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A guerra civil dos “libertadores da Líbia” pelo controle do petróleo Imprimir E-mail
Escrito por Achille Lollo, de Roma para o Correio da Cidadania   
Terça, 12 de Agosto de 2014
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No início do ano, quando as “excelências” do Departamento de Estado traçaram as linhas mestras da política geoestratégica dos EUA, os diretores da grande mídia estadunidense receberam o conselho “de serem muito cautelosos com o contexto político da Líbia, do momento que o país, após três anos de transição política, ainda vivia um concitado período de indefinição institucional”. Paradoxalmente, também nos países europeus membros da OTAN, os diretores de jornais, revistas e TV receberam a recomendação de “tratar com cuidado o material informativo relacionado à Líbia”. Enfim, um cuidado que, na realidade, equivale à autocensura de seus congêneres estadunidenses.

 

De fato, já em outubro de 2013, era evidente que na Líbia a “guerrinha entre as milícias”, conhecida por “todos contra todos”, havia determinado o reforço das milícias de Misrata e de Zeitan, prontas a se digladiar, e não para defender um insignificante Parlamento ou um fantasmagórico governo. Mas, sim, para assegurar-se o controle dos campos de exploração petrolífera, dos dutos, dos portos com terminais para a exportação do gás e do petróleo e, logicamente, dos aeroportos, de onde era possível viabilizar qualquer tipo de “comércio”.

 

No fim de 2013, já eram evidentes as condições políticas objetivas associadas aos elementos de criminalidade organizada que estavam determinando a implosão do novo Estado, cuja adjetivação de “Democrático” existiu somente nos anacrônicos relatórios de Hillary Clinton. Um contexto que era o prefácio de uma sangrenta guerra civil que explodiu na Tripolitânia e, sobretudo, na Cirenaica, onde se encontram os grandes reservatórios de hidrocarbonetos, as únicas riquezas da Líbia.

 

Um contexto que foi literalmente censurado por todos os correspondentes, inclusive os mais experientes, da CNN, da BBC, da Al-Jazeera e RAI que, diante das câmeras, referiam que na capital Trípoli e em Benghazi “se registravam, apenas, leves tiroteios entre milicianos que não prejudicavam a autoridade do governo e a estabilidade política no país”!

 

Mentiras de profissionais que deveriam dizer a verdade, do momento que em Trípoli já se vivia uma situação caótica, enquanto no interior do país a dita “guerrinha entre milícias” ocasionou massacres impressionantes nas pequenas cidades e nas aldeias, onde seus moradores foram fuzilados casa por casa, sem nenhuma piedade para as crianças e as mulheres.

 

Segundo um grupo de jornalistas e professores universitários que conseguiu fugir, chegando a Roma no mês de julho, a advogada e defensora dos direito humanos Salwa Bugaighis foi assassinada em Benghazi, em 25 de junho, porque estava finalizando um dossiê sobre os massacres realizados nos últimos três anos pelas milícias. Para evitar a divulgação desse dossiê, os assassinos de Salwa sequestraram seu marido, pedindo em troca de sua vida todos os discos rígidos com os arquivos do dossiê, das gravações e das fotografias. Enfim, um trabalho feito por profissionais, no momento em que nesse “livro branco” estavam catalogadas, fotografadas e em muitos casos até filmadas as prisões, as torturas e os consequentes fuzilamentos e enforcamentos (sem processo) dos ex-funcionários do governo de Kadafi, bem como a matança dos imigrantes africanos, acusados, injustamente, de serem soldados de Kadafi.

 

Na realidade, a única culpa desses 200.000 imigrantes presos e assassinados durante os primeiros dois anos da dita revolução foi a de serem negros e a maioria católicos. Aliás, a prática indiscriminada da limpeza étnica por parte das milícias islâmicas, jihadistas e salafitas orientou as tribos berberes a assumirem uma posição defensiva unilateral, transformando a milícia Zeitan em um poderoso exército tribal que logo ocupou o aeroporto de Trípoli e outros centros nevrálgicos da Tripolitânia.

