“Hillary errou ao trocar os votos e ideias de Bernie Sanders pelo eleitor conservador”

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A vitória de Donald Trump sobre Hillary Clinton, contra todos os prognósticos, pode ser considerada a coroação de eventos recentes que marcam uma guinada conservadora nas chamadas democracias ocidentais. Seguida de grande lamentação pela maioria da opinião pública, midiática e intelectual, a vitória do magnata, com suas bandeiras de “volta aos velhos e bons tempos”, e a volta do Partido Republicano ao poder (mesmo sem apoio unânime da própria agremiação) são tema da entrevista que o Correio publica com Virgílio Arraes, especialista em relações internacionais e professor da UnB.

 

“Com o fim da Guerra Fria, não houve a melhora em geral da vida da população. Trump teve de inserir-se no republicano, mas como ‘maverick’, isto é, o independente, fora dos círculos tradicionais, ainda que isso não seja verdade. Quanto à candidatura de Hillary, ao invés de aproximar-se do eleitorado de seu oponente interno, Bernie Sanders, seu grupo optou desde o início por descredenciá-lo, ao apontá-lo como ‘socialista’, espécie de labéu nos EUA, quando sua posição era de matiz socialdemocrata ao estilo europeu. Isso poderia ter atraído segmentos ignorados pela representação tradicional e, por conseguinte, desanimados para votar”, analisou Arraes, também colunista deste Correio.

 

Na conversa, Arraes pontua que Trump terá muita dificuldade em cumprir suas promessas de recuperação da economia e do emprego, ante as características da inserção do capital norte-americano, o que poderia ser “compensado” com mais perseguição interna às minorias e retrocessos nas áreas sociais e ambientais. Já no plano externo, ainda não se pode medir como será a orientação do novo governo, em especial no Oriente Médio, mas também ressalta as limitações do Partido Democrata, dentro e fora de casa.

 

“Obama auxiliou a distender a tensão dos EUA com o mundo, legado negativo da gestão Bush, mas não revisou nenhuma política com o propósito de modificá-la, a não ser na saúde pública. Aproximar-se de Cuba é um ponto importante do ponto de vista simbólico e não ter estimulado o preconceito contra muçulmanos também. Todavia, valorizou pouco a América Latina e não avançou na questão ambiental, nem social. Sua esposa poderá ter um papel importante na renovação da imagem dos democratas após a derrota de Hillary Clinton. Michelle é preparada e independente e poderia ser um contraponto importante à postura machista de Trump”, analisou.

 

A entrevista completa com Virgílio Arraes pode ser lida a seguir.

 

Correio da Cidadania: Como enxerga a vitória de Donald Trump sobre Hillary Clinton, que deixa o mundo e a opinião pública dominante estupefatos?

 

Virgílio Arraes: No Brasil, chamaríamos a vitória de sebastianismo, ou seja, seria a vinda de um ‘salvador’, supostamente fora do quadro político tradicional, que traria consigo a redenção de um povo, após sofrimentos, desilusões ou desesperanças. Na prática, tal ‘redentor’ na política contemporânea é um fenômeno da mercadologia porque tem raízes bem fincadas no sistema, seja na economia ou na própria política.

 

Elas, no momento do surgimento da candidatura, são desconsideradas – Jânio Quadros e Fernando Collor são exemplos na história brasileira. Nos Estados Unidos, o caso mais recente foi o do general de 5 estrelas Dwight Eisenhower, vitorioso na II Guerra Mundial, apresentado como de fora do ‘sistema tradicional’ – o herói de guerra a administrar os EUA na Guerra Fria

 

Correio da Cidadania: Quais as principais razões da vitória do candidato republicano e quais teriam sido os erros mais fatais de Hillary?

 

Virgílio Arraes: O desencanto, espraiado no mundo em distintos graus, com o fracasso em termos sociais da política tradicional, o que abarca, claro, os partidos. Com o fim da Guerra Fria, não houve a melhora em geral da vida da população. Os benefícios da socialdemocracia no Ocidente têm sido reduzidos com o passar de um quarto de século, uma vez que o grande adversário de décadas – a União Soviética ou o socialismo real – capitulou sem resistências e não há contraponto alternativo. Desta forma, o mercado pôde rearticular com desembaraço a nova distribuição da riqueza. No antigo Terceiro Mundo, como no Brasil, a situação foi pior porque não se viveu a experiência redistributiva. Observe-se que as agremiações nominalmente socialdemocrata e a trabalhista transitaram sem pestanejar para o arco neoliberal nas duas últimas décadas. Os EUA são um caso singular em termos partidários porque não há espaço para uma terceira via – nem Ted Roosevelt conseguiu isto no início do século 20.

