O movimento que ameaça a velha política libanesa enfrenta novos dilemas

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No início de julho, o parlamentar espanhol Isidro López, do Podemos, esteve no Líbano para discutir o tema “Do 15 de maio às instituições” com membros do Beirut Madinati, movimento político que se posicionou como alternativa progressista aos candidatos de partidos tradicionais nas eleições municipais de Beirute em 2016.

Dentre os tópicos debatidos, o atual dilema: se institucionalizar para concorrer às aguardadas eleições legislativas em maio de 2018 ou, por enquanto, se abster desse tipo de pleito.

Em 2016, às vésperas das eleições municipais de Beirute, conversei (1) com Lori Baitarian, membro do Beirut Madinati. Meses depois do pleito, fiz outra entrevista com Lori, que relatou o que aconteceu após as eleições municipais, além da sua visão sobre o que deve ser feito no futuro.

Abaixo, a transcrição da conversa.

Faz mais 8 meses de nossa última entrevista. O Beirut Madinati teve surpreendentes 40% dos votos, mas perdeu para a lista do atual primeiro-ministro Saad Hariri. Como você avalia esse processo?
 
O problema foi a abstenção, de quase 80%. Muitas pessoas que moram em Beirute não são registradas na cidade e o processo para mudar de domicílio eleitoral no Líbano é complicado. Mesmo assim, foi uma taxa muito alta e não sabemos até que ponto cada fator teve peso no baixo comparecimento. Pessoas que moram fora do país, pessoas que se mudaram de Beirute e uma parte que desistiu do sistema, muitos nos falaram que não votariam porque não acreditavam mais no sistema.

A maioria que se convenceu e se juntou ao Beirute Madinati faz parte da nova geração, muitos nem sabe como votar, quais documentos levar, mas estavam interessados em aprender. Eu observei a votação em uma zona eleitoral do centro de Beirute, perto da Green Line que dividiu a cidade durante a guerra, um lugar de convergência. Comparado com votações prévias, todos estavam comentando a grande quantidade de jovens votando. Antes, os jovens votavam no partido que sua família apoiava, mas muitos votaram no Beirut Madinati e chegaram a convencer seus pais a fazer o mesmo.
 
O sistema eleitoral é seguro ou é possível que tenha havido muitas fraudes?
 
O sistema é vulnerável. Em cada zona eleitoral, os eleitores são divididos por gênero e secto. Assim, eu, por exemplo, voto em uma urna onde estão os votos de mulheres do secto armênio-ortodoxo. Além disso, cada família tem um número de registro e cada urna comporta um número específico de famílias, que a depender da área não é muito alto. Isso faz com que seja possível estimar se grande parte de uma família votou ou não em um partido específico, possibilitando a compra de votos.

Além disso, houve muitas irregularidades durante a eleição. Urnas que não chegaram ao local de contagem, envelopes com votos para o Beirut Madinati sendo rasgados. Não tínhamos monitoramento suficiente, precisávamos de uma pessoa por sala. Eu presenciei um homem que pegou um voto para o Beirut Madinati e disse que não seria possível contabilizá-lo porque havia um risco. Mas aí disse que não tinha nada de errado, e ele falou que tudo bem, que ia contar porque eu pedi. Se eu não estivesse lá, seria menos um voto.
 
Além das regras que dificultam a troca do domicílio eleitoral e abrem a porta para a compra de votos, existe outro fator que faça com que tantas pessoas não consigam mudar a forma como enxergam o sistema?
 
Medo. As pessoas têm um medo genuíno da mudança nessa área. Medo, por exemplo, de o Hariri (atual primeiro-ministro) ferrar com os armênios nas eleições parlamentares se os armênios não votarem na lista dele nas municipais.
 
A lista de Saad Hariri, atual primeiro-ministro, foi a vencedora. Apesar disso houve uma disputa. Vocês acham que a presença do Beirute Madinati incomodou?
 
O Hariri fez três discursos de vitória. Um assim que a eleição se encerrou. Depois durante a contagem, que durou mais do que ele esperava por causa dos nossos pedidos de recontagem, e uma última quando os resultados oficiais foram divulgados, dois dias depois. Nesse discurso ele mencionou o Beirut Madinati, afirmando que “queremos parabenizá-los e trabalhar com eles”, disse que nós tínhamos expertise e eles experiência.

Depois da eleição teve até um encontro entre ele e alguns membros do Beirut Madinati, ele escolheu um funcionário para ser o mediador dessa relação, mas ele nunca respondeu nenhum e-mail. Mesmo assim esse encontro aconteceu, queria saber formas de implementar o programa, porque ele copiou nosso programa. Nós pedimos mais transparência também, mas isso não deu em nada. Eles acabaram de vender um dos últimos trechos de praia pública na cidade, algo que lutamos contra. Eles não se importam, mas não ignoram, tentam mostrar que estão incluindo a gente.
 
E após as eleições como foi? O movimento continuou organizado, o que mudou?
 
A quase vitória foi como uma tapa na cara, as pessoas começaram a levar o movimento a sério e houve discussões sobre o que fazer. Foram quatro meses de discussões, três assembleias gerais, encontros, divergências, relatórios e grupos de estudo que se dividiram em eleição, município, bairros, mídia social e publicidade, administrativo.

Houve uma assembleia de bairro após a eleição, embaixo do prédio da prefeitura onde há um pequeno jardim público. Discutimos a crise do lixo e como o município poderia agir. Entregamos o relatório da discussão junto com um plano para o Conselho Municipal. Responderam que era uma questão muito política e não poderiam agir no âmbito municipal. Também participamos dos protestos contra a privatização da costa da cidade.
 
E as eleições parlamentares? O Beirut Madinati vai virar algo nacional?
 
No dia 29 de outubro, houve uma votação sobre como iríamos nos posicionar nas futuras eleições parlamentares. Por uma pequena margem, o movimento decidiu não participar de forma alguma, nem direta ou indiretamente. Alguns motivos alegados foram o fato de a maioria não achar que estamos prontos para encarar a situação política nacional, a questão dos votos para o parlamento serem divididos pelos sectos, impossibilidade de manter as bases do movimento, ter uma posição única sobre questões importantes e polêmicas como Hezbollah, Síria, Israel.

Nós somos um grupo que comporta diferentes opiniões, somos pessoas diferentes, conseguimos chegar a alguns consensos, como o fato de sermos contra o sectarismo, a favor de reformas, da paridade de gênero, de um sistema eleitoral mais justo, mais transparências, políticas públicas. Mas chegar em um ponto comum em assuntos como Israel, Hezbollah e Síria é outro departamento. Há pessoas com medo de os xiitas dominarem o país e da islamização.
 
O que você acha que deve ser feito então?
 
No momento acho que temos de escolher a nossa batalha. Começamos com o objetivo de vencer as eleições do Conselho Municipal. Se focarmos em um objetivo, se escolhermos corretamente esse objetivo, com o apoio certo e as pessoas certas, podemos produzir e oferecer alternativas, ao invés de ser simplesmente um movimento pela mudança e essa mudança ser indefinida. Do jeito que as coisas estão agora, com entraves, não vamos chegar a muitos lugares.
 
Nota:

1) http://uninomade.net/tenda/o-que-as-eleicoes-municipais-do-libano-tem-a-ver-com-o-brasil/ 

Retirado do site da Uninômade.

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