 

A destruição do país

 

A partir de 26 de julho, a “cautela” dos diretores de jornais e o “cuidado” dos diplomatas ficaram despedaçados após o comunicado do Departamento de Estado dos EUA que anunciava o fechamento da embaixada em Trípoli e a transferência de todos os funcionários até a fronteira com a Tunísia, sob forte escolta armada (inclusive F-16 e helicópteros). Por sua parte, a embaixadora Deborah Jones ordenou a todos os cidadãos estadunidenses empregados na Líbia a abandonarem o país imediatamente. De repente, o mundo descobriu que todas as nações que haviam contribuído a libertar a Líbia do “verdugo” Kadafi haviam já fechado suas embaixadas, seus consulados, os escritórios das transnacionais e das companhias aéreas. As únicas embaixadas que ainda permanecem precariamente abertas são as do Vaticano e da Itália.

 

Assim, enquanto as limusines dos diplomatas e dos empresários dos países ricos chegaram em segurança em Túnis, os milhares de trabalhadores filipinos, gregos, chineses, tailandeses, romenos, portugueses, vietnamitas, espanhóis e italianos, isto é, o contingente de mão de obra especializada barata, contratada após a dita “libertação”, se amassava no porto de Trípoli para serem evacuados por via marítima até Malta. Enquanto isso, suas moradias, carros e empresas eram assaltados por gatunos ou pretensos milicianos.

 

Com a saída imediata da maior parte dos trabalhadores estrangeiros da capital e de muitas outras cidades da Tripolitânia e, sobretudo, da Cirenaica, as atividades de muitos serviços públicos ficaram praticamente paralisadas. De fato, após o assassinato de um trabalhador filipino e o “mortal interrogatório” de mais dois trabalhadores filipinos por parte de milicianos, o governo de Manila suspendeu o contrato de cooperação que havia assinado com o então primeiro-ministro da Líbia, Ali Zeidan, ordenando aos 13.000 trabalhadores filipinos empregados nos serviços públicos e nas empresas privadas a saírem rapidamente da Líbia, pegando os navios que haviam começado a transportar os estrangeiros até Malta.

 

A guerra civil, oficialmente, estourou no mês de julho, quando a milícia de Misrata entrou em Trípoli para desalojar os combatentes da milícia de Zeitan, entrincheirados no aeroporto internacional. Assim, tudo o que não havia sido danificado na capital nos últimos três anos foi destruído ou sabotado em poucos dias. De fato, os milicianos de Misrata tiveram a “brilhante ideia” de alvejar todos os tanques de gasolina e de diesel, provocando um incêndio gigantesco, onde seis milhões de litros de combustíveis queimaram durante uma semana, visto que em Trípoli e em toda a Líbia não havia mais serviços de bombeiros! Apesar de o gigantesco incêndio ter atingido os bairros da periferia de Trípoli, provocando a fuga de quase 80.000 moradores, nenhum país europeu respondeu aos apelos do governo líbio, que havia pedido o envio urgente de equipes de bombeiros para apagar o gigantesco incêndio. Consequentemente, em Trípoli, já não há mais gasolina e diesel nas bombas da cidade!

 

Mas foi em 30 de julho que a Líbia ficou definitivamente isolada do resto do mundo, quando a British Airways decidiu suspender seus voos ao país, visto que os aeroportos internacionais de Trípoli e de Benghazi estavam fechados. De fato, nos últimos dois meses os combates para o controle desses aeroportos acabaram com as pistas de aterrissagem, que foram destruídas juntamente a toda a infraestrutura aeroportuária. Também a frota das sete companhias aéreas líbias ficou dizimada: 20 aviões de médio e pequeno alcance foram sequestrados pelas milícias de Misrata. Outros dez, inclusive dois novos Air Bus, foram alvejados com obuses e foguetes, queimando no limiar das pistas. Os demais jatos permanecem abandonados, sujeitos a qualquer ato.

 

As únicas estações aeroportuárias que ainda não foram destruídas são os aeroportos de Misrata e o de Labraq. O primeiro, apesar de possuir duas pistas de aterrissagem para Boeing e Air Bus, foi interditado em maio, quando os milicianos ocuparam a torre de controle. Por isso, também a Air Jordânia – a única companhia que operava no aeroporto de Misrata – fechou seus escritórios em junho. Em Labraq, perto de Beida, no nordeste da Cirenaica, há um pequeno aeroporto que em condições normais era utilizado pelos jatinhos das companhias petrolíferas.

 

Mais anacrônica é a situação do Parlamento e do governo, cujos gabinetes e ministérios, nos últimos seis meses, foram atacados por diferentes grupos armados. Por isso, a partir de 14 de julho o Parlamento e o governo se abrigaram em um hotel de Tobruk, a poucos quilômetros da fronteira com o Egito. De fato, após ter fugido da capital Trípoli, o Parlamento tentou se instalar em Benghazi. Uma opção que acirrou ainda mais a rejeição por parte dos partidários da Irmandade Muçulmana e dos movimentos separatistas da Cirenaica.

