Os dois becos sem saída (1)

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Não é novidade alguma, mas é sempre bom lembrar: há uma crueldade adicional em fingir liberdade de escolha em uma situação absolutamente imposta.

Da forma que enxergo, hoje, os dilemas no campo da esquerda, existem dois becos sem saída (ou que criamos a impossibilidade da saída), um possivelmente derivado do outro.


O primeiro beco atende por uma infinidade de nomes, cada tradição política da esquerda escolhe um para si. É, em uma definição um pouco mais extensa, a penetração do ideário neoliberal do pós-queda do Muro de Berlim no ideário da esquerda, que gerou uma adesão tácita, estética e contraditória à democracia liberal. Para resumir isso, vou usar meu apelido predileto: fukuyamização da esquerda.

Francis Fukuyama é o economista norte-americano que decretou que a história tinha acabado na década de 90, que a democracia liberal capitalista era o melhor sistema político-econômico e, portanto, o único que verdadeiramente existia. A esquerda, obviamente, jamais afirmará que é o melhor sistema, mas por meio de suas ações e discursos reafirma cotidianamente que é o único sistema político que existe. Em outras palavras, a democracia liberal é ruim, naufragou e não dá certo, mas é a única coisa que existe. Isso não precisa ser expresso, em geral é mais uma prática do que uma formulação. Ninguém fala, todos sabem.

Culto involuntário à democracia liberal

O impressionante é: agora que está bem cimentada a ideia de que o único e indissolúvel sistema político-econômico é a democracia liberal, mais e mais elementos da democracia liberal têm se tornado igualmente axiomas, inclusive dentro da esquerda. Assim, o Estado Penal, para dar o exemplo mais óbvio, é o único caminho de correção de condutas, mesmo entre pessoas que paradoxalmente são (ao menos no discurso) contra o Estado.

Um dos nomes para o processo de fukuyamização mais recorrente na esquerda brasileira é "eleitoralismo". O processo parece o mesmo, mas a palavra importa. Eleitoralismo é um corte no conceito, uma lapidação. O objetivo desse corte é teleguiar a crítica contra uma parcela da esquerda, é "weaponizar" (transformar em arma) um conceito, o que afasta, por si, entender que esse conceito está presente inclusive nos que seguram tal arma. Lascaram a pedra até ela virar um machado (cínico, obviamente).

Em outras palavras, ao invés de encarar a própria incapacidade de pensar e construir um mundo além da democracia liberal, criou-se um termo que serve para criticar o outro, sem criticar a si. Eleitoralismo é o próprio defeito transformado em acusação ao outro, a famosa "outrocrítica". Como a esquerda ama fazer, "não tem ampla base social" (como se alguém tivesse), "não tem projeto de sociedade" (como se alguma tradição atual de esquerda tivesse) etc. etc. etc.

Vou citar dois exemplos muito claros, de dois grupos que se odeiam em níveis inacreditáveis, mas - ou melhor, até porque - compartilham do uso do mesmo conceito weaponizado de "eleitoralismo" para atacar inimigos em comum (a esquerda é o lobo da esquerda).

Primeiro, vale citar os anarquistas que, em 2013, mantinham uma obsessão inexplicável com invadir um determinado parlamento. A reprodução da imagem de que o poder está circunscrito na estrutura estatal "democrática", em uma sociedade onde a simbiose entre Estado e capital é crescente, não passa da reprodução da ideia de que a democracia liberal é inabalável.

Hoje, se um grupo invadir e se apossar completamente do parlamento e, por conta de um impasse político qualquer, não for retirado imediatamente (como, por sinal, aconteceu com diversas câmaras municipais em 2013...), o poder constituído permanecerá incólume.

Sejamos sinceros, quando sobram notícias de que são os departamentos jurídicos de empresas que redigem leis, invadir o parlamento é viver um simulacro do sonho de ocupar o poder, mas não realizar uma grande mudança na estrutura de poder. Até o filme do Lego, que tinha um vilão chamado "Presidente Negócios", estava mais afinado em sua crítica.

Ao colocar fisicamente no parlamento a "batalha de classes", esses grupamentos faziam algo muito similar ao que os partidos de esquerda "eleitoralistas" fazem. Ninguém pode acusar os invasores da ALERJ de "eleitoralismo", mas afirmo que as tentativas de invasão não eram atos antissistêmicos.

A coisa beirava a uma reprodução a-histórica do atentado do Guy Fawkes. Alguém só precisava avisar que mesmo que o Guy Fawkes tivesse conseguido explodir o parlamento, não teria conseguido implementar a teocracia que ele queria. Era melhor ter queimado as cercas dos campos e os estaleiros que criavam o poderio mercantil inglês...

