Lula, “obsessão por 2018” e a nossa tragédia

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Wladimir, Paula, Juca, Trajano e Sócrates; uma linda imagem de quando os sonhos ainda estavam em pé

José Trajano é um dos mais relevantes jornalistas da história do país, oriundo de redações cujo ambiente de criatividade e efervescência não existem mais, por razões que não cabem discutir neste texto. Demitido de sua própria cria, a ESPN Brasil, que em seu auge foi referência de jornalismo esportivo crítico e contestador, vive aos 70 anos aquela fase na qual os bons amigos e conversas estão acima de necessidades de afirmação profissional.

Mente inquieta e ativa, continua interessado em projetos e boas ideias, não à toa toca um programa na webrádio Central3, gravou uma série de entrevistas no Rio de Janeiro que em breve estará na tela do Canal Brasil e usa sua própria sala de estar para entrevistas semanais. Nesta quinta, recebeu ninguém menos que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista de duas horas de duração que praticamente tomou conta do debate público nas horas e dias que se seguem.

Ao lado de Juca Kfouri, ainda nos canais ESPN e de longa trajetória na mídia esportiva, Antero Greco, também comentarista da emissora e editor de Esportes do Estadão, e do músico Carlinhos Vergueiro, propiciaram uma conversa que acabou por trazer importantes elementos. Direto ao ponto, Lula finalmente revelou: “minha obsessão é 2018, quero voltar lá e mostrar que posso fazer melhor que eles”.

Mergulhadas em torpor e histeria, as redes sociais e a mídia que cada vez mais se pauta em tais plataformas virtuais simplesmente deixaram passar a mais importante frase de toda a conversa, que de modo geral foi um agradável e descontraído papo entre amigos de longa data.

Importante contextualizar o ambiente, pois os envolvidos não têm a pretensão de dominar o debate político e levantar esta ou aquela bandeira em função de um determinado objetivo. Uma semana após sua condenação por Sérgio Moro, no caso do tríplex que teria ganhado indevidamente da OAS, a conversa teve esteio na relação fraterna e encontro de velhos parceiros, não algum tipo de raio-x da história recente do Brasil e seus pontos mais nevrálgicos.

Ao que interessa

Feita a ponderação, uma conversa pública com o maior personagem político do país não poderia passar em branco. E diante da aprovação da Reforma Trabalhista do governo mais desaprovado da história, ante imensa apatia dos representantes do mundo do trabalho, algumas evidências pululam em nossa frente.

“O PT errou. Antes a gente vendia coisas pra arrecadar, fazer campanha. Nascemos pra isso. Não esqueço quando recusamos um comício por causa de um churrasco”, contou, quando questionado por Juca Kfouri a respeito dos possíveis descaminhos da legenda.

No entanto, logo a seguir viria o desmentido do próprio Lula, por sinal já referendado no recente Congresso do partido. “Obviamente, o PT errou de aceitar o jogo de fazer campanha nos moldes dos outros. Mas é 10% do que dizem que cometeu. A condenação do Dirceu (no Mensalão) é um exemplo. O voto do Lewandowskyy explica isso. A teoria do domínio do fato é a ausência de provas, basta acusar”, completou.

Num pobre, porém fácil, paralelo com outros momentos históricos, Lula disse que “o PT sabe que a sociedade está correta em cobrar o partido. Mas ela também sabe que não fez nada de diferente do que historicamente se fez! Essa gente nunca foi mais honesta, matou o Getúlio, fez de tudo contra o JK e levou o Jango”.

Longe de discutir cada contexto e os modelos de desenvolvimento que se antagonizavam, Lula apenas investe no reforço da narrativa “nós contra eles”, a falsificar o atual contexto de luta de classes no Brasil (termo sequer reivindicado nas análises do partido) e, como já atestara o filósofo italiano Antonio Negri em “decepcionante” visita ao país, apenas reduz os grandes embates ao jogo parlamentar e eleitoral, “por cima”, como se diz de nossas tradições.

