Tirania de ponta a ponta. A falsa mão amiga

 

 

Alguns dados revelam que atualmente temos um dos modelos de polícia mais violentos do mundo. Em São Paulo, tentamos coexistir com uma polícia responsável por 20% dos homicídios. Em comparação ao ano passado, tivemos um aumento de 206% do número de pessoas mortas por policiais em serviço e um aumento de 80% nas denúncias de homicídios cometidos por policiais.

 

Contudo, o índice da criminalidade não diminuiu, pelo contrário, algumas modalidades continuam em crescimento (roubo de veículos, por exemplo). Números que revelam uma polícia que é mais violenta do que, de fato, eficaz.

 

A violência não ocorre tão somente na prática de homicídios, mas em ameaças, agressões e torturas. Ainda em São Paulo, mais da metade (57%) dos presos em flagrante dizem ter sofrido algum ato de hostilidade ou ataque à integridade física no momento da prisão.

 

A atuação da polícia nas ruas é, na verdade, a expressão de um modelo de tirania que tem início dentro dos quartéis e academias militares; 59% dos oficiais alegam já terem sido humilhados por superiores hierárquicos e 38% dizem ter sido vítimas de tortura em treinamento ou fora dele.

 

Esse quadro remete ao “Discurso da Servidão Voluntária”, escrito pelo francês La Boétie no século XVI, no qual vislumbra que a tirania nasce justamente do desejo dos homens de servir. Nesse processo eles não percebem que estão alienando suas vidas e opiniões a um outro, mas acreditam que, ao fazê-lo, estão conferindo poder a si próprios.

 

Esse método, que mais se parece com uma doença, se propaga por contaminação e ataca a corporação militar inteira. Cada militar, no lugar onde se encontra, exerce a seu modo uma parcela de tirania e, num processo fantástico, a vontade de servir engendra uma polícia tirânica de ponta a ponta. Cada um, da mais alta à mais baixa patente, deseja ser obedecido pelos demais e, portanto, ser tirano também. “A vontade de servir é a vontade de dominar”, afirmou Boétie.

 

O modelo de educação repassado aos militares é opressor e autoritário, ou seja, a rigor, não é educação. O radical que compõe a palavra “educação” é docere, de educere, que é doce. De longe é o tratamento que os militares recebem na corporação e muito menos é o que repassam aos civis.

 

Braço Forte e Mão Amiga, esse é o lema do Exército, que, ao lado do governador de cada estado, chefia as polícias militares. Ainda na esteira do raciocínio de La Boétie, nunca teremos uma polícia “mão amiga”, basicamente porque a amizade só é possível entre iguais, a amizade é destruída quando a semelhança entre pares é substituída pela hierarquia que separa superiores de inferiores.

 

Elevar um homem acima dos demais – cabo, sargento, tenente, capitão – é a base para qualquer modelo tirânico. Não servir é resgatar aquilo que é contrário à servidão: a igualdade dos amigos, a verdadeira mão amiga.

 

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