 

Desta maneira, Trump teve de inserir-se no republicano, mas como ‘maverick’, isto é, o independente, fora dos círculos tradicionais, ainda que isso não seja verdade, e abordar de maneira polêmica, logo chamativa, temas relativos a emprego, empobrecimento, decadência do país, insegurança militar etc.

 

Quanto à candidatura de Hillary, ao invés de aproximar-se do eleitorado de seu oponente interno, Bernie Sanders, seu grupo optou desde o início por descredenciá-lo, ao apontá-lo como ‘socialista’, espécie de labéu nos EUA, quando sua posição era de matiz socialdemocrata ao estilo europeu. Isso poderia ter atraído segmentos ignorados pela representação tradicional e, por conseguinte, desanimados para votar. Mas ela optou por disputar por dentro do próprio sistema o eleitor conservador, ao passo que Trump ‘por fora’, embora cada um tivesse uma retórica diferente ao dirigir-se ao eleitor ‘médio’ na eleição.

 

Correio da Cidadania: Como a vitória de Trump se alinha ao contexto internacional?

 

Virgílio Arraes: Ela seria uma resposta extrema, do ponto de vista político, aos efeitos da crise econômica de 2008, originada na administração de George Bush. Na prática, significaria a princípio exacerbar a xenofobia, que pulula nos EUA de quando em quando desde o século 19, o protecionismo econômico e a robustez militar. Assim, bodes expiatórios seriam indicados ou reforçados, como os imigrantes, em especial os do Oriente Médio e os da América hispânica, os setores agrícolas e industriais de sociedades com as quais o país não pode competir (como o agronegócio brasileiro), ou ainda países como Irã, Coréia do Norte ou Venezuela.

 

Correio da Cidadania: Vislumbra alguma possibilidade de alteração de relevo nas relações entre Brasil e Estados Unidos, a exemplo do comércio e da imigração?

 

Virgílio Arraes: No curto prazo, não. O protecionismo deve continuar no tocante ao agronegócio brasileiro e a possibilidade de facilitar a circulação de brasileiros, especialmente empresários e turistas, não deve prosperar.

 

A restrição à legalização da imigração deve manter-se e, por conseguinte, a repressão deve intensificar-se. Na parte política, em face da identificação ideológica maior entre o Partido Republicano e o PMDB/PSDB/DEM a parceria deve ser reiterada, como no caso do posicionamento concernente ao arco bolivariano.

 

Correio da Cidadania: Acredita que o republicano levará a cabo suas ideias de construção de muro na fronteira com o México, expulsão de milhões de imigrantes e perseguição à comunidade muçulmana ou tais promessas se mostrarão bravatas eleitoreiras?

 

Virgílio Arraes: Por ser bipartidário o país, há limitações, quando não há crise de monta, de ir mais à esquerda ou mais à direita. O governo Clinton desejou reformar o sistema de saúde nos anos 90 de modo mais incisivo e não pôde. Obama optou por menos e pôde avançar. O governo Bush, se pudesse, teria sido mais bélico ainda. Há muita bravata por parte de Trump, que se vale de sua experiência televisiva.

 

Acredita-se que ele pode intensificar medidas já executadas, como a defenestração de imigrantes – Obama executou mais que Bush – e a ampliação do muro, que em seu início foi construído no governo Clinton e estendido na gestão Bush com o voto dos então senadores Barack Obama, Joe Biden e Hillary Clinton! São duas ações que tiraram votos dos democratas na presente eleição, apesar de pouco destaque da imprensa.

 

No tocante aos muçulmanos, o preconceito, já amplo, deve ter impacto na administração federal com o propósito de não receber fluxos significativos de refugiados médio-orientais.

 

Correio da Cidadania: Ainda neste contexto, como você define o perfil do eleitorado de Donald Trump?

 

Virgílio Arraes: Classe média economicamente decadente ou estagnada de áreas outrora florescentes – o antigo cinturão de fábricas, por exemplo. Com menor escolaridade, mais religiosa – cristã essencialmente – e de ascendência europeia.

