Por que acreditar na política?

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O discurso do compromisso com o país, de responsabilidade com a continuidade de atividades ditas governamentais, emerge no momento atual em que cada vez mais a face do projeto de governo se revela, o que significa que para tal ecoar é arriscado colocar a política em descrédito.

Essa exposição precisa ser colocada em questão na medida em que não dialoga com a gravidade condicional que o estado político conseguiu alcançar. A angústia de a quem recorrer é bastante significativa, porque denota a seriedade do momento.      

A situação de agora não pede mudança? Não pede algo diferente? Parece que, como anuncia Vladimir Safatle em texto recente publicado na Folha de S. Paulo, é necessário “deixar quebrar”: “o melhor que pode acontecer ao Brasil neste momento é, de certa forma, deixar tudo quebrar. A consciência de que o país entrou em colapso e de que nenhuma de suas instituições funciona de maneira minimamente adequada pode ser a única saída real do fracasso”.

Faz bem observar que é em sentido positivo que Safatle vê como saída o “deixar quebrar”, uma vez que deve ser entendido como que para construir é preciso primeiro destruir; seria uma destruição criativa. Assim sendo, não é quebrar simplesmente por quebrar.

Que figuras serão capazes de satisfazer o cenário político? Haverá possível consolação? A visualização que defende a completa desqualificação da política parece um pouco atrasada se só agora resolveu marcar presença no eminente espetáculo que a cada dia se mostra mais recheado de atrações e novidades.

Disso resulta a fria passividade geral na qual o povo, ao menos em parte, permanece, perante a enorme avalanche que não se aproxima, mas com a qual já se acostumou a sobreviver. Infelizmente, ainda corre o risco de absorver o discurso de que apesar de tudo, há compromisso, há responsabilidade.

Outra postura que pode ser encontrada na cena aqui descrita é a do menos pior, ou por assim dizer, da aceitação conformada, de que não tem jeito. Melhor é engolir o que aí está do que se aventurar em possibilidade de incertezas que precisariam de um grau de demasiada superioridade para conseguirem ser pior.

Entretanto, deve haver uma inteligência forte que planeja e que maquina passo por passo a ser dado. Nas palavras de Safatle, “a estratégia atual consiste em amedrontar a população com o discurso do futuro caótico, em vez de permitir que a imaginação política aja e crie o que o país ainda não sabe como fazer existir”.

Ora, se quem dita as regras do jogo é o interesse financeiro “que procura reduzir o Estado brasileiro a mero instrumento de rentabilização de ativos da elite patrimonialista e rentista”, então as “reformas que visam destruir até mesmo a possibilidade de se aposentar com uma renda minimamente digna” brevemente devem ser celebradas.

Enquanto o povo não perceber que “sua vontade é sempre atual e soberana, ele pode desfazer as leis que ele mesmo fez e destituir instituições que se mostram corrompidas”, muitos apostarão suas cartas marcadas no jogo da manutenção política.

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Felipe Augusto Ferreira Feijão é estudante de Filosofia da Universidade Federal do Ceará.

Comentários   

0 #1 Lula Já!José 20-07-2017 12:09
Erra quem pensa, de que pior melhor.Existem sinais de que a economia (20/07/17) começa a se recuperar, e as denúncias de corrupção se sucedem e velhos modos de estatização-privatização continuam, O BNDES agora ajudará a CEDAE (companhia de aguas e esgoto no Rio de Janeiro) para em seguida ser privatizada. Está evidente que vivemos numa época de pura simonia, o crescimento econômico purga todos os pecados (corrupção, ineficiência administrativa, usura, injustiça social, falsas promessas). Pelo jeito começaremos um novo crescimento, da velha maneira, e não poderemos reclamar. Se for para fazer velho, escolhamos o menos pior: Lula Já. Ou então Brasil só precisará de dois livros: O Livro Caixa e a Bíblia .
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