África: três vezes mais celulares do que acesso a água encanada

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A água e o saneamento básico são chaves para manter um bom estado de saúde e para o bem estar econômico de uma sociedade. Contudo, água e saneamento básico seguem às margens das prioridades dos planos de desenvolvimento para a África, onde seu elevado custo e as más políticas fazem com que milhões de pessoas não tenham água encanada, sistemas de esgoto ou mesmo vasos sanitários.

“Apesar de signatário de diversos acordos para garantir a segurança hídrica, este continente simplesmente não pode pagar pela infraestrutura necessária para que todas as pessoas gozem deste direito”, explicou o especialista Mike Muller da Universidade Witwatersand, na África do Sul. “A África subsaariana utiliza menos de 5% dos seus recursos hídricos, mas o custo de levar o serviço de esgoto para todos os cidadãos pode ser um impedimento”, indicou Muller.

O Conselho Mundial de Águas (WWC, em inglês), fundado em 1996 com mais de 300 membros que advogam pela soberania hídrica, assinala que o mundo deverá destinar cerca de 650 bilhões de dólares por ano até 2030 para construir uma infraestrutura necessária para garantir a segurança hídrica universal.

Problema hídricos recorrentes

Este continente todavia está longe de gozar dos retornos dos investimentos no setor hídrico. Por exemplo, há mais cidadãos com telefones móveis do que com acesso à água limpa e vaso sanitário.

Um informe de 2016 publicado pela Afrobarometer, rede africana de pesquisa que estudou o acesso aos serviços básicos e infraestrutura em 35 países, concluiu que apenas 30% dos africanos teriam acesso a vasos sanitários e 63% a água encanada, mas 93% deles tinham acesso a serviços de telefonia móvel.

Os governos devem investir em projetos hídricos que abasteçam a população com água potável. Especialmente num mundo onde 800 milhões de pessoas não o têm e onde as enfermidades derivadas da contaminação da água deixam 3,5 milhões de mortos por ano, como indicou o WWC no marco do Dia Mundial da Água, que se celebrou em 22 de março sob o lema “Águas residuais: por que desperdiçar água?”.

A WWC alertou que a insegurança hídrica custa para a economia mundial cerca de 500 bilhões de dólares por ano. “Os líderes do mundo se deram conta de que o saneamento básico é fundamental para a saúde pública, devemos atuar agora para conquistar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS), que é garantir a disponibilidade de acesso à água, sua gestão sustentável e saneamento básico para todos até 2030”, recordou o presidente da WWC, Benedito Braga.

“Precisamos de um compromisso no mais alto nível para garantir a disponibilidade de recursos hídricos em cada povoamento e cidade do mundo”, agregou. A falta de água potável, alertou Braga, pode contribuir com a fome, a guerra e a emigração sem controle e irregular. “A água é um ingrediente essencial para o desenvolvimento social e econômico em todos os setores; assegura que haja suficientes alimentos para todos, fornece abastecimento de eletricidade estável e assegura o mercado e a estabilidade industrial, entre outros benefícios sociais e econômicos”, indicou.

“O mundo não pôde cumprir com a meta de saneamento de 2015 e ficaram 2,4 bilhões de pessoas sem o serviço com a necessidade de que haja investimento em saneamento, o que segundo a WWC deixou prejuízo de 4,3 dólares por cada dólar não investido, ao reduzir custos de saúde”, precisou Braga.

Riqueza das águas residuais

Segundo a ONU, águas residuais são “combinações de efluentes domésticos compostos por águas negras (fezes, urina e coliformes fecais) e águas cinzas (de banho e cozinha), além da água de estabelecimentos comerciais e efluentes de instituições industriais e da agricultura”.

De acordo com o quarto Informe do Desenvolvimento Mundial de Águas, atualmente só 20% das águas servidas são tratadas adequadamente, e isso depende principalmente da arrecadação de cada país. A capacidade de tratamento é de 70% das águas residuais gerais nos países de grandes economias, em comparação com apenas oito países mais pobres, segundo o informe da ONU Água, Gestão de Águas Residuais.

“É preciso uma mudança de paradigma nas políticas de águas em todo o mundo, não só para prevenir mais danos aos ecossistemas sensíveis e ao meio ambiente aquático, mas também para sublinhar que as águas de esgoto são um recurso (em termos de água e também de nutrientes para o uso agrícola), cuja efetiva gestão é essencial para a soberania hídrica futura”, indicou a ONU Água.

Muller explicou que a África não pode se concentrar na questão do esgoto sem garantir, primeiro, um serviço de água potável adequado. “O foco em esgoto reflete os desejos do mundo rico em reduzir a contaminação, proteger o meio ambiente e vender tecnologia”, observou. “Há grandes cidades e vilarejos onde a água é tratada e reutilizada, em outros, os agricultores urbanos buscam águas não tratadas porque são um valioso fertilizante. Mas em lugares sem um abastecimento de água adequado ou sem rede de água encanada e esgoto, seu tratamento ainda não é uma prioridade, pois sem o abastecimento não há esgoto. É uma questão ainda mais básica do que parece”, explicou.

Segundo o WWC, cerca de 90% das águas servidas no mundo voltam ao meio ambiente sem tratamento. Mais de 923 milhões de pessoas não têm acesso à água potável e 2,4 bilhões não têm saneamento básico adequado. “Quase 40% da população mundial já padece de escassez hídrica, número que pode aumentar para dois terços da humanidade em 2025. Além disso, perto de 700 milhões de pessoas vivem em zonas urbanas sem acesso à água encanada”, indicou o Conselho.

As águas que são vitais em tempos de seca, em especial para a indústria e a agricultura, também podem servir para a pecuária e geração de energia; o que contribui com o desenvolvimento social e econômico dos países africanos, mas junto dela é preciso uma infraestrutura de saneamento. “Conseguir avanços em matéria de água potável é um êxito temporal se não são atendidos outros elementos, como o saneamento e a gestão de águas de esgoto, em especial nas zonas urbanas”, disse Clever Mafuta, coordenador da GRID-Arendal, para a IPS.

“A água de esgoto termina em fontes usadas para beber, e se não é bem gerida, podemos perder fontes de abastecimento de água potável”, anexou Mafuta, cuja organização com sede na Noruega colabora com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). A ONU estima que a África subsaariana perde 40 bilhões de horas por ano – ou melhor, um ano inteiro de trabalho da população francesa – reconectando sistemas de distribuição de água.

A visão da organização Água da África para 2025, lançada pelas agências da ONU e órgãos regionais africanos em 2000, identificou condições climáticas extremas, variação de chuvas, inapropriada governança, inabilidade dos acordos institucionais na gestão de nascentes e o financiamento insustentável dos investimentos em água e saneamento básico como ameaças de escassez de água no continente.

Ministros africanos desta área adotaram a Declaração sobre Saneamento e Higiene de Ngor, em maio de 2015, no Senegal, comprometendo-se a oferecer acesso ao saneamento e eliminar a formação de esgoto a céu aberto para 2030. Um objetivo ainda distante.

O Conselho de Ministros Africanos sobre Águas desenvolveu um sistema de monitoramento e informação para o setor. O secretário executivo Canisius Kanangire o considerou um passo importante para assegurar uma gestão efetiva e eficiente dos recursos hídricos do continente e do abastecimento adequado e igualitário dos recursos hídricos. Espera-se que este sistema seja posto em atividade.


Busani Bafana é jornalista zimbabuense.
Artigo publicado em espanhol no portal IpsNoticias.
Traduzido por Raphael Sanz, para o Correio da Cidadania.

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