Uruguai: o progressismo fecha os olhos (1)

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“Todas juntas”. Portais de jornais impressos e noticiários televisivos dão conta da enorme manifestação. As redes sociais explodem de feminismo. Governantes e opositores ficam corados. Mais de 200 mil pessoas. Mulheres de todas as idades. O colorido da multidão ocupa um grande pedaço da principal avenida de Montevideo. Centenas de vídeos difundem as imagens do caleidoscópio. Impressionante.

As demandas de gênero e igualdade têm como destinatários os poderes do Estado (governo, parlamente, justiça). A horrível onda de feminicídios e a ‘imparável’ violência doméstica se somam à cota de indignação de raiva. Ao passo da marcha, em uma tela gigante do Impo (Centro de Informação Oficial) lê-se que o Uruguai é “o país com o índice de assassinatos de mulheres mais alto do mundo”. O que, para ser exato, viria a contrariar cifras das Nações Unidas e da CEPAL (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), de “um país com pouca violência de gênero (1).

A “brecha salarial” figura entre as principais pautas. Ainda que “tenha sido reduzida paulatinamente”, a desigualdade é um insulto: as mulheres ganham em média 23,9% a menos que os homens pela mesma tarefa. O que implica nada menos que “se um homem e uma mulher começarem a trabalhar em primeiro de janeiro no mesmo cargo, a mulher cobraria a partir de 28 de março, trabalharia grátis os primeiros 87 dias do ano em comparação com o homem (2)”.

Os contrastes nos cartazes lidos durante a Marcha, não diminuem a intensidade do “fenômeno social”. Reafirmam a fertilidade do movimento de mulheres que se apropria do espaço público. Ainda que “portas adentro” do feminismo militante se expressem “diferenças ideológicas e geracionais” que “reeditam o histórico debate entre a autonomia, a institucionalização e o papel do Estado (3)”.

Infelizmente, a Greve Internacional das Mulheres não teve o mesmo eco. Enquanto em alguns lugares foram paralisadas as atividades total ou parcialmente (saúde pública, escolas públicas, Universidade da República, e poucos lugares no setor privado), a imensa maioria das assalariadas não pode acompanhar a convocatória. Mesmo no universo sindicalizado, em fábricas, padarias, lojas, restaurantes, farmácias, shoppings, supermercados, emprego doméstico, limpeza, terceirizadas, call centers, celebrou-se o 8 de março trabalhando.

Elas também exigem respeito, querem ser livres, viver sem medos. Mesmo as que não estiveram na Marcha ou não fizeram greve. E é completamente possível entender as razões: elas integram o 70% do setor popular impossibilitado de fazer greves parciais ou o que decreta a central sindical PIT-CNT (4).

Constatação indisfarçável: a crítica da opressão patriarcal, a reivindicação de direitos de gênero e, portanto, da emancipação da mulher, são inseparáveis da luta de classes. Sem alterar as relações de força entre o capital e o trabalho, sem desafiar o despotismo patronal, sem eliminar as condições de emprego precário e miséria salarial, sem derrotar a ameaça do desemprego, sem varrer o assédio machista no ambiente de trabalho, a “condição feminina” continuará em estado de subordinação. Muito pior para as trabalhadoras, sejam sós ou donas de casa, cujo salário médio apenas supera um salário mínimo mensal de 430 dólares.

De todas as maneiras, é certo que a Marcha das Mulheres – apesar de suas diferenças e limitações – compartilha o pódio junto à Marcha do Silêncio (20 de maio) e à Marcha da Diversidade Sexual (28 de setembro). São as únicas manifestações realmente massivas que sacodem, três vezes por ano, a apatia política.

Ainda que sejam muito distintas. Por origem, identidades, reivindicações. A Marcha do Silêncio (5) convocada pelas Mães e Familiares de Detidos Desaparecidos, exige Verdade e Justiça. Coloca, incansavelmente, o fim da impunidade e o castigo aos crimes de terrorismo de Estado (6). Ainda que tenha de lidar com a burla do governo (7).

A Marcha da Diversidade Sexual, convocada por coletivos LGBT, feministas e culturais, ONGs e instituições oficiais, ressalta os direitos conquistados, avanços legais e alerta sobre discriminações. Mostra um alto componente juvenil. Nos últimos dois anos é possível notar uma pequena apropriação do marketing progressista.