 

Essa situação demonstra que o Parlamento e o governo são ainda considerados elementos de ficção, porque em três anos de atividade não conseguiram evitar que a lógica interesseira e mercantil dos clãs tribais condicionasse as atividades legislativas e executivas. Por exemplo, o Parlamento não quis formular uma solução federativa apta a evitar a explosão do separatismo regional na Cirenaica e em Fezzan. Enquanto isso, o governo foi incapaz de materializar a ideia de nação democrática, começando a programar um plano de reformas socioeconômicas, além de fixar as coordenadas para a reconstrução de um novo exército e de uma nova administração pública. Na prática, a política dos deputados no Parlamento e dos ministros se limitava a definir os contratos (e as propinas) com as transnacionais do petróleo e as empresas estrangeiras prestadoras de serviços.

 

É necessário dizer que o povo líbio, com a destruição da Jamahiriya (Estado das Massas, na tradução mais comum, o modelo institucional criado por Kadafi), acreditou nas promessas de reconstrução e de bem-estar para todos, feitas pelos líderes do Conselho Nacional de Transição, Mustafá Abushagur e Mahmoud Jibril. Por isso, hoje, Mahmoud Jibril é publicamente detestado. De fato, nas últimas eleições, realizadas em 15 de maio, dos 2,8 milhões de eleitores com direito a voto e cadastrados em 2011, somente 1,5 milhão foram votar. Desses, apenas 600.000 votaram na lista majoritária da “Aliança das Forças Nacionais”, de Mahmoud Jibril.

 

Esse buraco negro se tornou mais amplo com a eleição “minoritária” do empresário de Misrata, Ahmed Omar Miitig, ao cargo de primeiro-ministro, com apenas 113 votos (por lei deviam ser, no mínimo, 120). De fato, a eleição foi manipulada pelos deputados da Irmandade Muçulmana, que não conseguiram o quórum de 120 votos para barrar o segundo mandato do primeiro-ministro Abdullah al-Thani, ligado aos liberais e aos moderados não-islâmicos. Para evitar a derrota de Ahmed Omar Miitig, interviu um grupo de milicianos de Misrata, que “convenceram” oito deputados a anularem seus votos e declararem sua preferência para Miitig, que, assim, alcançava os necessários 121 votos.

 

Diante dessa farsa, o vice-presidente do Parlamento, Ezzedin al-Awami, que havia presidido as sessões de voto, rejeitou a eleição de Miitig. Porém, no dia seguinte os partidários do empresário apresentaram uma declaração do presidente do Parlamento, Nuri Abu Sahmein, que do exterior ratificava a nomeação de Ahmed Omar Miitig como novo primeiro-ministro.

 

Para entender os motivos que provocaram a reação do vice-presidente do Parlamento, Ezzedin al-Awami, é preciso lembrar que os oitos deputados mudaram seu voto logo após o sequestro de seus familiares por parte de grupos armados da milícia de Misrata. Por outro lado, o presidente do Parlamento, Nuri Abu Sahmein, não estava na Suíça por motivos de saúde, mas, sim, para evitar ser interrogado pelos juízes do Tribunal de Trípoli, acerca do seu envolvimento em uma incrível “patota fiscal”. Fontes fidedignas revelam que Nuri Abu Sahmein negociou seu apoio irrestrito a Ahmed Omar Miitig, se o mesmo, uma vez eleito primeiro-ministro, enterrasse as acusações do Tribunal de Trípoli.

 

É claro que essa trapaça contribuiu, ainda mais, para acirrar a desqualificação do Parlamento e o ódio da milícia de Zeitan contra os homens da milícia de Misrata, ligada à Irmandade Muçulmana. Por isso, a capital Trípoli e depois Benghazi viraram um autêntico campo de batalha, inclusive com o reaparecimento do ex-general Khalifa Haftar (o principal homem da CIA na Líbia), que, após ter falhado seu segundo golpe de Estado no mês de maio, tentava ocupar Benghazi, chamando a seu lado o que sobrava do novo exército líbio, com o objetivo de “livrar a Líbia dos terroristas islâmicos”.

