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O amor que diz só o próprio nome Imprimir E-mail
Escrito por Cassiano Terra Rodrigues   
Terça, 05 de Agosto de 2014
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Relutei em escrever as vagas impressões que me ocorreram sobre Hoje eu quero voltar sozinho (Brasil, 2014, dir. Daniel Ribeiro). O filme nacional está premiadíssimo mundo afora (uma olhadela na página do Facebook basta para constatar) e ainda é bastante comentado, elogiosamente, em certas rodas intelectuais. O que aqui escrevo não é elogioso – custa-me escrever ainda mais quando não me agrada o filme, mas em função de alguns amigos me incentivarem a publicar uma perspectiva que, segundo eles, não é comum, peço desculpas ao leitor e lanço aqui minha dissonância.

 

Copio o resumo da trama do filme da mesma página do Facebook já citada:

 

altLeonardo é um adolescente cego que, como qualquer adolescente, está em busca de seu lugar. Desejando ser mais independente, precisa lidar com suas limitações e a superproteção de sua mãe. Para decepção de sua inseparável melhor amiga, Giovana, ele planeja libertar-se de seu cotidiano fazendo uma viagem de intercâmbio. Porém, a chegada de Gabriel, um novo aluno na escola, desperta sentimentos até então desconhecidos em Leonardo, fazendo-o redescobrir sua maneira de ver o mundo.

 

O filme desenvolve esse motivo. No entanto – aqui, perdoem-me, conto o final da história – há um ponto a mais: os “sentimentos até então desconhecidos” descobertos por Leonardo (Ghilherme Lobo) nada mais são que uma atração homossexual por Gabriel (Fábio Audi). O filme, assim, mostra de maneira “terna” não só os dilemas e as dificuldades pessoais de Leonardo em assumir seu sentimento genuíno, como também as dificuldades e preconceitos que ele enfrenta por ser cego e, afinal, homossexual.

 

 

A chegada de Gabriel é o detonador do processo de autodescoberta de Leonardo. A partir disso, temos a certeza de que o processo é sem volta, só nos resta esperar para ver como ele chegará ao fim. Nesse sentido, o filme é absolutamente banal em sua estrutura narrativa: há um herói, os obstáculos para ele realizar sua tarefa estão postos, sabemos que ele a realizará, resta ver como e com quais feridas ele chegará a seu objetivo.

 

Mas o maior problema do filme não é essa manjadíssima estrutura narrativa (já que 99,99999999...% das histórias têm uma estrutura parecida desde Homero). Há que se falar da total artificialidade do filme. Não serve a escusa de se tratar de uma obra de ficção: a representação de adolescentes de classe média alta, todos brancos e bem alimentados, andando de bicicleta num universo que parece mais os Estados Unidos que São Paulo (isso sem falar na representação do “bullying”, bastante distante da realidade brasileira), mostra uma má-fé em sentido sartriano.

 

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Para Sartre (para explicar muito superficialmente), a liberdade é nossa definição mais radical: somos livres para escolhermos como vivemos, como agimos. Ao contrário de coisas e objetos fabricados, cuja essência está determinada, não há essência humana prévia à existência humana: somos o que fazemos de nós mesmos, nossa existência é anterior a qualquer essência – radicalmente, não há essência humana, só há existência humana no mundo. A consciência desse fato existencial leva as pessoas a agirem no mundo de diversas maneiras, implicando inevitavelmente a responsabilidade por nossas ações. E a má-fé surge exatamente aí: a má-fé de Sartre não é uma mentira, um engodo, uma hipocrisia, mas o fruto de uma crença em alguma essência humana que nos escusa de nossa responsabilidade sobre nossas ações – a má-fé vem de jogarmos a responsabilidade de nossas ações sobre elementos externos a nós mesmos, como a religião, o sagrado, a sociedade, os outros...