Não obstante distintas, essas marchas convergem em campos comuns. São pacíficas, inclusivas, tolerantes. Revalorizam solidariedades. Se não há muita barreira de classe por um lado, também não levanta bandeiras anticapitalistas, nem pretende subverter o status quo. Ou seja, não está em suas intenções desafiar a ordem do capital, nem a “autoridade legítima” do Estado e suas instituições.

Longe de uma crítica sectária, é um dado da realidade. As três marchas apresentam uma nítida fotografia do país progressista. Onde as diversas “agendas democráticas” da “sociedade civil” superam, largamente, os índices de “conflitividade laboral” e as plataformas classistas do “movimento operário organizado”. Bastaria uma simples comparação: o PIT-CNT diz contar com cerca de 400 mil afiliados (30% dos(as) assalariados(as) com ‘emprego formal’), contudo, já faz anos que não consegue reunir 5 mil trabalhadores em praça pública para o ato no centro de Primeiro de Maio. A Praça Mártires de Chicago fica cheia pela metade. Os parques repletos, como em um domingo familiar normal.

Horizonte inalcançável

A resistência social existe. É defensiva. A rede de lutas dá conta disso. Mobilizações pelos Conselhos de Salários (negociação entre governo, sindicatos e empresários); protestos contra o “modelo extrativista” e em defesa da água; trabalhadores rurais que exigem o cumprimento da “lei de 8 horas” e o fim da repressão patronal; familiares de adolescentes presos que testemunham torturas aplicadas pelos funcionários (sindicalizados) do INISA (Instituto Nacional de Inclusão Social Adolescente); catadores de lixo que reivindicam mais dignidade ao seu ofício; escrachos aos impunes do regime militar; mulheres em alerta que denunciam violência de gênero; reclames por maiores orçamentos para saúde, educação e moradia. Painéis e grafites pelas ruas aludem ao ‘ajuste fiscal’, às ‘diminuições salariais’, à privatização e terceirização dos serviços públicos, corrupção comprovada na Administração de Serviços de Saúde do Estado (ASSE). Parece até que governa o “neoliberalismo selvagem”.

Algumas dessas lutas têm sido massivas e radicais como a dos mestres e professores no inverno de 2015. Tabaré Vázquez lhes decretou “essencialidade de serviços”, o que proíbe a greve. O Diretor Nacional do Trabalho era Juan Castillo, ex dirigente da PIT-CNT, hoje secretário-geral do Partido Comunista do Uruguai (PCU). Os trabalhadores foram reprimidos pela Brigada Antimotim da Guarda Republicana. Perderam nessa ocasião e suas organizações ficaram debilitadas. Cumprindo-se o propósito (feito público diante dos meios de comunicação) de José Mujica: aos sindicatos de professores “é preciso fazê-los merda”. Ainda que no primeiro de março de 2010, já empossado como chefe de Estado, ele anunciava ao parlamento seus três principais objetivos: “educação, educação e educação”. Uma radiante Hillary Clinton o aplaudia de pé.

Os sindicatos de professores continuam lutando. Igual a milhares de trabalhadores e trabalhadoras. Contudo, as aspirações de “salário digno” e “justiça social” não comportam aquilo que muitos comentaristas chamam de “hegemonia progressista”, a qual, em verdade funciona como um fechar de olhos ideológico e programático. Onde as perspectivas de emancipação social e de “ir mais além” ficam encerradas nas duas premissas fundamentais que definem a “mudança possível”: aceitação do capitalismo e colaboração entre as classes. As demandas têm um limite. Um horizonte inalcançável.

Dito nas palavras do chefe dos tupamaros oficiais: por um lado, a economia capitalista “é uma ferramenta da prosperidade econômica (8). Impossível de vencer com decretos ou decisões meramente políticas. É uma mudança de época. Utilizamos os recursos do capitalismo com o máximo de inteligência para tratar de ter sociedades muito mais qualificadas (9)”. Por outro, “as discussões sindicais não podem ser apenas sobre salários (...) O trabalhador tem de ir começando a envolver as dificuldades e as conquistas que têm as empresas para exigir que caminhem e se reinventem. Não podemos permanecer tão distantes das vicissitudes que significam as peripécias de uma empresa, quando tanta coisa está em jogo (10)”.

A professora Alma Bolon já havia apontado isto lucidamente. Mujica não é somente o “herói da mais exitosa operação midiático-ética que se tenha registro nessas terras”; mas o “presidente com que a direita uruguaia nunca se atreveu a sonhar (11)”. Tempos depois destas lapidares afirmações, um índice do Instituto Fraser com apoio do Centro de Estudos para o Desenvolvimento, um think tank de corte liberal, certificava que a aceitação do antigo guerrilheiro às “regras do mercado” é absolutamente sincera: durante sua presidência (2010-2015), o país conseguiu o “maior grau de liberdade econômica (12)”.

