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‘Marina é a terceira via dentro do sistema; não visualiza outro modelo de desenvolvimento’ Imprimir E-mail
Escrito por Valéria Nader e Gabriel Brito, da Redação   
Qui, 21 de Agosto de 2014
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Passados os dias de luto pela trágica morte do ex-governador de Pernambuco e presidenciável Eduardo Campos, o Brasil mergulha na campanha eleitoral. Com a novidade da entrada de Marina da Silva em cena, ex-ministra do Meio Ambiente que recebeu 20 milhões de votos em 2010, o que, definitivamente, balança a disputa pelo Planalto.

 

“Para um eleitorado difuso, os analistas a estão apresentando como a candidatura que melhor expressa as Jornadas de Junho, o clamor das ruas. Parece só parcialmente verdade, porque, se a Marina consegue atrair um eleitorado difuso, ela também é uma liderança política integrada ao sistema, com contradições, principalmente quanto ao modelo econômico e de desenvolvimento”, disse o cientista político Jose Correia Leite, em entrevista ao Correio da Cidadania.

 

Dessa forma, analisar o fenômeno político por ela representado, que abarca bases de apoio completamente diferentes, se torna uma das principais pautas do debate político-eleitoral que teremos nos próximos 60 dias. Ao mesmo tempo em que pode contrariar interesses hegemônicos, como do agronegócio, terá de dividir palanque com o PSB e seu variado arco de alianças, inclusive com o agronegócio.

 

“As contradições na trajetória pessoal da Marina agora vão ganhar mais relevância e ajudar a definir o caráter da campanha e de um eventual governo seu. Mas destaco que a Marina enxerga o problema da sustentabilidade descolado do modelo de desenvolvimento. A Marina não tem outro modelo de desenvolvimento. Engoliu sapos na separação do IBAMA de outras instituições, como a fundação Chico Mendes, mas não foi contra Belo Monte”, analisa Correia, também pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP.

 

A seguir, a íntegra da entrevista.

 

 

Correio da Cidadania: Marina é agora a grande ‘novidade’ da eleição. O que pensa do fato em si, de ser ela a escolhida para substituir Campos como candidata presidencial no PSB, após ter sido impossibilitada de se candidatar pelo seu partido, a Rede?

 

José Correia Leite: Precisamos analisar o impacto que a Marina provoca na conjuntura e analisar três elementos. O primeiro elemento, que marca a conjuntura política já há certo tempo, e resultado mais importante da perda de legitimidade da Dilma (pelo menos junto à grande imprensa, não junto às massas populares), é a dificuldade da economia brasileira.

 

O Brasil cresceu no boom das commodities durante o governo Lula, mas, nessa conjuntura internacional desfavorável, de baixo crescimento depois de 2008, o impacto sobre a economia brasileira já é muito forte. A economia brasileira depende muito da China e o preço das commodities não tem crescido como antes. Eis um elemento.

 

O segundo elemento da conjuntura, que acho forte do ponto de vista político, é a própria entrada em cena da Marina. Para termos um parâmetro, nesta semana saiu uma matéria dizendo que o banco de investimento BBH (Brown Brothers Harriman) avalia que a chance de vitória da Marina na eleição é mais de 50%. Obviamente, depois de 20 anos entre tucanos e petistas no governo, ela tem impacto forte.

 

O terceiro elemento na conjuntura, e pano de fundo do processo eleitoral, é o descontentamento com o sistema político, que vimos claramente expressado nas manifestações de junho do ano passado. A população enxerga uma polarização PT-PSDB e também uma grande perda de legitimidade geral, principalmente dos legislativos, com aquela ideia de que parlamentar é tudo ladrão...

 

Portanto, tais elementos de desgaste do sistema político são muito associados, de um lado, à função parlamentar; de outro, aos governos do PT e do PSDB. Aí, entendemos porque a Marina entrou com tanta força na disputa eleitoral. A pesquisa do Datafolha a coloca acima da Dilma num segundo turno, com 47% a 43% nas intenções de voto. A Marina atraiu um eleitorado difuso, que estava alienado do processo eleitoral. Eram os votos brancos, nulos e indecisos. Em relação a Eduardo Campos, ela passou de 8% a 21%.