Outro exemplo da esquerda não-eleitoralista é o caso do partido político de esquerda que brada que todo o resto da esquerda é eleitoralista, inclusive durante eleições, que eles estão participando. Eu não entrarei na crítica perversa e autoritária de que "são contra o eleitoralismo porque não elegem ninguém". É preciso inverter a lógica, porque as evidências estão contra a correnteza: tais partidos fazem questão de não eleger ninguém, inclusive para não perder a possibilidade de chamar os demais de eleitoralistas.

Não é um "fracasso", essa é a visão da esquerda eleitoralista (que muitas vezes enxerga vitória e vitória eleitoral como sinônimos), é um sucesso dentro dos objetivos deles. Ou seja, a não-eleição é o objetivo de participar da eleição, inclusive para simbolicamente afirmar ser contra o parlamento. Se eles tivessem muitos votos e parlamentares eleitos, não conseguiriam criticar o resto e se diferenciar. O voto é o inimigo, até por isso falam "vote em mim" como um inspetor de colégio bravo e não como alguém que está tentando convencer alguém a fazer algo. Mas isso não os torna imunes à fukuyamização.

Acontece que não é estar fora do jogo parlamentar e da democracia liberal que define se você é de fato contra essa democracia. Eu não tenho peixe ou aquário em casa, mas não significa que estou agindo pela destruição da escravidão animal dos peixes domésticos, para dar um exemplo lúdico. Por conta disso, eu queria mostrar apenas uma evidenciazinha da relação de obsessão com a democracia liberal.



Busca desesperada por novos simbolismos

Todos os signos que eles expressam refletem a lógica da disputa da democracia liberal (e não a disputa contra a democracia liberal). Por anos a fio, eles criticavam o sistema político, em geral, diga-se, com termos típicos da disputa do parlamento, mas apresentavam um único comando de saída: vote <número do partido>. Em outras palavras, mesmo um partido que não pode ser acusado de eleitoralismo, apenas vislumbrava o voto como caminho político.

Recentemente, com o pós-2013, o comando "vote <número do partido>" foi substituído pelo comando "vote e lute <número do partido>". Para mim, o que parecia uma permissão, uma autocrítica, evidenciou ainda mais o problema, de forma quase trágica. Ora, o comando "lute", isolado, não quer dizer muito. Ele serve como conclusão a um pensamento ou introdução a uma lógica, mas como comando autônomo é vazio. Lutar contra o quê? Por quê? Com quem (lembrando a frase do Hemingway de que quem estará ao seu lado na trincheira importa mais do que a guerra)?

Ao colocar "lute <número do partido>", o vazio ficou flagrante. Não se luta um número de um partido. O vazio do verbo "lute", jogado ali sem qualquer definição ou precisão, com o complemento ainda mais vazio que era aquele número perdido, apenas mostra o vazio imaginativo sobre como lutar contra o regime político. Alguém poderia afirmar que era um convite a se filiar, a participar das frentes que o partido sustenta etc.

Mas não é isso. Primeiro, porque nunca se diziam que frentes e espaços eram esses. Era, por assim dizer, um convite para uma festa sem endereço, horário e dia. Segundo, porque há uma clareza obscena de que o partido é demofóbico, que o aparecimento repentino e mágico de zilhares de pessoas em seus espaços seria visto com pavor e não com fascínio (essa demofobia, por sinal, é uma característica bem disseminada na esquerda, que irei discutir à frente, no segundo beco).

Órfãos do petismo

Dentro do "eleitoralismo", que, para não dar validade a essa palavra cínica, irei chamar de forma ainda mais cínica de "órfãos do PT" (aqui entendido que órfãos não precisam ser seres em eterna busca pelos progenitores e, quando os buscam, pode ser para amá-los ou para odiá-los), o quadro não é diferente. O central entre os que disputam eleições "para valer" é que mais e mais ramificações da democracia liberal se tornam inatingíveis. Os órfãos do PT, naturalmente, vivem o interior da democracia liberal. De uma democracia liberal, delimitada em um território, sob a lógica de um Estado-Nação e com um ordenamento jurídico determinado.

Isso gera novos desdobramentos de desesperanças. Como disputam espaços em parlamentos e no Executivo, qualquer mudança na ordem eleitoral que tenha a mínima possibilidade de alterar "suas chances" na disputa é visto como hecatombe.

