meio século, alcança hoje nível exacerbado. Nos anos 1930, o Brasil e outras nações das Américas viveram condições históricas propícias à gênese de capitalismo autônomo, sob a hegemonia de classes burguesas nacionais, voltado ao mercado interno e apoiado nos trabalhadores fabris. No Brasil, esse movimento conheceu a oposição das classes agrário-exportadoras pré-capitalistas, vergadas naqueles anos.

Nos anos 1950, o processo de industrialização por substituição de importações motivara regressão do status semicolonial conhecido durante a Colônia (1532-1822), Império (1822-1889) e República Velha (1889-1930). Ou seja, situação de autonomia política formal e submissão das decisões econômicas centrais ao capital externo. Após a II Guerra Mundial, acaudilhados pelo imperialismo, a agroexportação, o frágil capital bancário nacional, as classes médias etc. mobilizavam-se contra aquele movimento, sem resultados imediatos.

Entretanto, naqueles anos, o processo de industrialização sustentado pelo capital público e privado nacional, apoiado no mercado interno, entrou em crise, sobretudo devido à inconclusão da “revolução democrático-burguesa”, realizada em forma “passiva”, “fatiada” e “limitada”, com momentos altos na Revolução Abolicionista (1888), que unificou o mercado de trabalho, e na “Revolução de 1930”, que impulsionou a industrialização e a construção do Estado-nação brasileiro.

Para seguir no processo industrialista nacional, impunha-se reforma agrária radical; fortalecimento dos bancos públicos; construção de tecnologia nacional; universalização das leis trabalhistas; transição da exploração industrial extensiva à intensiva e aumento substancial dos salários etc. Algumas medidas propostas, timidamente, pelas “Reformas de base” janguistas.

Tacão imperialista

Nos anos 1960, a burguesia industrial nacional submeteu-se ao imperialismo, temendo o fortalecimento do mundo do trabalho com a aplicação das políticas necessárias à retomada do nacional-desenvolvimentismo, que as fortalecera. Mostrou plenamente sua incapacidade de acaudilhar a revolução democrática brasileira. Em 1º de abril de 1964, ela encontrava-se, toda, no bloco social que entregou o governo aos militares, inicialmente sob a hegemonia estadunidense, representada pelo governo ditatorial de Castelo Branco (1964-67). O golpe dentro do golpe, realizado pela entronização de Costa e Silva, em março de 1967, e dos ditadores seguintes, até 1985, expressou-se na defenestração dos liberais castelistas Octávio Gouveia de Bulhões e Roberto Campos da direção da economia, substituídos por Delfim Netto, jovem economista, desenvolvimentista, representante da indústria paulista.

A proposta inicial imperialista e udenista de privatização das empresas públicas e liberalização das importações cedeu lugar a uma forte expansão das estatais, do sistema bancário público, da tecnologia nacional e à reserva ao capital tupiniquim de novos ramos industriais - telefonia, informática etc. A ordem militar retomou também o projeto getulista de parque militar e do armamento atômico, que resultou no rompimento do acordo militar, em 1977, com o governo dos EUA.

A grande ruptura com o projeto getulista foi o abandono da poupança e do mercado internos como sustentações do nacional-desenvolvimentismo. Apoiando-se nas exportações e nos empréstimos internacionais na época baratos, a ditadura viabilizava a superexploração dos trabalhadores, devido ao deslocamento do mercado interno como espaço primordial de realização (consumo) da produção interna. No nacional-desenvolvimentismo populista, a hegemonia (dominação) burguesa sobre os trabalhadores impunha o consenso (concordância-submissão) através de concessões e da repressão. Na ordem militar, a repressão tornava-se o polo fortemente dominante.

Fim do milagre

Em 1973-74, a crise mundial (“choque do petróleo”) inviabilizou o padrão desenvolvimentista autoritário. Os juros da dívida subiram às estrelas e o mercado consumidor mundial caiu em picada. Com a insolvência do Brasil, os militares cortaram os investimentos e impulsionaram a inflação e o “arrocho salarial”, para pagar a dívida externa. A nova situação alienou o apoio ao regime de importantes segmentos das classes médias e relançou a luta sindical, silenciada desde 1968.

