Maldonado: para não esquecer

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De acordo com um relatório da ONG Global Witness (2015), cada dois dias um ambientalista é morto e quatro em cada dez pertencem a povos indígenas; 66 % de todos os crimes ocorrem na América Latina; o Brasil é o país que mais mata, com 50 óbitos.

Santiago Maldonado será mais um dentro desses números, morreu lutando por um povo esquecido, perseguido, silenciado. Sua morte desvela uma das partes dessa conjuntura quebrada, uma história que, outra vez, tentam invisibilizar. Além da lamentável notícia de sua morte e as possíveis causas da sua desaparição, acreditamos ser necessário entender o contexto que leva a Santiago a defender o povo Mapuche na sua luta pela terra.

Santiago Maldonado apresentava-se como um companheiro não Mapuche que era capaz de entender e se solidarizar com as causas tanto de reivindicação territorial, como também pelo protesto levado a cabo por Facundo Jones Huala, encarcerado ilegalmente por incorporar a voz de seu povo, tais causas indígenas mobilizavam o companheiro Santiago Maldonado e atravessam, historicamente, partidos políticos e governos.

Esse conflito, que se arrasta violentamente por várias gerações, é a expressão mais crua da relação que o Estado mantém diante dos indígenas, tanto no Chile como na Argentina. Tal relação identifica no indígena o inimigo, o terrorista, tanto que se criam e aprovam deliberadamente leis de caráter antiterrorista pra “combater” o povo indígena, evidenciando a incapacidade política de estabelecer um posicionamento justo. Mais uma vez a ideologia colonial e racial ordena os fatos, e hoje se vê representada na morte de Santiago, que viveu em primeira pessoa a violência do aparato estatal e governamental que cotidianamente sofrem as comunidades.  

A morte de nosso Santiago não é inócua, ela precisa nos ajudar a visibilizar casos como a pungente morte de Berta Cáceres, líder indígena assassinada em Honduras, seguida pelo assassinato (quatro meses depois) da sua companheira Lesbia Urquía ou Nilce de Souza Magalhães, assassinada por se opor a uma represa no Brasil, e tantos outros exemplos que podemos encontrar em nosso continente.

Abrir caminho e visibilizar a luta que o companheiro Santiago Maldonado decidiu agregar é visibilizar a luta de Guaranis, Tobas, Mapuches e de todo um povo que sofreu e segue sofrendo a usurpação de suas terras. Com sentido de urgência, necessitamos repensar e descolonizar a nossa historia, por Santiago, por Berta e por cada ferida que temos aberta.



Carlo Arturo Zarallo Valdés possui graduação em Pedagogia em Filosofia e Teologia pela Universidad Católica del Maule (2014). Tem experiência na área de Filosofia.

Retirado do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC.




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