Especulações em torno do verbo “to google”



O verbo to google nasceu em 1998. Tem quase 10 anos de vida. Significa procurar informações na web através de consultas ao Google.


Em espanhol é “googlear”. Em francês (com resistências), “googler”. Os alemães assumiram oficialmente o seu “googeln” em 2005. Num site italiano, lê-se: “il verbo googlare è diventato di uso comune”. Já existem em português o “googlar” e o “guglar”. Verbo transitivo, inquisitivo, perseguidor, vasculhador. Mas nunca ouvi nenhum brasileiro empregá-lo...

Fatalmente o verbo perderá (já está perdendo) sua referência ao Google. Tal como gilete, em priscas eras, deixou de ser apenas a gilete da Gillette; tal como podemos tirar xerox em qualquer fotocopiadora, mesmo que não seja da Xerox Corporation. Vence a lei da generalização. A força do produto enfraquece a marca original.

Qualquer mecanismo de busca, mesmo que não seja o Google, me permite googlar. Sérgio Dávila já tratava do assunto na Folha de S.Paulo numa matéria em janeiro de 2003. Naquela altura, começava a ser comum a cultura do googlamento. Você vai sair com uma pessoa que ainda não conhece muito bem? Google-o antes e descobrirá talvez que o ilustre-quase-desconhecido formou-se em faculdade de prestígio ou participou de uma festa baixaria.

Ou poderá também “orkutar” essa pessoa, conhecer o seu perfil, as comunidades que freqüenta, os amigos que adicionou. Ou, se tal pessoa tiver um blog, saberá, graças ao blogar da própria pessoa, o que ela andou fazendo no ano passado.

Todos estamos sujeitos à googlagem ou à googlação. Existir, na Idade Mídia, é ser googlável. Você pode estar sendo googlado neste minuto, por um amigo ou por um desafeto. Ou por alguém que buscava outro alguém com nome semelhante ao seu. E todos podemos googlar a nós próprios, fonte de surpresas agradáveis, ou nem sempre.

Procurando no Google pela expressão “gosto de googlar”, vejo que poucos gostam: são apenas 3 googles. “Vou googlar” alcança míseros 476 googles. Apesar disso, até Ivan Lessa, mas sempre com aquele ceticismo, aquela ironia, sabe que o caminho é um só: “basta googlar”.Jornalistas googlam o dia inteiro. Na Gazeta de Alagoas, em março de 2003, um bom artigo sobre googlar. É googlando que se aprende, ou se desaprende. O jornalista e pesquisador português Herlander Elias, em 2006, definiu  “googlar” como o “verbo da década”. Só googlando para encontrar a relevante informação.

 


Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

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