Consequentemente, todas as milícias separatistas, jihadistas e salafitas da Cirenaica se juntaram e formaram o “Conselho da Shura, dos Revolucionários de Benghazi”, cujo comando ficou nas mãos dos líderes do grupo fundamentalista Ansar al-Sharia, historicamente ligado à Al-Qaeda.

 

As responsabilidades políticas, econômicas, sociais e, sobretudo, morais do caos e agora da guerra civil na Líbia recaem, exclusivamente, nas chancelarias dos países da OTAN, que planejaram a destruição da Jamahiriya líbia sem idealizar o tipo de Estado e de nação que deveriam substituir os de Kadafi. Na prática, foi arregimentada a variada estrutura tribal para realizar uma revolução, sem ter em conta o peso político dos clãs tribais, a quem foi prometido que a divisão dos lucros da venda dos hidrocarbonetos seria realizada segundo a lógica dos clãs tribais, oportunista e também autoritária, totalmente diferente do conceito de Estado e de nação livres e democráticos.

 

Em suma, os “libertadores da OTAN” entregaram ao CNT de Mustafá Abushagur e Mahmoud Jibril um projeto político, onde a formulação do novo Estado era condicionada pela implementação imediata de duas vertentes políticas: 1) a vingativa desestruturação da Jamahiriya; 2) a imediata liberalização do monopólio do gás e do petróleo em favor das transnacionais dos países da OTAN.

 

Somente no último capítulo desse projeto – na época supervisionado pela ex-Secretária de Estado, Hillary Clinton, e monitorado in loco pelo falecido embaixador dos EUA, Chris Stevens –, havia uma longa sequência de normas burocráticas para a legalização dos partidos, o funcionamento do Parlamento, as prioridades da nova Constituição, a realização de novas eleições, a formação do governo, o funcionamento dos ministérios etc. etc.

 

Os atores da guerra civil

 

Os últimos correspondentes da Associated Press e da France Press que ficaram em Trípoli veiculam que os combates entre os milicianos de Zeitan e os de Misrata se alastraram do aeroporto para os diferentes bairros da capital. Segundo diversas fontes, os combates na capital provocam, em média, uns cem mortos por dia e um número indefinido de feridos que ninguém socorre, porque os hospitais estão colapsados sem medicamentos, com pouquíssimos médicos, e sem pessoal auxiliar. Uma situação que, segundo Abdul Rauf, chefe da Comissão Emergencial, “se agravou bastante depois da saída dos 3.000 enfermeiros filipinos. Sem eles e os demais trabalhadores estrangeiros, que fugiram por causa do conflito, todo o sistema de saúde ficou literalmente paralisado, visto que deslocávamos esse pessoal para onde havia mais necessidades”.

 

No dia 7 de agosto, a France Presse recebeu a confirmação do escritório do governador de Benghazi de que as milícias jihadistas e as do grupo fundamentalista Ansar al-Sharia haviam ocupado todos os quartéis do exército líbio em Benghazi, expulsando as brigadas do “Exército Líbio Nacional”, que é o exército pessoal do ex-general Khalifa Haftar. Após sangrentos combates, os homens do ex-general se retiraram de Benghazi e se entrincheiraram ao longo do eixo rodoviário al-Uruba Road in al-Kwayfiya.

 

Não há, também, informações detalhadas sobre os combates que estão ocorrendo no interior da Líbia, porém, se sabe que as tribos de Fezzan fizeram uma aliança com os grupos fundamentalistas e jihadistas do Mali, que agora se movimentam tranquilamente em todas as regiões desérticas do sul da Líbia.

 

O complexo cenário de guerra civil começa a ficar mais claro com a apresentação de quatro exércitos que lutam entre eles para definir o controle das duas capitais: Trípoli, capital dos não-islâmicos, e Benghazi, capital da Irmandade Muçulmana. Nesse âmbito, os agrupamentos militares podem ser apresentados da seguinte maneira:

 

1) Milícia de Zeitan: reúne todos os grupos armados das tribos berberes, bem como os novos grupos não-islâmicos que abandonaram a opção parlamentar do líder da Aliança das Forças Nacionais”, Mahmoud Jibril. Segundo algumas indiscrições, também os militantes kadafianos que sobreviveram aos massacres de 2011 e 2012 agora estariam pegando as armas e operando juntamente aos milicianos de Zeitan. A aérea de atuação é antes de tudo a capital Trípoli e as principais regiões da Tripolitânia, até as montanhas onde residem invictas as tribos berberes.