As consequências desta espantosa metamorfose da “esquerda histórica” são marcantes. Enterram princípios. Borram antagonismos entre pobres e ricos. Domesticam consciências. Não há classes irreconciliáveis. A ‘cultura operária’ cede lugar ao ‘status de classe média’. A luta de classes se torna um jogo de intercâmbios negociados ou de “contrapartidas combinadas”. A “convivência cidadã e o “interesse nacional” como estandartes. As percepções socioculturais se confundem. Até as mais elementares.

Os “milicos repressores” passaram a ser a “polícia amiga”. Os homens do Ministério do Interior (dirigido por Eduardo Bonomi, outro oficial tupamaro) dizem sentir-se “reféns” nos “bairros críticos” da periferia urbana (13). Vizinhos, comerciantes e sindicatos do transporte, os convocam e apoiam. São a arma institucional para perseguir aos maus pobres e, sobretudo, castigar os principais “inimigos da segurança”: os “menores infratores”.

A parte da guerra é um horror. Durante a presidência de Mujica foi aprofundado o “Estado punitivo”. Aumentaram os tempos de “privação da liberdade” para adolescentes (14). A maioria de mortos e feridos neste “combate ao crime” tem menos de 35 anos. A taxa proporcional de população encarcerada mais alta da América Latina (15), 62% dos 12 mil presos e presas têm menos de 29 anos. A quantidade de “população feminina reclusa” aumentou 583% em uma década.

A pobreza já não tem raízes socioeconômicas, mas é tratada como um problema “pessoal e privado” (16) quando não em consequência de um processo de “lumpenização” e “favelização”. Uma porcentagem alta de pessoas (muitos eleitores da Frente Ampla) critica o planejamento social, pensam que o que se faz para diminuir a pobreza “é mais que o necessário (17)”. Sem se preocupar em saber que as “transferências monetárias diretas” aos lares mais pobres representam apenas 0,2% do PIB uruguaio; nem que 350 mil pessoas (11% da população do país) ainda sobrevive em um “núcleo duro” de “pobreza estrutural”. E do alto do Escritório de Planejamento e Orçamento, falam que o “país igualitário” já mostra sinais de fratura (17).

O PIT-CNT coopera com “projetos produtivos”. Respalda o investimento privado, local e estrangeiro. Os sindicatos da Construção e Metalúrgicos (dirigidos pelo Partido Comunista), admitem a instalação da terceira “megafábrica” transnacional de pasta de celulose: “gera empregos e massa salarial”. Não importam a contaminação ambiental, as isenções fiscais, nem que as “obras de infraestrutura” sejam pagas pelo Estado (18). Em todo caso, é melhor.

Há a lei de “Participação Público-Privada” que, enfim, começa a derramar “crescimento econômico”. Porque até agora, havia sido concretizado um só empreendimento: a construção de uma prisão modelo com 1800 lugares, onde os presos comerão peixe até duas vezes por semana!

Os governos da Frente Ampla aceleraram a contrarrevolução agrária. Os proprietários do agronegócio a definem como uma “revolução surpreendente (19)”. Editores liberais são mais pujantes em seu juízo. O governo de Mujica “será lembrado por não haver concretizado os desastres que os tupamaros propunham há quatro décadas (...) Não há reforma agrária (salvo a que foi desenvolvida com inquestionável êxito por empresários brasileiros no campo uruguaio), a banca privada é toda estrangeira, as relações com o FMI são excelentes, as multinacionais e o capital estrangeiro não só são benvindos, mas convocados com desespero pela liderança tupamara (...) e a ‘estrangeirização da terra’ se expandiu como poucas vezes na história do Uruguai durante os governos da Frente Ampla (20)”. Memória: Mujica exerceu o cargo de Ministro de Agricultura, Pecuária e Pesca (2010-2014) durante o primeiro mandato de Vázquez.

Em um contexto desfavorável, os sindicatos de trabalhadores rurais denunciam a superexploração, os salários de fome, a perseguição sindical, as agressões físicas e as deploráveis condições de trabalho. E lutam. Ainda que a taxa de sindicalização ronde apenas o 6%. Reclamam fomento da produção livre de transgênicos destinada ao mercado interno; créditos a cooperativas. Contudo, a “reforma agrária” e as “expropriações” estão ausentes da extensa lista de “reivindicações imediatas (21)”.

