Heil, CO₂! “Nazinegacionismo” e eleições alemãs

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Racismo, xenofobia e agora negacionismo climático: a ultradireita alemã volta ao parlamento após sete décadas, com um repertório completo de sandices.

Eleições alemãs: como esperado, a União Democrata-Cristã/Social-Cristã (CDU/CSU) de Angela Merkel permaneceu como a maior força no Bundestag, o parlamento alemão, elegendo 246 deputados após obter cerca de 1/3 dos votos. Mas isso está longe de ser boa notícia para os partidários da chanceler alemã, visto que este foi o pior resultado eleitoral do partido em nada menos que 68 anos. A bancada perderá 65 deputados, encolhendo dos atuais 311 para 246.

O SPD (Partido Social-Democrata da Alemanha), que também compõe o atual governo, foi outro bastante atingido, perdendo mais de 5% da preferência dos eleitores alemães e ficando com 39 assentos a menos no parlamento. Martin Schulz, líder do SPD, avalia que isso foi um recado contra a “grande coligação” com a CDU/CSU, que veio sustentando Merkel, e já anunciou o fim do acordo com o Governo, o que deve levar Merkel a buscar um arranjo com os liberais eurocéticos do FDP (que obtiveram 10,7% dos votos, mais do dobro de sua votação anterior) e com os Verdes, que receberam 8,9% dos votos.

Die Linke, o partido de esquerda, obteve um resultado melhor do que há 4 anos, ficou à frente dos Verdes, com 69 eleitos, crescendo sua bancada em 5 parlamentares, mas foi ultrapassado não apenas pelo FDP, mas pela trágica “novidade” das eleições, o partido da extrema-direita (AfD), que se tornou na terceira força política e entrou no Bundestag.

A presença da ultradireita no parlamento alemão é tristemente inédita desde o fim da II Guerra Mundial. Capitalizando em cima de incertezas econômicas e principalmente da xenofobia, os 12,6% de votos que obteve irá garantir-lhe nada menos do que 94 cadeiras no parlamento.
 

As propostas do AfD para clima, ambiente e energia são uma verdadeira declaração de estupidez e irresponsabilidade. Um festival de declarações anticientíficas.

Mas se os discursos dessa versão modernizada dos nazis centraram fogo na imigração, especialmente após a decisão de Merkel (tão acertada e justa quanto, infelizmente, impopular) de acolher refugiados, principalmente do Oriente Médio, em 2015, outro traço peculiar do AfD emergiu nos debates de campanha: o “mau e velho” negacionismo climático...

Pois é. Quando instado a falar sobre clima, ambiente e energia, a direção do AfD desfiou um rosário de sandices negacionistas ao melhor estilo dos asseclas de Trump e dos paspalhos nacionais Felício e Molion. Em resumo, os nazinegacionistas:

1) Afirmam que “já houve mudanças climáticas”, para fugir do debate das causas, riscos e implicações da mudança atual;

2) Jogam o sofisma de que “o CO₂ não é tóxico”, como se fosse essa a questão por trás da necessidade de controle e redução radical de suas emissões;

3) Mentem a respeito do IPCC quando afirmam que os estudos compilados pelo painel se baseiam “apenas em modelos”;

4) Mentem ao dizer que as temperaturas atuais são “similares” àquelas verificadas na Idade Média e no período do Império Romano;

5) Repetem a caraminhola, mil vezes desmentida, de que “o aquecimento global parou em...”;

6) Ressuscitam o mito de que mais CO₂ na atmosfera será “bom para o crescimento das plantas”;

7) Concluem que não se deve reduzir o uso de combustíveis fósseis e descarbonizar a matriz energética.

 
Como sabemos, parte da extrema-direita brasileira já é negacionista de carteirinha. Na foto, Molion profere palestra junto ao Instituto Plínio Correia de Oliveira, fachada da TFP.

Se você achou tudo isso estranhamente familiar (tendo nós mesmos dissecado vários desses mitos como aqui e aqui), não é à toa. O negacionismo climático em si foi, como sabemos, produto de laboratório gerado pela própria indústria fóssil. Mas, nos últimos anos, ele vem sendo abraçado de maneira bastante ostensiva pela direita organizada, à medida que o discurso desta vem construindo convergências cada vez maiores em escala mundial, homogeneizado por uma combinação de fatores que vão desde incertezas, anseios e afetos comuns, com os quais a direita dialoga seja no Brasil, na Europa ou nos EUA, aos treinamentos de seus quadros em “institutos” e “think tanks” e, claro, à interação nas redes sociais, que tem conformado, no limite, uma nova identidade à direita. Em nome desta, determinados grupos são capazes de abrir mão de parte de sua identidade original em favor da simbiose com os demais (caso dos “liberais” que abraçam o conservadorismo de costumes para não chatear os coleguinhas...)

 
Precisamos nos preparar para enfrentar um mundo em que o caos climático produzirá muitos milhões de refugiados. A direita, ao combinar xenofobia e negacionismo, já mostrou qual é sua posição a respeito. Urge o contraponto necessário.

Daí, ao abraçar essa lógica de convergência, em que os consensos entram nas câmaras de eco e os dissensos são secundarizados, não é surpresa que a extrema-direita alemã, assim como a ultradireita dos EUA (incluindo Trump) e em vários outros locais do mundo combine racismo e xenofobia com negacionismo climático. No caso desses dois tópicos especificamente talvez seja a mostra de que, dentro da sua visão deturpada, perversa, cruel, ela está de fato conectada às duas questões que provavelmente irão decidir, pelo menos em grande parte, os rumos da humanidade neste século de tamanhas crises e incertezas: as mudanças climáticas e a crise civilizacional e imigratória a elas relacionada.

À esquerda cabe fazer o contraponto e trazer, para além das autoproclamações de “internacionalismo”, uma perspectiva transformadora mundial em que evitar as piores consequências do caos climático e do colapso ecológico e acolher a todos e todas, expulsos de seus lares por furacões e guerras, secas e genocídios, elevação do nível do mar e conflitos militares, como irmãos e irmãs. Estará à altura?

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