No bloco social mobilizado pela “redemocratização” do país encontravam-se igualmente os segmentos do capital nacional e internacional “antiestatistas” e sobretudo “privatistas", que se organizaram para abiscoitar, em condições excepcionais, as propriedades estatais construídas especialmente nos anos getulistas e fortemente potenciadas durante o vinteno ditatorial. Essas forças organizaram-se pela derrota das eleições diretas e, a seguir, por governos que impulsionassem suas exigências. Então, o imperialismo se apoiava no já poderoso sistema bancário nacional e em importantes núcleos da indústria, além do latifúndio, de decrescente importância.

A entronização presidencial de Collor de Melo, em março de 1990, foi um falhanço, mesmo tendo alienado importantes bens estatais e avançado iniciativas antipopulares exigidas pelo grande capital. Ao contrário, os oito anos da era fernandina (01/1995-01/2003) foram um enorme sucesso. Após a privatização desenfreada, pouco sobrou das joias da coroa, à exceção do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, do BNDES, da Petrobrás.

Implementaram-se também importantes ataques aos direitos do mundo do trabalho e o redimensionamento da autonomia nacional. Sob a política de juros astronômicos, a dívida pública explodiu. Desmontou-se o ensaio de superação do status semicolonial do Brasil, avançado pelo projeto popular desenvolvimentista, voltado ao mercado interno, de 1930-1950, com a subordinação do operariado industrial; e pelo desenvolvimentismo autoritário, dos anos 1967-85, voltado ao mercado mundial e apoiado na superexploração dos trabalhadores.

Por primeira vez na história do Brasil contemporâneo, durante os governos de FHC, materializou-se a perda efetiva do controle das decisões econômicas centrais do país pelas classes dominantes nacionais em favor do grande capital mundial. Pedro Malan, como ministro da Fazenda, e Armínio Fraga, ex-funcionário do capital especulativo mundial, na presidência do Banco Central, circunscreveram essa realidade. No período Sarney-FHC, desmontou-se a reserva de mercado e as indústrias bélica e aeronáutica, assim como o projeto atômico da ditadura militar.

O Mundo do Trabalho em busca de seu destino

Não é aqui o momento de discutir as raízes históricas, políticas, ideológicas etc. da debilidade do movimento operário, antes e após o Brasil se constituir como Estado-Nação. O fato é que os trabalhadores do Brasil jamais conseguiram transitar plenamente, como um todo ou em grande parte, da situação de “consciência em si” (surgida da existência material) para a de “consciência para si” (produto da organização e construção de programa próprio).

Os anos de meados da década de 1970 foram exceção. No contexto da impulsão industrialista quando do “Milagre Brasileiro”, que fortaleceu sobretudo os trabalhadores metal-mecânicos, químicos, da construção civil e do sistema bancário, o mundo do trabalho, mobilizado na luta pela recomposição salarial, ensaiou movimento autonômico político e sindical, que resultou na fundação do PT, tendencialmente anticapitalista, em 1980, e da CUT, claramente classista, em 1983.

Pelos azares da sorte, os dois movimentos tiveram como símbolo nacional o nordestino Luiz Inácio da Silva, o Lula, dirigente do Sindicato de Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, principal polo do confronto sindical com a ditadura, no final dos anos 1970. Quando despontou como liderança sindical, Lula da Silva tinha escassa formação política e jamais participara da luta contra a ditadura, apesar de já ter, em 1975, 30 anos. Nesse então, declarou-se anticomunista. Décadas mais tarde, confessaria que jamais fora de esquerda, tendo se definido liberal em entrevista recente.

O momento de construção autonômica do mundo do trabalho, impulsionado pelas grandes lutas sindicais daqueles anos, dissolveu-se sob o impacto da crise econômica dos anos 1980 - “Década Perdida”; da explosão do desemprego e da inflação; da restruturação da economia e da produção etc. Foi enorme o efeito do tsunami neoliberal que materializou a derrota histórica mundial dos trabalhadores, precisamente enquanto o PT e a CUT se organizavam e se institucionalizavam.