Notas

1) “Uruguay es un país con poca violencia de género”. La Diaria, edición Fin de Semana, 3-3-2018.

2) “Brecha salarial: las mujeres trabajan 87 días gratis al año”. Informe Equal Pay Day divulgado por el estudio de abogados Ferrere, El País, 8-3-2018.

3) “Esta es mi revolución. El feminismo militante en Uruguay”, Daiana García, Brecha, 9-3-2018, y Correspondencia de Prensa, 9-3-2018.

4) Plenario Intersindical de Trabajadores-Convención Nacional de Trabajadores, central sindical única.

5) La Marcha recuerda el 20 de mayo de 1976, durante la dictadura (1973-1985), cuando fueron asesinados en Buenos Aires los legisladores Zelmar Michelini (Frente Amplio) y Héctor Gutiérrez Ruiz (Partido Nacional), y Rosario Barredo y William Whitelaw (militantes escindidos del movimiento tupamaro). Todos ellos se encontraban exiliados. El crimen fue cometido por militares uruguayos y argentinos en el marco de coordinación represiva de las dictaduras del Cono Sur (Argentina, Brasil, Chile, Paraguay, Uruguay), conocida más tarde como “Operación Cóndor”.  

6) “Las cloacas de la impunidad”. Ernesto Herrera, Rebelión, 22-1-2015 (http://www.rebelion.org/noticia.php?id=194573) y A l´encontre, 6-2-2015 (http://alencontre.org/?s=ernesto+herrera+impunit%C3%A9)

7) “Hasta acá llegamos”, La renuncia de Familiares al Grupo por Verdad y Justicia”, Samuel Blixen, Brecha, 2-3-2018 y Correspondencia de Prensa, 3-3-2018.

8) Almuerzo de Mujica (12-12-2012) con 200 empresarios hoteleros, inmobiliarios y gastronómicos, Actividad organizada por “Destino Uruguay” en el restaurante Boca Chica de Punta del Este. Búsqueda, 27-12-2012.

9) Entrevista a Mujica, diario El Mercurio, Santiago de Chile, 5-1-2014.

10) Entrevista a Mujica,  suplemento El Empresario, El País, 5-4-2013.

11) “El 14 de abril”, Ana Bolon, Brecha, 13-4-2012

12) “Uruguay tuvo con Mujica su mayor grado de libertad económica”, Búsqueda, 5-10-2017.

13) “Los policías denuncian sentirse “rehenes” en los barrios críticos”. El País, Montevideo, 9-3-2018.

14) “Seguridad, pobreza y criminalización. La profundización del estado punitivo en Uruguay”, Ana Juanche y Giani Di Palma, Revista Contrapunto, Montevideo, mayo de 2014.

15) “La benevolencia de la izquierda con los criminales es un mito”, entrevista al sociólogo Luis Eduardo Morás en el Semanario Hebreo, Montevideo Portal, 3-3-2018 y Correspondencia de Prensa, 10-3-2018

16) “La pobreza como un problema personal y privado. El ropaje des-socializante de las nuevas políticas sociales”, Bentura, Alonso, Mariatti, Brecha, 2-9-2018.

17) “Es pobre por “su culpa”: la nueva grieta uruguaya”, Tomer Urwicz, El País, 24-9-2017.

18) Ya existen dos gigantescas fábricas pasteras: una de UPM (ex Botnia), transnacional finlandesa, ubicada en la ciudad de Fray Bentos, departamento de Río Negro; y otra de Montes del Plata, propiedad de Arauco y Stora Enso, de origen chileno y sueco-finlandés, ubicada en Conchillas, departamento de Colonia. La segunda de UPM, se instalará cerca de la ciudad de Paso de los Toros, ubicada entre los departamentos de Durazno y Tacuarembó.

19) “Agro. La revolución sorprendente”, Rosanna Dellazoppa, Fin de Siglo, Montevideo, 2014.

20) “Dos años de Mujica”, Claudio Paolillo, Búsqueda, 1-3-2012.

21) “El conflicto del campo en la mirada de los trabajadores. La séptima mochila”,  Salvador Neves, Brecha, 9-3-2018, y Correspondencia de Prensa, 10-3-2018.

Ernesto Herrera é jornalista uruguaio, editor e correspondente internacional do noticiário francês L’Encontre – onde o texto foi publicado em espanhol.
Traduzido por Raphael Sanz, para o Correio da Cidadania.

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