“Pezão não tem a menor condição de continuar no governo do RJ”

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Se logo após a Copa o Brasil já sentiu o rigor da recessão, no Rio de Janeiro pós-olímpico pode-se dizer que a ressaca veio em dobro. Quebrado, o governo estadual atrasa pagamentos de servidores que passam grandes necessidades e precariza todo o patrimônio público carioca. Ao Correio, o vereador do PSOL Tarcísio Motta faz um diagnóstico da crise.

“É inaceitável que servidores do estado estejam com salários atrasados há mais de dois meses, que hospitais estejam encerrando atividades, que salas de aula estejam sendo fechadas, que as políticas de segurança tenham sido abandonadas em troca do confronto direto que ampliou ainda mais a violência cotidiana”, afirmou.

Na conversa, Tarcísio, que em 2014 atingiu 10% de votos para o governo do estado, lembra que além do Fora Temer o Fora Pezão é outra palavra da ordem do dia na boca da cidadania. A respeito da prefeitura de Crivella, diz que seus primeiros meses de mandato são marcados por “confusão e autoritarismo”. De toda forma, o alvo principal são os governos do PMDB.

“O Rio, assim como todo o estado, passa por um momento muito difícil. A violência das ruas chegou ao ponto de interferir gravemente no ano letivo das escolas. Milhares de crianças ficam sem aula por causa da insegurança no entorno das escolas. Com a crise, a população de rua é de mais de 14 mil pessoas, um número quase três vezes maior do que havia em 2014”, criticou.

A entrevista completa com Tarcísio Motta pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Primeiramente, como analisa os protestos contra o governo Temer, sua corrupção e sua agenda de reformas quem, com ou sem ele, tentam manter em pauta?

Tarcísio Motta: O governo Temer é impopular desde seu primeiro minuto por ser fruto de um golpe. Por isso o “Fora Temer!” não foi só uma onda, esse grito continua motivando manifestações pelo Brasil. Agora, em meio às denúncias da Lava Jato que envolvem seu nome, as ruas já gritam por novas eleições. Temer é fruto de um sistema político onde alianças eleitorais são baseadas numa lógica corrupta: tempo de TV e cargos foram leiloados para garantir a vitória eleitoral em troca da manutenção dos interesses daqueles que detêm os recursos para financiar as campanhas. Nesse sentido, a população rapidamente percebeu que Temer não é resposta à indignação que alimentou os protestos contra Dilma.

Com relação às denúncias contra Temer, as gravações entregues à Polícia Federal deixam muito clara sua intimidade com o universo das propinas milionárias. Seria uma vergonha histórica ele não ser investigado e condenado. Mesmo assim, Temer não quis responder as 82 perguntas feitas pela polícia, ou seja, ele mesmo não para de dar motivos para que a população peça sua saída.

O golpe foi dado para colocar em curso contrarreformas que retiram direitos dos trabalhadores. Congelamento dos gastos sociais, terceirização geral e irrestrita, diminuição drástica do acesso à previdência e a destruição de vários direitos trabalhistas representam um programa político para o país que não teria qualquer condição de ganhar uma eleição.

Só um presidente tão impopular poderia aprovar essas reformas criminosas. Por isso o PSOL não grita apenas “Fora, Temer” e “Diretas Já”, mas também “parem as reformas”. Mudar de presidente mantendo essas reformas é seguir na destruição dos direitos sociais consagrados na Constituição de 1988.

Correio da Cidadania: Como foram as movimentações no Rio de Janeiro, onde você estava, nesse período?

Tarcísio Motta: A greve geral de 28 de abril foi bastante forte, contando com expressiva mobilização dos servidores estaduais. Infelizmente, a repressão policial covarde impediu que a maior manifestação ocorresse. O ato “Rio pelas Diretas” reuniu 100 mil pessoas em Copacabana e as mobilizações seguem firmes rumo a uma nova Greve Geral. Estive presente em muitas manifestações e tenho percorrido diversos bairros da cidade para debater as contrarreformas de Temer. Sempre é bom lembrar que aqui no Rio o Fora Temer é também Fora Pezão, ambos do PMDB.

Correio da Cidadania: Qual o contexto da crise no estado e no município? Como tem sido a vida dos trabalhadores da cidade nestes anos de choque austeritário e o que levou à debacle das contas públicas?

Tarcísio Motta: A prisão de Sérgio Cabral e companhia explica muito dessa crise. Os benefícios fiscais recebidos por inúmeras grandes empresas expressavam tanto um modelo de desenvolvimento caro, excludente e autoritário quanto um sistema político que desviou dinheiro que deveria ter garantido direitos básicos como saúde, educação e segurança aos cidadãos. Faço questão de falar em cidadãos porque até estudantes e aposentados estão pagando pela crise...