Com a dissolução da URSS, em 1990, e dos países de economia nacionalizada e planejada, o ponteiro da história recuou dolorosamente e os trabalhadores, sob o açoite da derrota, passaram a literalmente desacreditar de seu programa para a resolução da crise social (“crise de subjetividade”). Não era o proposto “fim da história”, mas a instalação plena de movimento de “contrarrevolução permanente” que se mantém até hoje. Ele se assanharia sem piedade contra os direitos nacionais e sociais de bilhões de cidadãos e trabalhadores através do mundo.

A proposta “fase heroica”, pura e dura, do Partido dos Trabalhadores, começou a dissolver-se antes de consolidar-se. Sob a hegemonia de Lula da Silva e seu núcleo duro - José Dirceu, Antônio Palocci, Gilberto Carvalho, Luiz Gushiken, Marco Aurélio Garcia etc. - impôs-se a hegemonia partidária dos parlamentares, profissionais etc. reprimindo-se a organização pela base. A metamorfose apoiou-se em vastos setores da militância, do movimento sindical, da sociedade brasileira, desmoralizados pelo refluxo social ou que tinham - ou podiam ter - o que ganhar com a colaboração com o capital. A adesão à proposta de gestão compassiva do capitalismo dominou a direção petista, seus parlamentares, administradores etc.

Por longos anos, no contexto da orientação socialdemocrática e, logo, social-liberal, o PT manteve-se como referência de trabalhadores e assalariados, sob a pressão dos quais parlamentares petistas interromperam ou mitigaram ofensivas contra os direitos sociais. Porém, o PT administrou municípios e estados em sintonia com o capital e sem avançar qualquer iniciativa social estrutural. O PT anticapitalista foi pinto que morreu na casca do ovo. Igual colaboracionismo consolidou-se na CUT e foi facilitado pela defecção de sindicalistas classistas para fundarem “centrais” vermelhas ou partidárias.

Oferecendo a mão

Com a desmoralização geral do segundo governo FHC, o grande capital aceitou a oferta do lulismo para assumir a presidência, avançar as políticas neoliberais e impor, devido ao prestígio-controle do movimento social, ataques aos direitos dos trabalhadores que Collor de Melo e FHC não tiveram a força de empreender. As promessas ao capital foram cumpridas caninamente, nas três e meia administrações do PT. Privatizações, desregulamentação, ataque à economia popular, arrocho salarial, alta remuneração e financiamento do capital etc. As decisões econômicas centrais seguiram entregues ao grande capital mundial. Acordos draconianos foram firmados com o FMI.

A submissão ao capital constituía caminhada sobre fio da navalha, já que ela ensejava perda crescente do apoio social que o petismo militava para controlar e desmobilizar. Devido à perda tendencial do apoio dos trabalhadores, o petismo procurou reconstituir nova base eleitoral. Contribuiu para a diluição da consciência social classista, promovendo estatisticamente os trabalhadores à “classe média”; incentivou recorte suprassocial entre brancos/não-brancos etc. Sobretudo, perseguiu o apoio eleitoral através de “políticas compensatórias” dirigidas aos setores mais atrasados da população, propostas pelo Banco Mundial.

A corrupção desbragada em que mergulharam milhares de petistas fez parte do deslizar social-liberal do partido. A evaporação da base militante e o novo padrão político-eleitoral exigiam campanhas cada vez mais caras, necessariamente financiadas pelo capital. Os serviços prestados ao capital permitiam igualmente fácil enriquecimento pessoal e a ilusão de que as classes dominantes teriam a mesma complacência com os serviçais petistas que sempre mostraram com a direita tradicional.

O grande capital e o imperialismo já retiraram o apoio à primeira administração de Dilma Rousseff (2011-14), na procura da imposição ao país presidente conservador puro-sangue e não mais terceirizado. As mobilizações de junho de 2013 liquidaram o mito do controle petista do movimento social. Portanto, o PT não prestava mais os serviços para os quais era pago. Entretanto, a rejeição do colaboracionismo petista tinha raízes mais profundas e era fenômeno internacional.

