Eles não vão ao Starbucks

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Em 10 de novembro, o prefeito eleito de São Paulo, João Doria Jr., anunciou parte de seu secretariado, atribuindo a seus integrantes uma grande responsabilidade. “Nossa gestão é para os mais pobres, mais humildes, os que mais precisam”. Dois dias antes, Donald J. Trump fez seu primeiro discurso como presidente eleito dos Estados Unidos da América fazendo referência aos “homens e mulheres esquecidos do nosso país”.

 

Há mais do que um apelo populista nas declarações de Doria e de Trump, ambos empresários e apresentadores de reality shows que se tornaram símbolos do homem bem-sucedido e heróis inusitados da classe trabalhadora.

 

A aversão de parte da esquerda contemporânea pela classe trabalhadora permite que neocons como Doria e Trump façam seu discurso demagógico e ainda vençam facilmente uma eleição. No Brasil, a “esquerda Dona Clara” talvez seja mesmo o que sobrou do movimento progressista nos grandes centros urbanos, e não existe nada mais importante para o futuro da humanidade em processo de implosão social do que sua conversão à agenda antissocialista. Advogada implacável das causas pós-materialistas, por um lado, e sorrateiramente confortável com a desigualdade econômica, por outro, acredita que luta de classe não dá mais voto.

 

Retomo este tema rememorando a presepada cometida por alguns de seus sábios, cuja ideia de escrever “Fora Temer” nos copos do Starbucks fez sucesso nas redes sociais há alguns meses. No fast food símbolo da globalização, onde só não se vê mais macbooks do que em uma loja da Apple, o funcionário grita o que está escrito no copo para o cliente buscá-lo. No limitado universo da classe média desterritorializada, utilizar-se dos trabalhadores precarizados de uma multinacional de cappuccino, constrangendo e ignorando que aqueles trabalhadores estão aceitando o risco e a vulnerabilidade que o perfil hippie urbano se recusa a assumir, é representativo da sua dessensibilização social.

 

Trabalhadores que Hillary Clinton, do alto de sua posição privilegiada de palestrante do Goldman Sachs, com sua sensibilidade de gestora descolada, considera “deploráveis” por admitirem a possibilidade de votar em Trump, ele sim deplorável. Para homens e mulheres pobres e colocadas dia a dia em um moedor de carne humana, a política contemporânea descolou-se tanto das demandas materiais e imediatas que um apelo simbólico qualquer é suficiente para uma convulsão social contra a gestão da pobreza promovida pela própria esquerda.

 

Linda Tirado é uma dessas pessoas. Ela relatou em um post no Facebook (o que a levou a ser convidada a escrever um livro) momentos espantosos do cotidiano de uma trabalhadora norte-americana nos dias que seguem. Aos que duvidaram do que contou, respondeu: “o problema é que muitas pessoas simplesmente não entendem a estratificação nas classes mais baixas. Eu não nasci em Appalachia (Virginia, EUA) sem água corrente. No Burger King, ganhei US$ 28 mil por ano. Sim, você pode sobreviver com esse dinheiro. Mas esse não é o ponto. É uma semana de 90 horas. Como é sua vida enquanto você está sobrevivendo? Você pode manter uma família assim?”

 

Quem votou em Trump o fez não necessariamente motivado pela economia real, que melhorou com Obama (e que deverá piorar sob Trump justamente para os mais pobres), mas por símbolos que se conectaram a ela, como “quero meu país de volta” ou de “fazer a América grande novamente”.

 

Junto desse caldo de valores que inclui a xenofobia, votaram contra o progressismo daqueles que se deram bem com a globalização e que acreditam poder gerir a vida dos pobres – profissionais de novas tecnologias, habitantes descolados de cidades que fizeram a transição para essa nova economia e que gentrificaram bairros inteiros de Nova York, São Francisco, Chicago, Londres e São Paulo. Não por acaso, Hillary venceu nesses grandes centros urbanos, porém o entorno dessas ilhas azuis de prosperidade, em estados como Califórnia e Illinois, foi tomado pela onda trumpista.

 

Tão bizarro quanto atento ao espírito do tempo, Trump fez exatamente o contrário: concentrou boa parte de sua campanha em estados tradicionalmente democratas e de vocação industrial como Ohio, Michigan, Pensilvânia e Wisconsin. Todos eles falidos e deixados para trás pela reestruturação produtiva e pela imposição da China como matriz industrial do mundo.