 

Para esse eleitorado difuso, os analistas a estão apresentando como a candidatura que melhor expressa as Jornadas de Junho, o clamor das ruas. Parece só parcialmente verdade, porque, se a Marina consegue atrair um eleitorado difuso, ela também é uma liderança política integrada ao sistema, com contradições, principalmente quanto ao modelo econômico e de desenvolvimento.

 

Temos um elemento forte e novo na conjuntura, mas bastante contraditório.

 

Correio da Cidadania: E todo esse potencial da Marina será turbinado, de maneira relevante, pelo elemento emocional causado pela morte do Campos?

 

José Correia Leite: A Marina teve 20% dos votos na última eleição. A comoção da morte do Eduardo Campos tem dois elementos. De um lado, permitiu que a Marina fosse candidata; de outro, deu a ela um partido político em condição regular pra ter candidatura. Mas penso que isso não explica o índice eleitoral da Marina.

 

O que explica seu índice eleitoral é que ela já tinha na população a imagem de uma liderança política forte, carismática. Com contradições, com conflitos com o sistema político. Mas diria que, se ela fosse candidata desde o início, poderia estar com uma votação como a de agora – claro que, neste caso, supondo o apoio do PSB. Se ela não tivesse tal apoio, a comoção poderia fazer ela ir de 12% a 15%, depois a 20%, mas não é simplesmente o elemento emocional que gera o índice eleitoral da Marina.

 

Correio da Cidadania: Existe, de alguma forma, um projeto político e de governo Marina Silva, levando-se em conta não somente a sua área de maior atuação, a ambiental, mas também as vertentes econômica, social e política? Qual é e o que significa este projeto?

 

José Correia Leite: A Marina é uma candidata do sistema, tal como estabelecido hoje. Ela é uma pessoa que foi senadora por dois mandatos, ou seja, 16 anos. Desses 16 anos, por cinco e meio ela foi ministra do Meio Ambiente do governo Lula. E sempre disse, inclusive no processo de formação da REDE enfatizou: “a minha política econômica é a junção das políticas econômicas do Fernando Henrique e do Lula”.

 

O projeto dela está dentro dos marcos de não questionamento ao neoliberalismo. Também é um projeto com uma forte ênfase ambiental, o que a diferencia. Ela dá ênfase a questões de sustentabilidade, mas de outro lado o faz com o respaldo de parcela do empresariado, até progressista em relação à parcela hegemônica do empresariado, mas que claramente representa o grande capital. Não é a Natura, são setores do grande capital que buscam modernizar o capitalismo brasileiro, como se vê no CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), onde estão a Vale, a Fibria, que é papeleira... Todo mundo que tem de exportar pra fora está preocupado com a possibilidade de boicote, por conta de cláusulas ambientais ligadas a um bloqueio de exportações brasileiras.

 

Essa não é a base de sustentação eleitoral, é a base de sustentação política da campanha da Marina, já desde 2010. Agora, a situação se tornou muito mais complicada, porque a base de sustentação do Eduardo Campos envolve setores importantes do agronegócio.

 

Seu palanque, por mais que não queira, vai ser junto com o Alckmin em São Paulo, com Beto Richa no Paraná... Uma candidata do sistema. E penso que sua candidatura é mais viável que a de Eduardo Campos, com mais chance eleitoral, como as pesquisas já estão mostrando. Pode ser que varie em função dos ataques na campanha. Mas ela é mais viável como alternativa à Dilma, do ponto de vista eleitoral, do que o Aécio.

 

A questão ambiental entra como um elemento, não desprezível, mas não me parece o elemento central.

 

Correio da Cidadania: Em algum aspecto, qualquer que seja, há alguma possibilidade de colocar o conjunto de ideias representadas por Marina como um terceira via, ou uma alternativa às forças políticas dominantes no quadro atual?


José Correia Leite: É uma terceira via dentro do sistema. Mas ela também é hegemônica, se considerarmos que o Eduardo Campos era governador de Pernambuco, que ela vai ter o apoio de uma parcela importante do agronegócio, do capital financeiro, da grande indústria...