O fim da bonança dos altos preços das commodities, o retorno da crise econômica mundial, a retomada da ofensiva imperialista geral contra o Irã, Líbia, Síria e, sobretudo, Rússia e China exigiam: uma submissão mais profunda ao imperialismo; a destruição das veleidades de núcleos capitalistas nacionais; maior superexploração do trabalho; pagamento incondicional da dívida. O capital hegemônico mundial exigia salto de qualidade na reorganização semicolonial do país em desenvolvimento.

A estratégia escolhida foi a “revolução de veludo”, contra a “corrupção”. Ou seja, golpe não militar apoiado na mobilização das classes médias, inaugurado na Tchecoslováquia, em 1989, e, a seguir, em outras nações. Uma iniciativa viabilizada pela crescente corrosão das condições de vida da população brasileira, que levava à exasperação classes médias agoniadas pela radicalização do “capitalismo social de mercado”, onde o Estado nada fornece, tudo se paga caro e o supérfluo se torna imprescindível: aluguel, previdência, condomínio, segurança, transporte, saúde, educação, telefonia, entretenimento etc.

A hora e a vez de Dilma

Com a desmoralização da política, a Justiça transformou-se no grande instrumento da “revolução de veludo” antipetista. Em agosto de 2012, o STF iniciou o julgamento de quase 38 réus inculpados de corrupção devido ao financiamento ilegal de parlamentares da base de sustentação do governo Lula da Silva - o “Mensalão”. O sangramento cotidiano do PT pela mídia, agora com destaque para a Operação Lava Jato, estendeu-se até as eleições de outubro de 2014, com a esperada vitória do candidato do PSDB.

A condenação de José Dirceu sem provas, a partir de excrescência jurídica “ad hoc”, o “domínio do fato”, registrou o radicalismo da ofensiva conservadora associando o imperialismo, a Justiça, a mídia, o conservadorismo. Nessa abnormidade jurídica, o réu é condenado a partir da simples convicção subjetiva do juiz. Propõe-se que o réu, por sua posição funcional, tem necessariamente conhecimento e, portanto, responsabilidade em ato criminoso, mesmo que falte prova sobre essa relação. O paladino da operação, o juiz Joaquim Barbosa, santificado pela mídia, fora escolhido por Lula da Silva por ser negro.

A condenação do segundo homem do PT deu-se sem resistência do partido e do governo, ainda mais que ele competia com Lula da Silva no controle do aparato petista. Por sua vez, Dilma Rousseff tudo fez para separar a si e a sua administração da corrupção dos governos lulistas, esperando assim escapar do abate. Deixou que a Justiça e a Polícia Federal se assanhassem, primeiro, contra o PT e as administrações lulistas e, logo, contra sua administração e presidência.

Durante a campanha de 2014, exacerbadas pela mídia, com destaque para o RJ-SP, sobretudo as classes médias realizaram manifestações multitudinárias contra o petismo, identificado como responsável de toda a corrução. Organizações como “Vem Para Rua”, “Movimento Brasil Livre”, “Não vou pagar o pato” foram treinadas e financiadas pelo grande capital, a partir de experiências golpistas sistematizadas em outras regiões do mundo.

Dilma promete e não cumpre

A administração Dilma Rousseff promoveu literal farra de recursos públicos, para manter artificialmente o emprego e a atividade econômica e vencer as eleições - mega-renúnciais fiscais; crédito subvencionado; diminuição do preço da eletricidade; distribuição a rodo de bolsas de estudos etc. No segundo turno, a apresentação de Dilma como anteparo às privatizações e defensora dos direitos trabalhistas - “não mexo em direitos trabalhistas nem que a vaca tussa” - garantiu a reeleição por pouco mais de três milhões e 400 mil votos. O PT venceu o quarto pleito devido à alta votação no Nordeste pobre e pouco industrializado (doze milhões de votos de diferença), registrando a perda de operários, assalariados, profissionais etc.

Já no discurso de posse, a presidenta renegou as promessas eleitorais e abraçou as políticas neoliberais do opositor, procurando reconquistar o apoio do grande capital. Nomeou ministério de direita; dificultou a obtenção do seguro-desemprego, do auxílio-doença, do abono salarial, da pensão por morte; cortou o orçamento e investimentos e aumentou a gasolina, a eletricidade, a carga tributária, afundando o país na recessão, à procura da redução dos salários e do pagamento a qualquer custo da dívida externa e interna.