“Truncaram de novo a democracia. E agora querem truncar a possibilidade de o PT voltar. Os erros são verdadeiros, mas eles querem é evitar a chance de voltarmos. Basta ver as pesquisas pra ver quem é o preferido das pessoas. Foram 51 capas de revista tentando me apagar da história do país. Mas tem algo onde eles não chegam: minha ligação estreita e umbilical com o mundo do trabalho. E as pessoas sabem como se mudou esse país”, reforçou.


A conversa desta quinta

A falsa (e exaurida) polarização

Novamente, o velho joguete a vender a dicotomia esquerda x direita (cuja crueldade seria imprevista), sem explicar, por exemplo, porque nunca se investiu seriamente na criação de uma mídia de massa que contrapusesse o discurso liberal dominante, a colonizar mentes e corações e fazer inúmeros trabalhadores precarizados concordarem com o desmonte de sua legislação protetiva.   

Em linhas gerais, a conversa permitiu a Lula trabalhar com seu personagem, mestre em contar boas histórias e fazer as pessoas rirem.

“A vantagem de entrevistas longas, só entre homens e informal (e, portanto, na ‘zona de conforto da camaradagem’), é justamente revelar a pessoa além do mito que vão formando sobre ela. E Lula é simplesmente um conformado e resignado político tradicional, dentro do jogo político tradicional, fazendo as coisas como sempre foram feitas no Brasil. É isso aí que está na entrevista, alguém cujo mito esconde uma certa dimensão patética, uma certa continuação no estado de vivo após desistir da vida, ou seja, continuar na política após não acreditar mais em mudanças. Lula foi, há muito tempo, peemedebizado. O lulismo, hoje, é o local onde os anseios de mudança da sociedade vão quando resolveram morrer”, comentou o advogado Caio Almendra, militante do PSOL-RJ.

Falando no partido nascido em 2004 e reforçado pela expulsão dos “anti-mensaleiros” de 2005, Lula passou fortes recibos, que revelam aquilo que defendemos há anos: o PT e seu séquito agem com rancor e ressentimento de todos aqueles que se colocam à sua esquerda. Seja o PSOL, o MPL, os sem tetos ou quem mais “ousar”. A verdade é que o partido gasta mais energias em combater o surgimento de novas forças anticapitalistas do que, por exemplo, barrar as reformas de Temer.

É por isso que, ainda de acordo com Negri, preferiu a repressão ao diálogo frente às manifestações de 2013, o que de resto apenas escancarou o partido como uma corporação mais adequada à conquista de cargos e carreiras cômodas do que lutas antissistêmicas e realmente aliadas da população precarizada e de novo empobrecida.

Afinal, se de um lado Lula lamenta o voluntarismo de quem o acusa sem provas, por outro esquece que as máquinas políticas fieis a ele usam e abusam das mentiras e difamações contra os incômodos críticos. Seus apelos por unidade não passam de armadilhas utilitaristas, pois no chão das lutas sociais esgarçam e arrebentam quaisquer afinidades possíveis.

“Depois do powerpoint do Dallagnol, vimos que a fantasia vira verdade na mão da imprensa. Eu gosto da Globo, pena que ela mente muito. Pelo amor de deus PF, apresenta uma prova, um pedaço de papel qualquer! Passaram anos dizendo que meu filho era dono da Friboi. Agora podiam ter feito alguma pergunta pro Joesley: ‘o filho do Lula é seu sócio?’ Mas não queriam ouvir o não. O país não comporta essa quantidade de mentiras. O povo e o país não merecem”, atacou, com toda a razão.

No entanto, como lembra o educador Silvio Pedrosa, colaborador da Uninômade, “o sensacional mesmo é ver a militância da internet, o próprio reino do linchamento, ficar dias se contorcendo porque alguém foi ‘condenado sem provas’. Rapaziada que arrasa com a vida das pessoas por um depoimento enviesado ou um print descontextualizado falando em ‘prova circunstancial’. Que piada”.