 

Correio da Cidadania: Como não é segredo, e como já dito aqui, Marina carrega ambiguidades: dialoga com setores progressistas e avança em alguns temas ambientais, ao mesmo tempo em que compõe com a velha política e resvala no messianismo e fundamentalismo religioso. Isso não pode confundir e prejudicar sua campanha?

 

José Correia Leite: A base de sustentação política dela é o grande capital, com os esquemas mais clássicos da política brasileira, mas agora com uma fusão bastante perigosa: a fusão de uma parcela da bancada ruralista com a bancada evangélica – o pastor Everaldo é um candidato dos setores mais radicais.

 

Há uma distinção entre sua base de sustentação política e sua base de sustentação eleitoral. Não sei quantificar, acho que ninguém sabe, mas é como uma junção de grande parte do eleitorado evangélico, que é conservador, e uma grande parte do eleitorado ambientalista urbano, mais progressista. Portanto, é uma candidatura com potencial muito amplo de atração de votos.

 

E tal base eleitoral progressista não está muito consciente do caráter conservador evangélico. Há dissonância e cisão na percepção das duas coisas, muito bem operadas pela Marina na campanha de 2010, que já estava com um eleitorado conservador e um eleitorado progressista. Já o empresário, vota com o dinheiro. Não é numericamente relevante. É relevante politicamente, porque financia a candidatura.

 

Correio da Cidadania: Portanto, essa rede eleitoral contraditória não afastaria um apoio efusivo do grande capital.

 

José Correia Leite: De forma nenhuma, especialmente do setor do capital que tem reais preocupações ambientais. Agora, há um conflito, pois, na medida em que ela se coloca candidata pelo PSB, tem o apoio de setores importantes do agronegócio, o que dificulta a construção de uma imagem sustentável perante alguns setores. Claro, nem Aécio nem Dilma vão atacá-la por causa disso, mas é uma contradição.

 

Na verdade, a candidatura dela tem várias contradições, para ecoar o movimento difuso que foi junho de 2013. De um lado, ela é originária do movimento rural do Acre, não foi formada nas grandes cidades e no diálogo com as massas urbanas. Por esse ponto de vista, ela é muito diferente do Lula, que se sente em casa em tais ambientes. A Marina não. De outro lado, tem a contradição de ser evangélica, de postura religiosa conservadora em relação a uma série de questões de liberdades, modos de vida, direitos. E um dos componentes relevantes dos protestos de junho foi o “Fora Feliciano”. Além disso, ela não é uma pessoa das ruas. Passou 16 anos no senado, dentre os quais cinco como ministra.

 

Ela tem carisma, mas, de outro lado, muita dificuldade de deslocar sua base de apoio para um projeto partidário. A dificuldade de legalização da Rede não se deu apenas por um problema de prazo. Havia dificuldade da Marina, com perfil de liderança de caráter messiânico, em lidar com uma estrutura partidária mais tradicional.

 

Diria que essas contradições na trajetória pessoal da Marina agora vão ganhar mais relevância e ajudar a definir o caráter da campanha e de um eventual governo seu. Mas destaco que a Marina enxerga o problema da sustentabilidade descolado do modelo de desenvolvimento. A Marina não tem outro modelo de desenvolvimento. Engoliu sapos na separação do IBAMA de outras instituições, como a fundação Chico Mendes, mas não foi contra Belo Monte. Ela foi contra alguns aspectos das compensações ambientais e sociais. Essa era a crítica dela a Belo Monte.

 

Na cabeça dela, não há projeto alternativo de nação e outro modelo de desenvolvimento. E vemos alguns países incorporarem temas ecológicos e sustentáveis, desenvolvendo projetos nacionais com outros rumos. Mesmo dentro dos marcos neoliberais. A Alemanha está abandonando a geração de energia de combustíveis fósseis, nucleares, para apostar na energia renovável, eólica e solar. A China, apesar de seu enorme investimento em termelétricas a carvão, é o lugar onde mais cresce a geração de energia solar e eólica. Temos a possibilidade, mesmo dentro do sistema, de apressar a ruptura com o modelo de desenvolvimento que podemos chamar de ‘fossilista’. E não vemos isso em nenhuma das reflexões da Marina.