As políticas conservadoras de Dilma Rousseff serviram apenas para alienar o que lhe restava de apoio popular. Sua deposição, através de golpe institucional, foi votada, sem grande oposição popular, por deputados até havia pouco parte da “base de sustentação” do governo. A escusa foi a prática de “pedaladas fiscais”, isto é, artifício contábil para fechar as contas públicas, habitual em todos os governos anteriores.

O sentido do golpe

O golpismo não se mobilizava contra Dilma Rousseff, disposta a tudo para salvar seu governo. Apoiado no parlamento, na Polícia Federal, na Justiça, na mídia, nos partidos conservadores etc. ele buscava acelerar o arrasamento do país, segundo as exigências do grande capital e do imperialismo, quanto a gastos públicos, privatizações, leis trabalhistas, autonomia e política internacional etc. Buscava salto de qualidade no processo de liquidação da autonomia nacional já em curso.

A ponta de lança da operação golpista era a criminalização do PT, então no governo - e visto ainda pela população como o partido de esquerda no Brasil. Em 17 de março de 2014, durante primeira gestão Rousseff, inaugurava-se, no Paraná, a Operação Lava Jato, inspirada na “Mãos Limpas” italiana, sob a liderança de jovens juízes conservadores. A estrela da operação, Sérgio Moro, estudara na Harvard Law School, em 1998, e fora treinado pelo Departamento de Estado dos EUA. Inicialmente, a operação e o “Caçador de Corruptos” conquistaram amplíssima simpatia, sobretudo entre as classes médias, por além de posições políticas, ao encarcerar ricos empresários, algo jamais visto no país.

Muito logo, a ação de Sérgio Moro e auxiliares revelou o caráter arbitrário, ilegal e politicamente orientado das investigações. Para alcançar seu objetivo precípuo, incriminar altos dirigentes petistas e, sobretudo, Lula da Silva, a Lava Jato vazou informações reservadas; grampeou a presidência da República e advogados de defesa; manteve suspeitos excelentes sob literal sequestro até obter as “delações” que lhe interessavam, “premiadas” a seguir com anistias de pena e devolução de bens.

A acusação de Lula da Silva mostrou-se operação difícil, já que, mais esperto que políticos petistas e da oposição, limitou-se a embolsar o régio pagamento de palestras encomendadas por grandes empresas, não raro por seu serviço de “garoto propaganda” das mesmas no exterior. Algo inaceitável para um líder operário, mas legal e praticado habitualmente por políticos prestigiados, no Brasil e no exterior. E, não raro, pelos senhores juízes.

A insistência em defender, sem qualquer prova material, que um amplo apartamento de qualidade discutível (tríplex do Guarujá) e um sítio em Atibaia, também pouco luxuoso, como propriedades ocultas de Lula da Silva, levou Sérgio Moro a forte descrédito, ainda mais quando vazou a corrupção explícita faraônica de políticos ligados ao golpe. O rigor para além da legalidade da Justiça com os petistas chocou-se também com a leniência quase total com criminosos explícitos conservadores.

A serviço do grande capital

A Lava Jato centrou-se nas práticas ilegais de administradores de grandes empresas nacionais públicas e privadas, ensejando a imediata liliputização e promessa de privatização da Petrobrás, Caixa, BNDES e desarticulação das grandes empreiteiras (Odebrecht, Camargo Correa, Engevix, OAS etc.), desacreditadas e obrigadas a pagar multas milionárias no Brasil e exterior. O monopólio do mercado nacional e o dinamismo no exterior das megaempreiteiras prejudicavam suas congêneres estadunidenses. A Operação Lava Jato radicalizou a desnacionalização da produção brasileira impulsionada há décadas.

Desde o fim da ditadura, a população e os trabalhadores brasileiros vergam-se sob a pesada canga dos débitos públicos federais e estaduais e dos juros astronômicos que reduzem a nação a uma fazenda escravista produtora de superávits. Nas últimas décadas, a voraz desnacionalização da indústria brasileira acresceu também o encargo com as remessas de lucros, avultadas pelo pagamento de royalties devido à dependência quase total do país ao exterior quanto à tecnologia.