Acreditem, os militantes de esquerda idealistas, inclusive os "da esquerda do partido",  tem mais medo de uma reforma eleitoral verticalizante do que de uma reforma da previdência (vá em um espaço desse setor e escreva cinquenta coisas diferentes, em cinquenta formato diferentes, sobre a reforma da previdência e uma nota de dez palavras sobre uma reforma eleitoral e essa nota terá mais atenção que as cinquenta postagens juntas). Isso acontece porque a redução gradual de direitos é ruim, é uma infelicidade, é triste, mas é do jogo. Retirar as eleições de quem não enxerga nada além das disputas eleitorais é trágico. Não é do jogo, é o próprio, nessa visão limitada, fim do jogo.

Outro exemplo, ainda entre os órfãos do PT, está na discussão sobre "presidencialismo de coalizão" (que é um penduricalho da República brasileira e, portanto, tão afetável pela fukuyamização como qualquer outro). Ora, todos adoram a crítica de que o PT embarcou no "presidencialismo de coalizão", que comprou apoio político em parlamentos a partir de corrupção e redução dos parâmetros de programa, que nesse processo se perdeu etc. Alguns adoram essa tese para dizer que o PT "traiu a classe trabalhadora" (a minha dúvida é se o PT já foi, de fato, compromissado com a classe trabalhadora e quais seriam os laços desse compromisso, porque eram frouxos e não-enforcáveis). Outros adoram tal tese para afirmar que "é o único jeito de se governar" e, assim, eximir o pai morto de culpa.

Recentemente, vi um texto de um desses "críticos ao presidencialismo de coalizão" que me deixou absolutamente chocado. O cidadão afirmava que criticar o presidencialismo de coalizão era lugar comum, afirmava que ele naufragou, falava que tinha orgulho do seu partido ser contra tal presidencialismo e, claro. Fechava dizendo que "qualquer tentativa diferente do presidencialismo de coalizão terminaria muito mal" e listava calamidades que certamente decorreriam da não-implementação do presidencialismo de coalizão. Ou seja, o presidencialismo de coalizão é ruim, naufragou e não dá certo, mas é a única coisa que existe.

Não se trata de afirmar uma esperança ingênua de que se eleger sem maioria parlamentar seria um mar de flores. Ou mesmo afirmar que um chefe do executivo eleito assim não seria derrubado. Mas simplesmente afirmar que chegar sem maioria poderia ser um processo proveitoso para a esquerda, que a ensinasse a lidar com questões políticas mais amplas, sobre como mobilizar a sociedade e sobre como se enriquecer politicamente e com diversidade, a partir das múltiplas visões que poderiam emergir disso tudo.

E o texto faz pior: ele AMEAÇA a esquerda por ousar cogitar uma abordagem assim. O texto é um capitão-do-mato do presidencialismo de coalizão, tentando evitar que alguém fuja para longe dessa lógica.

Simultaneamente, dá para contrastar esse texto (de um cripto-petista) com um dos tantos textos de um antipetista de esquerda que acusa o PT de traição, diz "Fora PMDB" e acaba, assim, repentinamente, sem propor nenhuma outra forma de fazer qualquer outra coisa.

Quem pensa o novo?

Afirmo uma tese simples: enquanto ninguém pensar em uma alternativa ao presidencialismo de coalizão, tanto faz. Claro que não é ontologicamente a mesma coisa ser petista envergonhado ou antipetista de esquerda roxo, mas os dois lados não apresentam uma solução para o problema e apenas o reafirmam. Aliás, nada mais claro que todo o palavrório despejado, de um léxico muito curioso por sinal, por ambas as partes no pós-impeachment da Dilma: todos afirmavam conjuntamente que avisaram o PT de que não dava para confiar no PMDB.

Só que isso é, também, uma mentira: deu muito certo para o PT, por 14 anos seguidos, confiar no PMDB. Os órfãos do PT, de esquerda e cripto-petistas, foram como aqueles que, ao ver que um amigo terminou uma relação de uma década, com filhos, cachorro, casa em comum, papagaio e periquito, dizem "é uma pena a relação não ter dado certo", até que algum lunático diz, "ora, deu certo por mais de dez anos". A questão é o que quer dizer "dar certo" para o PT. Não tem nada a ver com "dar certo para a esquerda" ou mesmo "para o povo". Os retrocessos do Temer falam por si só.

Aqui existe até outra ausência de alternativa imaginável: a esquerda brasileira tem sérias dificuldades de pensar um mundo sem o PT, por mais que reafirmem a necessidade de "superação do PT".

Nesse ponto, passaremos ao segundo beco.


Caio Almendra é advogado e membro do PSOL.

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