Provas?

Afinal, em tempos de Wikileaks e Edward Snowden, não veio à tona nenhuma revelação de que de fato os manifestos de 2013 tiveram “apoio da CIA”, assim como as críticas dos ambientalistas contra as usinas na Amazônia não se provaram vinculadas a “ONGs a serviço do imperialismo”, como bradam os cada vez mais idiotizados apoiadores do PT e suas pensatas contaminadas de falsos pragmatismo e sagacidade política.

“Mas é um absurdo condenarem o Lula e deixarem o Aécio e o Temer livres... Absurdo foi terem achado, ao longo de 13 anos, que, por agradarem a grande burguesia brasileira, poderiam ser tratados com a mesma condescendência com que são tratados os políticos de direita”, ironizou Gustavo Gindre, servidor público e conhecido estudioso das comunicações, mais um daqueles que trabalhou anos a fio por uma democratização da mídia jamais tentada, por melhores que alguns sejam em bravatear contra “a manipulação da Globo”.

“O Brasil conseguiu o inimaginável. A condenação de Lula ao lado da isenção de culpa de Aécio Neves e a possível isenção de Michel Temer conseguiu desmoralizar o maior sistema de combate à corrupção. Para mim, Lula é culpado! Ele não é o ‘chefe da maior organização criminosa’ do país. Sua culpa foi trair seu eleitorado e convidar ‘a maior organização criminosa’ a participar de seu governo. A ruína é descomunal! O Brasil nunca teve uma oportunidade tão grande de se livrar desses notórios corruptos quanto no período Lula”, contextualizou Roberto D’Araujo, ex-diretor da Eletrobrás, outro personagem que, apesar de menos famoso, renderia horas de entrevistas interessantíssimas sobre algumas opções históricas do PT e seu grande líder.

“A deslealdade com a esperança que ele representava foi repetida ao escolher uma pessoa desqualificada para sucedê-lo. O resultado está no aniquilamento de instituições estatais que, agora, são um presente para a classe política participante de seu governo e que nunca teve planos para o país a não ser vender tudo”, completou D’Araujo, já atacando Dilma Rousseff, nome que causa profundo desprezo em todos os que construíram o antigo programa de desenvolvimento energético do PT. Este, foi atirado na lata do lixo em nome da concessão de todo o setor a Sarney e seus operadores, Edison Lobão à cabeça, como cansaram de alertar ele, Ildo Sauer, Luiz Pinguelli Rosa, Célio Bermann e outros que não mitam nem lacram.

Conclusões finais?

E enquanto Lula transformava a tragédia histórica em piada (“a Globo não pode sair da mentira da Lava Jato, pelos pactos que têm e porque a Lava Jato já faz parte da grade do canal. Então decidi que perder o Palmeiras x Corinthians eu não iria. Abri whisky, comprei salgadinhos e me deleitei com a vitória do Corinthians. Eu realmente tava mais preocupado com o jogo”), insistimos em sair da demência coletiva das redes sociais e suas discussões cada vez mais restritas a um lusco-fusco inútil.

“Estes dois argumentos são reais. A Lava Jato tem sido utilizada como instrumento dos interesses de uma fração burguesa dominante no país. Mas, exatamente por isso, Lula comete um erro muito grande ao dizer que continua confiando na Polícia Federal, na justiça e nas instituições. A justiça tem lado e se move de acordo com os interesses de classe. A Lava Jato e nenhuma instituição merece qualquer tipo de confiança. Lula já deveria ter aprendido sobre isso, mas parece que nem sob a mira da condenação rompe com seu espírito conciliador. É impressionante como Lula não utiliza em nenhum momento em seu discurso o apelo à mobilização popular para derrotar o projeto golpista que acabou de aprovar uma Reforma Trabalhista que varreu com os interesses históricos dos trabalhadores”, comentou Silvia Ferraro, professora, feminista e coordenadora do MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista).