A oposição ao golpe

O golpe objetivava construir nova base institucional, legal etc. para salto de qualidade no status semicolonial (neocolonial). Mesmo quando o apoio ao presidente golpista se dissolveu de todo, com a instalação da recessão geral e o conhecimento da literal organização criminosa entronizada no governo, a nova ordem encontrou escassa resistência, com destaque para a classe trabalhadora, que jamais se mobilizou realmente contra o ataque geral aos seus direitos e à nação.

Sob o constante ataque da Justiça e da mídia, as direções petistas optaram pela moderação e pela tentativa de negociação, tentando salvar a pele e o aparato partidário. Para tal, sabotaram os esforços e ensaios gerais de mobilização popular. No geral, objetivos ao menos parcialmente alcançados, até agora, como veremos. Angustiada por sua impotência, a frágil oposição de esquerda, classista e marxista, denuncia o PT e a CUT pela atual falta de mobilização, em registro geral das ilusões não perdidas e da ignorância da “natureza do escorpião”.

Parte da esquerda autoproclamada revolucionária apoiou objetivamente o golpe, ao negá-lo, em alguns casos, por além do imaginável. Quando da condenação de 12 de julho, o MES, de Luciana Genro, defendeu retoricamente o direito do ex-presidente de participar nas eleições de 2018, elogiou a Lava Jato e lembrou que se possivelmente o ex-presidente não merecia condenação pelo tríplex de Guarujá, por faltas de provas, a mereceria pelo sítio de Atibaia! De tietes do Moro, terminaram em auxiliares da acusação!

Quanto ao PSTU, propôs que tudo é simples “disputa entre dois campos burgueses, (...), em crise”. A culpa da condenação seria do próprio ex-presidente, por aliar-se à burguesia. Como desdobramento da negativa do golpe, nega igualmente o atual “estado de exceção”, e elogia indiretamente a Lava Jato, por encarcerar “meia dúzia de políticos e empresários”, quando antes apenas populares terminavam na prisão. Propôs o direito de Lula da Silva de - acredite quem quiser - “recorrer na justiça e se defender” e que os trabalhadores, de “modo algum”, participem da sua defesa.

Em forma oportunista, o MES, o PSTU e outros grupos congêneres esperam recolher os cacos do prestígio sindical e eleitoral deixados pela destruição do PT. O restante, pouco importa. Porém, nos últimos meses, cresce a intenção de voto em Lula da Silva e a sustentação política e sindical do PT, ainda que em patamares acanhados em relação aos melhores anos do passado. Um apoio ao partido que pode crescer, se Lula da Silva for condenado em segunda instância, meses antes das eleições. Os desdobramentos de sua prisão são difíceis de prever.
 
O fortalecimento eleitoral relativo do PT moribundo é compreensível. No contexto da crise profunda, de semi-imobilidade dos trabalhadores e de refluxo do movimento social, importantes segmentos da população voltam-se, ainda que passivamente, para as organizações mesmo desacreditadas que já gozaram de sua confiança, quando de tempos melhores. Ainda mais quando da inexistência total de alternativas minimamente factíveis. É de se esperar, também, a adesão de boa parte do eleitorado - mesmo ex-petista - em projetos eleitorais conservadores extrapartidários.

Ofensiva em marcha

Até 2018, espera-se que o núcleo central das contrarreformas federais estará aprovado, com destaque para a da previdência privada. As instituições e a legislação repressivas de que dispõem as classes dominantes são amplas. Porém, impõe-se institucionalização que garanta a sustentação, atualização e extensão permanentes da ditadura do capital em todos os níveis da sociedade.

É imprescindível uma profunda “reforma política”, talvez parcelada, garantindo ad eternum o conservadorismo do legislativo. A nova legislação eleitoral contará com “cláusula de barreira” mais rígida que afaste os “pequenos partidos” do jogo eleitoral, na procura tendencial do bipartidarismo. Porém, a restrição da participação eleitoral e sindical aliena os importantes segmentos de “esquerda” conquistados pelas delícias do colaboracionismo com o Estado, fortalecendo necessariamente o polo repressivo na imposição do consenso.