 

Menos amor, por favor

 

As eleições de 2016 no Brasil representaram, além do que já foi extensamente qualificado como guinada à direita, o fracasso da coalizão contra o impeachment de Dilma. Quem estimula essa percepção, contudo, são seus próprios protagonistas, cuja medida de sucesso e fracasso se resume a resultados eleitorais, e vitórias como as dos estudantes secundaristas no último ano são minimizadas. Não por acaso, o movimento limitado, mas entusiasmado, que parecia surgir do “Fora Temer” naufragou definitivamente quando virou palanque para Haddad e Erundina. Dragados pelo tsunami Doria, PT, PCdoB e PSOL levaram o movimento com eles.

 

O cenário se repetiu no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e outras cidades onde o petismo de dentro e de fora do PT devora a si mesmo. Já há alguns anos, a ordem à esquerda é disputar os escombros do petismo – seja lá o que represente hoje. Assim, apesar de ir ao segundo turno em algumas cidades importantes, ela despencou na estrada, sem forças para seguir adiante. O problema é de mérito, de tática e de estratégia. As candidaturas de apelo “pop”, com seus memes engraçadinhos e ativistas de rede social, reafirmam sua identidade de classe média. Quando Doria diz que “Haddad é maior e melhor que o PT”, está fazendo a suposição correta diante de seu lugar de fala.

 

Um bom meme retrataria a situação de muitos progressistas de São Paulo que, com a vitória de Doria ainda no primeiro turno, pensaram em emigrar para o Rio de Janeiro ou Porto Alegre, opções inviabilizadas com as vitórias de Crivella e Marchezan – o que suscitou a vontade de emigração também em cariocas e porto-alegrenses, que por sua vez não podem ir para São Paulo. Salvador já era uma alternativa complicada diante do carlismo light indo para a segunda edição. Pensaram na possibilidade de se mudar para os EUA, mas com a vitória de Trump, estão, assim como os progressistas de lá, sem um lugar para chamar de seu. Só falta a França cair nas mãos de Marine Le Pen...

 

Neste momento, Trump pode tranquilizá-los com uma medida simples: desistir da ideia de fabricar Iphones em solo norte-americano, deixando hipsters em geral sem dinheiro por uma geração – o republicano propôs uma barreira tarifária de 45% para produtos chineses como os fabricados pela Foxconn, que monta os produtos da Apple.

 

Um espectro ronda a esquerda contemporânea

 

“Como a disputa pode estar tão apertada depois de tudo o que Trump tem dito?”, perguntou Michael Moore. “Bem, talvez porque ele tenha dito (corretamente) que o apoio de Clinton ao NAFTA (acordo de livre comércio da América do Norte) ajudou a destruir os estados industriais do Meio Oeste”. Pois em 8 de novembro Trump depositou todos eles em sua sacola de votos. Moore fez a análise consequente meses antes da eleição, mas precisaria de décadas. A esquerda local, alienada em sua bolha, não deu atenção.

 

No primeiro protesto contra o futuro presidente em Nova York, apareceram coros de black lives matter (vidas negras importam) e variações com latinos, muçulmanos e LGBTs, todas justas e verdadeiras. Ninguém ali, contudo, parecia preocupado em entender o drama que levou a classe trabalhadora branca a tomar tal decisão, pois, entre manifestantes progressistas daqui e de lá, “a classe” é uma abstração de livros escolares, como os platelmintos ou a fórmula de Pitágoras.

 

Trabalhadores latinos e asiáticos tampouco se entusiasmaram com Hillary, e mesmo os negros, que apesar de lhe darem ampla maioria dos votos, foram menos às urnas e diminuíram seu apoio em relação ao que obtivera Barack Obama há quatro anos. Entre as mulheres, Hillary não foi além dos 54%, bem menos do que as pesquisas e a intuição progressista acreditavam. A mesma coisa entre o voto jovem, que havia se empolgado em grande parte por Bernie Sanders. Como notou Moore, você pode até votar em Hillary, mas não vai levar outros dez junto com você, e isso faz toda a diferença.

