Conselho Universitário da Unicamp não revoga título do coronel Jarbas Passarinho

 

 

Na sessão de 5 de agosto de 2014, o Conselho Universitário da Unicamp deixou de revogar o título de Doutor Honoris Causa concedido, em 1973, pela Universidade ao coronel Jarbas Passarinho, em plena ditadura militar.

 

Quatro moções de congregações de unidades da Unicamp (Faculdade de Educação, Instituto de Arte, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e Instituto de Estudos da Linguagem) solicitavam ao Conselho Universitário da Unicamp (CONSU) que revogassem o título, posto a que atuação política do coronel Jarbas Passarinho teria sido nefasta para a educação e a cultura brasileiras durante os anos em que fora Ministro do Trabalho e da Educação e Cultura (entre os atos, sob sua inteira responsabilidade, poderiam ser citados: a aprovação do AI 5, que cassou pesquisadores e docentes; o decreto 477, que puniu estudantes; o desmantelamento do ensino público e o apoio à privatização das universidades; a punição a sindicalistas; a criação das Assessorias de Segurança e Investigação nas universidades etc.). Digno de ressaltar, afirmavam as Moções, é o fato de o coronel Jarbas Passarinho, passados 50 anos do golpe militar, jamais ter feito a autocrítica de sua trajetória política e ideológica; ou seja, hoje, continua justificando o arbítrio e o terror de Estado representados pela ditadura militar (1964-1985).

 

A votação do Consu não revogou o título pela diferença de apenas um voto; como o regimento interno do Conselho exigia 2/3 do total de 75 membros, a solicitação das quatro congregações não foi aprovada, pois obteve 49 votos (docentes, funcionários e estudantes), enquanto 20 docentes (10 contra e 10 que se abstiveram) impediram a revogação do título.

 

Uma Nota da Comissão da Verdade e Memória “Octávio Ianni” da Universidade – apoiando a solicitação discutida no Consu – ponderava que a revogação do título por parte do Conselho Universitário significaria o reconhecimento de que a Universidade Estadual de Campinas estaria se associando às iniciativas que, hoje, em todo o país, buscam – no plano simbólico – questionar alguns dos nefastos legados da ditadura militar.

 

Não se pode senão concluir que os 20 docentes da Unicamp – que tiveram um papel decisivo na votação – impediram que a Unicamp fizesse a autocrítica de um episódio de seu passado que continua a não engrandecê-la e nem a dignificá-la como instituição que se afirma democrática e cultivadora do pensamento crítico.

 

 

Caio N. de Toledo, cientista político, é professor da Unicamp.

A Comissão da Verdade e Memória “Octávio Ianni” Unicamp pode ser acessada pelo link http://www.comissaoverdade.unicamp.br/atividades.php


Comentários   

0 #4 Jarbas Passarinho...guilherme travassos 11-08-2014 13:07
Sobre títulos de doutor "honoris causa", digo o seguinte:os pósteros ( posteros mesmo, daqui a 100 ou 200 anos), terão uma visão hipoteticamente "ausente de preconceitos", como seria a visão atual ( estamos "no rabo" do Ato Institucional número 1 cuja exposição de motivos deixa bem claro - cristalino - o fato dos "Donos do Poder" serem eles. Portanto o (sic) "Título" foi concedido em determinado momento histórico. E,como "História", correta a não revogação. Se "títulos" fossem dados e tomados, pela ótica do momento, de nada valeriam. Cabe à "História" e a publicações como a nossa, essa publicação, a crítica ( que tomará também o tempo de historiadores futuros).
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0 #3 Quem são os docentes?Fábio De Maria 10-08-2014 16:44
Sugiro ao Prof. Caio Navarro que publique em local oportuno (o site da comissão da Verdade da Unicamp, por exemplo) uma lista com os nomes dos docentes que votaram a favor da manutenção do título concedido a essa figura funesta. Seria um serviço a alunos da Unicamp e à comunidade acadêmica em geral. Saudações e parabéns pelo trabalho
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0 #2 AbsurdoMarcio Seligmann 07-08-2014 21:33
Fico triste com essa notícia. A UNICAMP não só perdeu a chanche de se engrandecer. Com essa decisão ela se apequenou. Lamentável!

Professor Márcio Seligmann-Silva (IEL)
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0 #1 Consu da Unicamp não revoga título honoris causa do coronel jarbas passarinho.Ralph de Souza Filho 07-08-2014 20:36
Entre Dezembro de 1971 e Dezembro de 1975, exercitei como repórter da TV GLOBO, coadjuvado por personagens de raro talento,criatividade e coragem, a luta árdua contra aquela censura e aquele regime de boçais, corruptos e entreguistas, que nos legaram, uma dívida, em seu ocaso, em torno de 100 bilhões de dólares, além de uma sequência de sequestros, torturas e assassinatos, Malhães o disse e o queimaram, e, portanto, ainda, a ser verdadeiramente, contabilizada. Dentre seus principais mentores, merece destaque, o inescrupuloso, Jarbas Passarinho, como êle próprio se definira ao assinar o AI 5. Minha geração, impedida, pelo 477, do exercício da política, deseja os piores e mais cruéis desenlaces quando de seu juízo final. A propósito dos docentes, passaram, com o gesto, a encarnar, um dos personagens favoritos de Nelson Rodrigues, " O Cretino Fundamental ". Saudações do Planta do Deserto, a quem, basta, tão somente, o orvalho do alvorecer...
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