É inaceitável que servidores do estado estejam com salários atrasados há mais de dois meses, que hospitais estejam encerrando atividades, que salas de aula estejam sendo fechadas, que as políticas de segurança tenham sido abandonadas em troca do confronto direto que ampliou ainda mais a violência cotidiana.

A Uerj está passando pela maior crise de sua história, é inaceitável o descaso com que o governo do estado trata uma das maiores universidades do país.

Correio da Cidadania: O que mais piorou na cidade e seus equipamentos neste período recente?

Tarcísio Motta: O Theatro Municipal passa pela mesma situação, pra dar outro exemplo. O Rio, assim como todo o estado, passa por um momento muito difícil. A violência das ruas, por exemplo, chegou ao ponto de interferir gravemente no ano letivo das escolas. Milhares de crianças ficam sem aula por causa da insegurança no entorno das escolas. Com a crise, a desigualdade social avança: um levantamento da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos mostra que a população de rua é de mais de 14 mil pessoas, um número quase três vezes maior do que havia em 2014.

No entanto, nesse período, a imagem que a prefeitura (então sob Eduardo Paes) vendia era a de uma cidade maravilhosa, milimetricamente preparada para os grandes eventos internacionais. Mas essa máscara, como se vê, não dura por muito tempo. Não dá para empurrar a desigualdade social para debaixo do tapete.

Correio da Cidadania: Como avalia os primeiros meses do mandato do prefeito Marcelo Crivella e as principais diretrizes de sua gestão?

Tarcísio Motta: Até aqui é um governo confuso e autoritário, sem projeto para a cidade e que usa o discurso da “crise” para justificar a ausência de qualquer política pública que resolva as contradições deixadas pela administração Eduardo Paes. Quando a administração dele completou cem dias, nosso mandato fez uma lista do que chamamos de “crivelladas”, uma série de tropeços e de ações descoordenadas entre suas secretarias.

Pedágio na Linha Vermelha, blindagem das escolas públicas, corte nas verbas do carnaval, nomeação do próprio filho para a Casa Civil e armas de fogo para a Guarda Municipal são apenas alguns exemplos de como o governo Crivella está agindo sem qualquer planejamento ou resquício de participação democrática na gestão da cidade. E, desde o início da gestão, percebemos a manutenção da velha política de troca de cargos em busca de apoio político.

Correio da Cidadania: Está tramitando a reforma da previdência dos servidores estaduais. O que você comenta sobre ela e suas intenções? E o que comenta de ter sua votação chamada pelo presidente interino da Alerj, que é do PT?

Tarcísio Motta: Pezão, sem qualquer condição de permanecer à frente do governo estadual, usa do mesmo receituário neoliberal e tenta jogar a conta da irresponsabilidade política e financeira do PMDB nas costas dos trabalhadores: cortes no bilhete único, fim do aluguel social, fechamento das bibliotecas-parques, sucateamento da UERJ, atraso nos salários dos servidores são apenas exemplos da calamidade pública construída por Cabral e seus “amigos”.

Taxar aposentados neste contexto é um crime. Diminuir o salário de quem sequer está recebendo é um verdadeiro escárnio que, infelizmente, contou com a participação ativa de um deputado eleito pelo PT e que hoje preside a Assembleia Legislativa por conta de um acordo firmado com Jorge Picciani, um dos maiores articuladores do projeto de poder do PMDB. Mesmo que Andre Ceciliano tenha sido afastado pelo partido, isso não diminui a responsabilidade do PT na sustentação por mais de uma década desse projeto de poder que levou o estado do Rio à falência.

Correio da Cidadania: O que deve ser feito para superar esse momento de forte ofensiva política conservadora? Tirar Temer do poder seria o bastante?

Tarcísio Motta: Derrubar Michel Temer é fundamental, mas não basta. É preciso parar as contrarreformas da previdência e trabalhista e reconstruir um projeto para o Brasil que resgate as reformas que, de fato, o Brasil precisa: uma reforma política que amplie e fortaleça a democracia; uma reforma agrária que distribua terras e diminua o poder dos grandes proprietários de terra; uma reforma tributária que diminua o peso dos impostos sobre consumo e amplie a tributação sobre renda e patrimônio; uma reforma educacional que garanta qualidade nas escolas públicas; uma reforma na saúde que garanta a efetiva implantação do SUS...  

Mais do que nunca, é preciso se colocar a tarefa de reconstruir um projeto de esquerda e popular para Brasil, sem as ilusões da conciliação de classes e com um claro e profundo compromisso com a democracia. Só a luta muda a vida!

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Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

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