A crítica é crua e dura, pois, afinal, após uma greve inacreditavelmente sabotada pelas centrais sindicais, seguiu-se uma nula resistência à tramitação e aprovação da Reforma Trabalhista. De outro lado, alguns milhares surpreenderam as expectativas e tomaram a Avenida Paulista em ato de desagravo a Lula ante a condenação de Moro.


Tudo pelo mito. E pelo tão aclamado povo sob recorde de desemprego?

“Mobilização foi o que faltou às ruas na greve do dia 30 de junho e que se tivesse existido poderia ter dado outra correlação de forças para derrotar Temer e as Reformas. É lamentável que Lula diga que não quer dar um ‘golpe’ no Temer. Não é possível dar golpe em quem está no poder fruto do golpe. Temer tem de cair pela força da mobilização popular. Lula parece não querer este caminho, prefere lançar sua candidatura e ficar esperando 2018”, acrescentou Ferraro.

Como dito, estamos diante de uma dita esquerda cada dia mais imbecilizada e fanatizada pela fé no oculto, de modo que mais este artigo será avaliado como “a serviço da direita”. “Repudiamos a direita asquerosa com seu preconceito de classe que comemorou a condenação de Lula trajando uma camiseta assinada pelo MBL, estampando os dedos da mão de Lula. Assim como repudiamos a operação Lava Jato que está a serviço do projeto político do poder econômico”, dizemos Silvia Ferraro e nós, deste que é o mais antigo veiculo “alternativo” de mídia no país ainda em atividade.

Diante de toda a prostração que paira, finalizamos com a afirmação de Richard Bourne, biógrafo inglês do presidente, em matéria do Portal R7. “Lula é certamente alguém vaidoso e isso piorou com o passar do tempo. Uma das piores coisas da morte de Marisa é que não há mais uma pessoa para desinflar um pouco essa vaidade e mostrá-lo o que deveria estar fazendo. Ele deveria ter pensado melhor em outras maneiras de usar seu capital político em favor do país (após deixar o poder)”.


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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

Comentários   

-1 #2 SUCESSO, PRESIDENTE JOÃO DÓRIA.José 08-08-2017 16:15
Hoje, 08/08/2017, um jornal no Rio de Janeiro publicou, mais uma matéria sobre o déficit publico, com o título, "Peso no Orçamento", e os próximos 10 anos podem ser antecipados pelo comentário do ministro do Planejamento Dyogo Oliveira: "... o governo precisa de um ajuste fiscal de 5% do PIB (produto interno bruto) nossa próximos dez anos. isso significa sair de um déficit primário de 2,5% do PIB para um superávit de 2,5% do PIB. Esse é o tamanho do trabalho que o Brasil precisa fazer nos próximos dez anos." A direita tem um objetivo, liderança e determinação, até o momento se mostram imbatíveis. A oposição está batendo cabeça. Pelo visto nos próximos dez anos o discurso será de combate à corrupção e segurança pública.. No Rio de Janeiro uma Operação Militar combate o crime organizado, com tanques. Só mesmo se der zebra para a oposição ganhar. Será que foi observando o Brasil, que o presidente da Venezuela convocou uma Assembleia Constituinte? Com certeza é uma hipótese infantil, de 'geraldinos' (lugar no estádio do Maracanã, a Geral, em frente ao campo, onde ficavam os torcedores que assistiam os jogos em pé). Mas vivemos num momento que podemos analisar, de forma diversificadas, diferente caminhos da sociedade para resolverem seus problemas. Brasil, Equador e Venezuela.
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-2 #1 E' obvioAlessandro 02-08-2017 23:49
O Lula como o FHC foi criado pelo sistema . O Lula sempre foi um oportunista . o papel dele foi esvasiar as esquerdas .
Os ' donos ' do mundo colocaram ele na presidencia e num dado momento decidiram tira-lo
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