 

Correio da Cidadania: O que esperar do novo presidente na condução da economia, diante de seus discursos de maior protecionismo e recuperação dos empregos industriais?

 

Virgílio Arraes: É uma incógnita. A economia norte-americana é bastante internacionalizada. Ampliar ou criar barreiras alfandegárias afetariam subsidiárias de grandes empresas ao redor do globo – na Ásia, por exemplo, ou no México e Canadá. Não me parece possível no curto prazo a recuperação de determinados segmentos industriais. Seria uma promessa vã de campanha.

 

Correio da Cidadania: Na política internacional, teremos um presidente mais isolacionista ou a tônica de intervencionismo, em especial no Oriente Médio, deverá se manter?

 

Virgílio Arraes: Ele havia prometido reduzir a presença de tropas externamente – mais de uma centena de países - ou cobrar ao menos parcialmente por elas. Isto seria possível. Todavia, uma redistribuição dos contingentes é o aspecto mais provável. No Oriente Médio, a presença continuará. Guerrear diretamente é muito desgastante – talvez se reviva a ‘terceirização’ dos anos 80 na África, ou seja, fornecer armamentos e treinamento contínuo. A Síria tem sido o ensaio mais recente na região depois do fracasso no Iraque e Afeganistão.

 

Correio da Cidadania: O que esperar das questões que envolvem Israel e Palestina?

 

Virgílio Arraes: Maior inclinação para Israel, marca da política do Partido Republicano. Os democratas costumam dedicar-se mais a encontrar uma solução para os impasses irlandês e palestino.

 

Correio da Cidadania: Quais devem ser as primeiras marcas da transição de Obama para Trump?

 

Virgílio Arraes: Não haverá problemas, porque a profissionalização do serviço público federal é grande, especialmente na área diplomática e militar. O Banco Central tem mandato. Deste modo, o tripé administrativo se manteria. Ajustes ocorrerão, mas não mudanças estruturais.

 

Correio da Cidadania: Acredita que Trump mexerá naquilo que Obama deixa de mais palpável como herança?

 

Virgílio Arraes: Nas áreas de saúde e de meio ambiente, ele poderá mexer. Nas questões comportamentais, em face da pressão do segmento mais religioso, assuntos como o aborto poderão ser revistos. É possível que ele proponha maior rigidez ao código penal e assim endureça o sistema carcerário. Não deve alterar o direito de portar armas.

 

Correio da Cidadania: Que avaliação você faz dos oito anos de Barack Obama na Casa Branca? Michele Obama se perfila como alternativa renovadora do Partido Democrata?

 

Virgílio Arraes: Obama auxiliou a distender a tensão dos EUA com o mundo, legado negativo da gestão Bush, mas não revisou nenhuma política com o propósito de modificá-la, a não ser na saúde pública. Aproximar-se de Cuba é um ponto importante do ponto de vista simbólico e não ter estimulado o preconceito contra muçulmanos também. Todavia, valorizou pouco a América Latina e não avançou na questão ambiental, nem social.

 

Sua esposa poderá ter um papel importante na renovação da imagem dos democratas após a derrota de Hillary Clinton. Michelle é preparada e independente e poderia ser um contraponto importante à postura machista de Trump, a qual foi tratada de forma lamentável por segmentos da comunicação, como se fosse algo folclórico, não deplorável.

 

Leia também:


Dos tímidos aos pessimistas, como votou a América

 

Trump será o Lula da direita: rugidos na campanha, miados no poder

 

Leia as colunas de Virgílio Arraes sobre os Estados Unidos.

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

Comentários   

0 #1 Michelle como nova Hillary?Julian Ramos 11-11-2016 15:15
Muito boa a análise do Prof. Arraes. Contudo a visão de que Michelle Obama iria reeditar o papel da Hillary nos anos vibdouros parece improvável, dado seu pouco carisma e falta de experiência.
Tal papel poderá muito provavelmente ser desempenhado pela Senadora Elizabeth Warren, do Massachussets que vem se projetando de forma enfática, combativa e um verdadeiro tribuna do povo.
A propósito, ela foi uma das primeiras lideranças democratas a articularem uma extensa gama de contra-medidas e iniciativas políticas a possíveis desdobramentos da vindoura Administração Trump.
Analistas brasileiros precisam prestar bastante atenção à atividade combativa e, por assim dizer, populista da senadora democrata.
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