Há grande preocupação com o próximo presidente da República. O controle do governo federal é fundamental para a superação da atual fase de recessão-depressão da economia e para a expansão-consolidação da nova ordem em construção, com a transferência substancial do nível de decisão efetiva à esfera privada e internacional. Almeja-se governo formal, com instituições “autossustentáveis” e “autodeliberantes”, apoiadas na repressão da Justiça e da polícia, com as forças armadas transformadas em milícia interna. Um processo em curso, em forma civilizada, em Portugal, Grécia, Itália etc.

O nível de sucesso do projeto de barbarização social e instauração semicolonial radical no Brasil dependerá da capacidade de organização e resistência do mundo do trabalho e da população em geral. Movimentos que exigem, para realizar-se na medida necessária, a construção de direções e partidos classistas de massa conscientes, impossíveis de nascerem fora do impulso-reorganização do próprio movimento social e operário, extremamente fraco, como proposto.

A confusão e perda de densidade da esquerda brasileira é abismal. Na reação necessária para vergar a ofensiva geral do grande capital, caso ela se realize, terão papel determinante eventuais vitórias, mesmo parciais, mas substanciais, da luta de classes no Brasil e no exterior.

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Mário Maestri é historiador e professor do Programa de de Pós-Graduação da Universidade de Passo Fundo.

Comentários   

0 #3 RE: Lula da Silva: o sentido histórico de uma condenaçãoSandro 23-09-2017 23:40
O Lula e o PT,que tiveram o apoio dos Estados Unidos e sua elite , nao tem mais . O que passou ?
Na minha vaga opiniao tem haver com os BRICS [ que nada mais e' que o imperialismo Chines ] .
No mundo de hoje tem 2 grandes polos de poder : os Estados Unidos e sua elite anglo judaica , e a Chine com o partido supostamente comunista no comando .
O que ha e' uma desputa para ver quem vai explorar o Brasil e colonizar .
Comcordo que o PT nunca foi de esquerda
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0 #2 Na Estrada que estavsmos indo , eles ja estsvam voltandoAnonimo 12-09-2017 23:43
Parabens professor Maestri .Muito boa a sua anslise . Em relacao ao Lula , nos encanaram .O Lula nunca foi de esquerda .O lula foi criado pela fireta .do lado intelectual inventaram o FHC e do sindical o Lula .
Eu lhe pergundo se nesse periodo em que o PT esteve no poder , o que teria passado a nos e a America Latina se ao inves do Lula tivessimo um governo de esquerda ?
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0 #1 RE: Lula da Silva: o sentido histórico de uma condenaçãoHector Benoit 27-07-2017 03:36
A análise de Maestri é bastante boa. Mas, na verdade, toda a sua fragilidade está na caracterização do Brasil como país semicolonial. Na verdade, por trás está uma grande incompreensão do caráter dialético da economia brasileira e um aprisionamento nas velhas análises do PCB do Brasil como país atrasado e feudal, assim como, na teoria do país dependente, etc...etc...
Na verdade, esses erros que caracterizam a maior parte da esquerda brasileira, que não percebe que o Brasil, na verdade, é a ponta de lança da revolução mundial. Como a Rússia foi em 1917, o Brasil é o elo chave em que poderia se romper a cadeia imperialista mundial.
Falta na análise de Maestri, apesar de muito boa, a compreensão maior de Das Kapital, de Lênin e de Trotsky, reproduzindo, de uma maneira ou de outra, os velhos erros do PCB do Brasil feudal, colonial, ou semicolonial, como aqueles do país "dependente" de FHC e outros, ou seja, erros que Caio Prado, em grande parte, corrigiu, mas não totalmente.
Mas, esses erros são os que aprisionam a esquerda brasileira, que infelizmente não conhece Das Kapital, não entende assim, nem Lênin, nem Trotsky e particularmente, nada compreende da tradição dialética ocidental, sobretudo, que ela não começa em Hegel, mas sim, na filosofia grega.
Porém, considero que a análise de Maestri, apesar dos pesares, é muito boa e o parabenizo. .
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