 

A escolha feita pela classe trabalhadora norte-americana branca, e a de latinos e asiáticos de não darem o suporte necessário aos democratas, foi um jeito extremado de dizer que “vidas trabalhadoras importam”. No caso, vidas que foram esquecidas pelo caminho da globalização, que não lhes deu condições mínimas para persegui-lo. Não por acaso, Trump disse em seu discurso de vitória que eles “jamais serão esquecidos novamente”, pois a dura realidade é que quem fala para a classe trabalhadora hoje é a direita, como se viu também na surpreendente vitória do “brexit” no Reino Unido, com motivações semelhantes.

 

E por que ela se preocupa em falar para aqueles de quem é inimiga? Puro populismo seria uma explicação que apenas raspa a superfície. Na parte submersa desse iceberg, contudo, está o fato de que a extração de mais-valia é condição vital para a existência do capitalismo, o que quer dizer que trabalhadores sempre vão existir nesse sistema. Sem um ideário próprio e instrumentos de luta que os faça superar a exploração, demagogos de todo tipo continuarão a surgir falando uma língua que lhes é compreensível e que a esquerda intelectualizada, globalizada e consumidora de alta cultura (sim, a despeito de opiniões paternalistas sobre a cultura popular) despreza, o que permite que Doria se passe por trabalhador que ascendeu na vida e Kim Kataguiri pareça convincente ao comemorar a vitória do impeachment de Dilma em um restaurante popular de comida árabe.

 

Guerras culturais

 

Michael Moore, em sua já famosa previsão da vitória trumpista, acredita que a esquerda ganhou a guerra cultural nos EUA. “Gays e lésbicas podem se casar. A maioria dos americanos tem uma posição liberal em relação a quase todas as questões: salários iguais para as mulheres; aborto legalizado; leis mais duras em defesa do meio ambiente; mais controle de armas; legalização da maconha”.

 

Segundo o Datafolha, 30% dos brasileiros entre 16 e 24 anos considera inaceitável “ter comportamento homossexual”. Há oito anos, era quase metade da população. A rejeição ao aborto caiu de 85% para 79% e ao consumo de maconha de 73% para 67% — números altos, evidentemente, mas menores do que na sondagem anterior. São indícios de mudança cultural que lentamente avança, inclusive sobre setores da nova direita.

 

Há cerca de um ano, um militante do Movimento Brasil Livre (MBL) sofreu ataques homofóbicos em uma rede social por outro membro do grupo que organizou protestos contra Dilma. Para surpresa de alguns, o MBL se solidarizou com o primeiro: “é um absurdo que ainda hoje tal postura retrógrada encontre apoiadores entusiasmados e militantes. Enquanto defensores das liberdades individuais, estaremos sempre do lado contrário de gente que acha que opção sexual (sic) é categoria de pensamento”.

 

Pois é possível que um antigo operário decepcionado com o PT vote em alguém como Fernando Holiday, militante do MBL, negro e gay, que foi o décimo terceiro vereador mais votado de São Paulo. Algo que parece inaceitável para algumas cabeças pensantes na esquerda que, por outro lado, em contínuo processo de submersão na alienação, acreditam que devem dialogar com a crescente massa evangélica que inviabilizou a candidatura de Marcelo Freixo no segundo turno do Rio de Janeiro.

 

Dialogar sim, mas não porque são evangélicos. Imensa parte dessas pessoas são evangélicas porque são trabalhadoras, e não o contrário. Buscam nas confissões neopentecostais não apenas uma ideologia que justifique a busca por dinheiro, a meritocracia e o individualismo, mas também uma comunidade onde exista solidariedade e aconselhamento para os problemas materiais que afetam trabalhadores mais ou menos precarizados. Algo que sindicatos, igrejas progressistas e partidos de esquerda não oferecem mais. Portanto, a disputa por essas pessoas gira em torno de sua condição de trabalhadoras, jogadas para o neopentacostalismo como última opção de uma vida mais tolerável.

 

O que vale para EUA, Inglaterra e países em processo de colapso da modernização, vale em alguma medida para o Brasil. Connor MacPherson, um jovem inglês de 18 anos, cuja banda se apresentou recentemente no festival punk Roundhouse, em Londres, acha que o espírito do movimento é particularmente relevante hoje. “Temos um governo que não está nem aí para os jovens ou para a classe trabalhadora. Precisamos do punk mais do que nunca, muito mais do que em 1977”, diz. Os trabalhadores estão aí e não vão se calar, mesmo que apagá-los do mapa fosse mais conveniente para uma certa esquerda contemporânea”.

 

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Henrique Costa é cientista político.

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