 

O Brasil hoje tem sua economia, principalmente na conexão com o mercado mundial, calcada na produção e venda de soja, cana, gado, eucalipto, minério de ferro, petróleo. O único setor econômico-industrial que ainda tem pujança no país é a indústria automobilística, também insustentável. Ora, outro modelo de desenvolvimento precisaria confrontar o agronegócio, a indústria extrativa (Vale, Petrobrás) e a indústria automobilística, cada vez mais os três pilares da economia. Isso para pensar em outro modelo de cidade, em uma agricultura sustentável, em outro tipo de geração de energia...

 

Como parêntese, destaco o Fórum Social temático de energia (entre 7 e 10 de agosto, em Brasília), que integrou todos os movimentos de luta em relação à energia, sustentabilidade, com movimentos do Xingu, do Rio Madeira, a fim de discutir a forma de implantação das eólicas, nucleares etc. Disso, surgiu uma campanha chamada “Energia para a vida”. O foco é justamente dialogar com o que hoje é a ponta do capitalismo. O que a Alemanha faz? Geração de energia, com fontes renováveis, porém, mais do que isso. Está fazendo de forma cooperativa, descentralizada, compartilhada... Significa, por exemplo, uma proposta para milhões de casas do programa Minha Casa Minha Vida gerarem energia, o que inclusive geraria renda para ser vendida como excedente.

 

Portanto, tal modelo que por lá vemos se desenvolver causa choques frontais aqui, não só com a Petrobras ou a indústria extrativa, que é a grande fonte de energia barata para exportar eletro-intensivos, como se faz na Amazônia, por exemplo. A energia gerada na Amazônia não vem para os consumidores do Sudeste. Ela é direcionada para alavancar a exportação de eletro-intensivos, especialmente as commodities para a China. Sendo assim, temos possibilidade de outro modelo de geração de energia, mas isso passaria pelo confronto com todo o setor elétrico estabelecido hoje, com a Petrobrás, as mineradoras etc.

 

A Marina vai tensionar um pouquinho, mas não vai estabelecer mudanças substanciais em relação ao agronegócio, aos exportadores, à indústria petrolífera, ou mesmo às montadoras de automóveis. E sem mexer na matriz de transportes não dá pra melhorar a condição de vida nas grandes cidades. A cabeça da Marina não visualiza um modelo de desenvolvimento para além do atual. Principalmente porque implicaria em confrontos que talvez ela analise como impossíveis de ganhar. Portanto, ela representa uma reforma dentro do modelo.

 

Correio da Cidadania: Pra finalizar, diante de tudo isso que você descreveu, e com um  cenário eleitoral que se reconfigura, como acredita que partidos políticos e forças populares mais progressistas poderão e deverão atuar?

 

José Correia Leite: É o mesmo problema que está colocado para a Marina. Pra ir além de simplesmente galvanizar o descontentamento com uma iniciativa eleitoral momentânea, é necessário ter um projeto de país. Não me parece que haja qualquer ruptura mais clara com o desenvolvimentismo da parte, por exemplo, do PSTU e do PCB.

 

A candidatura da Luciana Genro tem mais abertura, mas também se move com dificuldade na questão do desenvolvimentismo. De um lado, tem muito diálogo com a luta por direitos, por liberdades, elemento que permite a ela dialogar bem com as questões da agenda de junho do ano passado.

 

Mas, pra galvanizar um projeto de nação com horizonte de futuro no Brasil, é necessária uma proposta de reestruturação da economia e da sociedade, de mudança na matriz de energia, mudança na matriz de transportes, reorientação das prioridades de diferentes setores econômicos, reposicionamento da agricultura, troca da ênfase no agronegócio pela agricultura orgânica e familiar...

 

Tudo precisaria de muita iniciativa do governo. A eleição é a possibilidade de se construir isso. É preciso ter projetos de energia, de reforma urbana, de outra matriz econômica.

 

A esquerda ainda é muito prisioneira de um velho desenvolvimentismo. Mesmo o PSOL, onde há muitos elementos positivos, tem bastante dificuldade de transitar para um imaginário que rompa com o atual desenvolvimentismo, rumo a uma sociedade sustentável, autogerida e estruturada com outro modo de vida.

 

 

Gabriel Brito é jornalista; Valéria Nader, jornalista e economista, é editora do Correio da Cidadania.


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Última atualização em Terça, 02 de Setembro de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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