A desarticulação predomina

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Há um tipo de análise que tende ao simplismo na análise da situação política brasileira, nos dois vértices opostos da sua mesma lógica.

Essa lógica é a que busca enfatizar os elementos conspiratórios, manipuladores, planificados da situação, quando o que predomina é uma desorganização dos agentes políticos em curso.

Para alguns, a Lava Jato é um plano golpista do imperialismo estadunidense aliado a grupos de extrema-direita como o MBL, articulados com um “partido da Mídia”, e tendo por veículos um estrato do judiciário e da PF com definição ideológica reacionária. Seu eixo é o antipetismo e utilizam arbitrariedades e prisões preventivas como método.

Para outros, a Lava Jato é uma radicalização “tenentista” de setores do judiciário e da PF, imbuídos de uma legítima indignação cívica e republicana contra a manutenção de esquemas estruturais de corrupção no Estado brasileiro, mesmo com suas sucessivas revelações ao longo das últimas décadas, com os escândalos de Collor, de FHC, do Mensalão, que permaneciam invulneráveis e resilientes por meio de uma parceria público-privada regida majoritariamente pelo bloco governante do PT e PMDB, mas do qual a oposição de direita do PSDB também participava.

A busca de uma lógica conspiratória que unifique a ação dos agentes num plano coerente é uma sedução fácil do senso comum e até mesmo das análises mais impressionistas.

Aparentemente, há um golpe parlamentar bem articulado que utiliza o clima das revelações da Lava Jato e dos protestos de massas como pano de fundo, mas utiliza um pretexto banal como as pedaladas fiscais para justificar o impeachment. Hoje, no entanto, o articulador mor do golpe está preso e o beneficiário maior em vias de também ser defenestrado.

O ex-adversário de Dilma, do maior partido da oposição de direita, também caiu em desgraça, já perdeu o mandato temporariamente e a irmã está presa. Dado o seu destino posterior, há de se supor que a evolução do golpe em curso não fazia parte dos planos nem de Cunha, nem de Temer e nem de Aécio.



As listas dos delatados da Odebrecht, OAS e JBS já abrangem a maior parte do parlamento, inclusive os dois da linha sucessória, Maia e Oliveira. Um membro do próprio Ministério Público já caiu preso, também delatado. A Operação Lava Jato se desdobrou em outras e não se sabe até onde ela pode chegar.

Buscar explicações sociais e econômicas para os fenômenos políticos é um método indispensável para buscar entender as relações entre as práticas e as representações políticas.

Nesse sentido, a concretização de reformas antipopulares a serviço dos interesses de maior rentabilidade do grande capital seria o objetivo fundamental do golpe em curso. Mas, na verdade, o golpe apenas aprofundou o que já havia antes. O programa de ataques a Previdência, aos direitos trabalhistas, de terceirização, de endurecimento da legislação antiprotestos populares já vinha desde quando Dilma e Temer ainda eram parceiros leais.

O programa neoliberal de um Estado a serviço da renda do capital financeiro por meio da política de altos juros, alto endividamento estatal e apoio às formas mais predatórias de incentivo à mineração, ao agronegócio e ao programa de destruição da Amazônia e suas populações indígenas vem sendo o mesmo, em essência, desde FHC até Dilma/Temer.

Claro, os matizes importam, o que Dilma começou a fazer nos seus últimos dois anos foi pior do que fizera antes ou do que Lula fez. Houve concessões sociais maiores no período lulista em relação ao poder aquisitivo salarial e a programas sociais.

O que Temer começou a aprovar com suas “reformas” é bem pior do que havia antes. Mas, agora, o impasse criado para a continuidade das reformas pela própria Operação Lava Jato e sua derivada, a operação Patmos, joga contra o governo e pode chegar a derrubá-lo.

Se o objetivo maior do consenso burguês é o aprofundamento de reformas antipopulares, que retire renda dos trabalhadores transferindo-a para o capital, e se o motivo do golpe contra Dilma foi porque ela já não tinha base social para poder aplicá-los, o mesmo ocorre hoje, em ainda maior grau, contra Temer. Afinal, Dilma ainda teve quem a defendeu nas ruas. Quem fará isso por Temer?

Existem conexões entre o que fazem os membros do MP, do STF, da Lava Jato, dos partidos, das instituições internacionais? Sim, claro, tudo tem alguma relação, mas no caso presente, parece que se verifica a perda da capacidade de tais agentes tecerem planos articulados entre si.

Em outras palavras, tanto a burguesia como as instituições políticas e jurídicas estão confusas e desarticuladas.

O protagonismo social está aberto para as manifestações de massa. Será preciso outro texto para refletir sobre o caráter, os desafios e os conflitos que a mobilização de massas trará ao cenário político em curso.

Henrique Carneiro é historiador e professor da USP.

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