 

2) Exército Líbio Nacional: desde 1991, a CIA o manteve o ex-general Khalifa Haftar congelado em uma residência perto de Langley. Com a queda de Kadafi, o ex-general exigiu do Conselho Nacional de Transição o posto de chefia do novo exército. Porém, alguns meses depois, foi removido pelo próprio Mahmoud Jibril. Com a ajuda dos fundos secretos da CIA e da inteligência da Arábia Saudita, formou um pequeno exército chamado “Exército Líbio Nacional”, que apareceu no cenário primeiro em fevereiro, por ocasião de uma desastrada tentativa de golpe de Estado, e depois em maio, quando Khalifa Haftar lançou seus combatentes contra os grupos jihadistas e fundamentalistas da Ansar al-Sharia.

 

É preciso lembrar que, em 2012, Khalifa Haftar criou um partido que deveria ser o braço político do extremismo armado islâmico, mas foi um fracasso. Assim, após o golpe de

Estado no Egito do general Al-Sissi, e a consequente repressão aos integrantes da Irmandade Muçulmana, o ex-general Khalifa Haftar lançou os homens do seu Exército Líbio Nacional contra os grupos jihadistas e, principalmente, contra as novas brigadas islâmicas ligadas à Irmandade Muçulmana. Isso fez aumentar a simpatia dos agentes da inteligência da Arábia Saudita e do próprio general-presidente egípcio para com o ex-general Khalifa Haftar, que recebeu uma significativa ajuda financeira e uns cinquenta “especialistas em telecomunicações”.

 

3) Milícia de Misrata: É a mais organizada, inclusive porque, em 2012, Ali Zeidan, logo após ser empossado primeiro-ministro, entregou a essa milícia um cheque de um milhão de dólares para garantir a estabilidade em Trípoli e submeter todas as outras milícias. Na realidade, no seio dessa milícia prevaleceu a simpatia para o projeto político da Irmandade Muçulmana, aliada à solução separatista, do momento que no porto de Misrata se encontram os principais terminais para o embarque do gás e do petróleo. Se, depois de considerarmos que o Catar foi o único país árabe disposto a reconhecer a criação de um emirado em Misrata, e também a abrir os bancos de Doha para efetivar a intermediação da venda do petróleo e do gás, é evidente que a Milícia de Misrata se tornou o braço armado da Irmandade Muçulmana na Líbia. Sua atuação é, antes de tudo, centrada na proteção dos campos de exploração de gás e petróleo, dos dutos e dos tanques das refinarias da região, além de tentar empurrar as outras milícias, em particular a de Zeitan, para fora do perímetro urbano da capital Trípoli.

 

4) Conselho da Shura dos Revolucionários de Benghazi: A aparição do exército pessoal do ex-general Khalifa Haftar e a pretensa “campanha contra os terroristas islâmicos” favoreceram a unificação operacional de todos os grupos armados jihadistas, salafitas e fundamentalistas de Benghazi, sob a liderança dos comandantes de Ansar al-Sharia, historicamente ligados à Al-Qaeda. De fato, as brigadas desse novo exército conseguiram derrotar os homens do ex-general Khalifa Haftar e se apoderaram de todos os quartéis do exército regular, que não tomaram posição e entregaram as armas, as casernas e os blindados ao vencedor. A primeira consequência do sucesso desse Conselho da Shura foi a proclamação de um Emirado Islâmico.

 

É evidente que, agora, os Estados Unidos e todos os primeiros-ministros dos países da OTAN que subscreveram o ataque contra a Líbia de Kadafi sabem que uma intervenção teria altíssimos custos financeiros, além de muitas baixas. Um contexto difícil a ser explicado aos próprios eleitores, sobretudo depois dos dramáticos conflitos que estouraram na Síria, no Afeganistão, no Iraque e, por último, na Faixa de Gaza. Pois Barack Obama, David Cameron, François Hollande e Angela Merkel sabem que não conseguiriam convencer seus eleitores de que foi justo destruir um estado centralizado, como o da Jamahiriya Líbia, para substituí-lo por um projeto de falsa democracia liberal, que desde o início criou as perspectivas da guerra civil.

 

De fato, a grande problemática dos EUA é que, hoje, ninguém sabe quando e como poderá acabar a guerra civil na Líbia, cujo destino é ser uma segunda Somália, ou pior, um segundo Sudão.

 

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Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália, editor do programa TV “Quadrante Informativo” e colunista do "Correio da Cidadania".

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Última atualização em Terça, 19 de Agosto de 2014
 

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