 

altA má-fé do filme revela-se na escolha do cenário. A escola filmada é a Escola Estadual Fernão Dias Paes, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, outrora orgulho da educação pública paulista; mas evidentemente todos presumem que se trata de uma escolha particular, uma vez que a burguesia classe B não matricula seus rebentos em escolas públicas há décadas. Mas esse não é o problema mais importante. O problema do filme, o ponto nevrálgico, o fio na navalha sobre o qual o filme se equilibra, é a representação das personagens masculinas e femininas. Sejamos claros: o filme mostra a estupidez e a burrice do preconceito contra os homossexuais, de um ponto de vista adolescente, pretensamente cheio de ternura e leveza que ridiculariza os estereótipos comuns contra os homossexuais.

 

No entanto, a má-fé com a qual representa a situação existencial das personagens faz não sobrar nada dessa ternura às mulheres, com a consequência de uma representação bastante misógina e machista (em geral, as duas coisas andam juntas) do universo feminino. Parece ser uma representação bastante inconsciente – como só pode ser quando se trata desse tipo de má-fé, o que torna as coisas ainda piores. Se não, vejamos.

 

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A melhor amiga de Leonardo, Giovana (Tess Amorim), é a amiga legal. Essa amiga legal pensa, fala e parece que só vive em função de arrumar um namorado. Ela confunde a amizade de Leo com amor (ou desejo) e, ao descobrir que ele está atraído por Gabriel, afasta-se. Vive um período de tormento longe de Leo. Só volta à alegria quando ambos se reconciliam. Ao contrário de Leo, que está muito bem se autodescobrindo com Gabriel.

 

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A outra amiga, a colega de escola, Karina (Isabela Guasco), atrai os maus comentários de Giovana por ser muito atrevida. Como Giovana, também só parece pensar em namorado. Ousada, dá em cima de Gabriel sem culpas ou vergonhas, ao contrário de Giovana. Aparece o perfeito estereótipo da adolescente “patricinha” e “piriguete” (há algum tempo, as gírias eram “patricinhas” e “mauricinhos”, hoje em dia, fala-se em “coxinha”, evitando a associação com os nomes. Mas – é uma pergunta sincera! – “coxinha” é adjetivo de dois gêneros?).

 

A mãe de Leonardo, Laura (Lúcia Romano), é a clássica histérica, proibitiva e superprotetora, a ponto de sufocar o pobre adolescente incompreendido. Incapaz de enxergar a pessoa Leonardo, ela só aparece no filme para fazer o contraponto ao pai legal e compreensivo, Carlos (Eucir de Souza). Só o pai e a avó, Maria (Selma Egrei), conseguem dialogar com Leonardo em algum nível amigável – a mãe é incapaz de se mostrar equilibrada quando se trata de reconhecer alguma autonomia em Leonardo.

 

As personagens femininas do filme, então, ou são representadas como figuras absolutamente maternais e dessexualizadas (a avó e a professora, a qual pouco aparece), ou como figuras desequilibradas emocionalmente, indo da histeria à angústia causada pela falta do objeto de desejo (a mãe e as garotas da escola).

 

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Em todo caso, todas as mulheres do filme aparecem ali em função do desejo masculino: Leonardo e Gabriel são plenamente autônomos, plenamente capazes de dar conta do próprio desejo, são autônomos ao ponto de serem criativos do próprio desejo – se o mundo lhes apresenta obstáculos, eles mesmos criam as condições de superá-los – a frase em um cartaz do filme indica essa capacidade construtiva dos personagens: “nem todo amor acontece à primeira vista”. As mulheres, ao contrário, não: seu desejo é representado como falta, são incapazes de desejar criativamente, só encontram satisfação e têm sua libido apaziguada quando tudo vai bem com os garotos – não têm autonomia na criação da própria libido, precisam de algo vindo de fora delas mesmas. Os garotos do filme certamente são dignos; mas onde está a dignidade das mulheres?

 

Vai mal o inconsciente cinemático homossexual masculino se continuar machista. Há que descolonizar o desejo.

 

Cordiais saudações.

 

 

Cassiano Terra Rodrigues é professor de filosofia na PUC-SP e esforça-se diariamente para vencer os próprios preconceitos.

Contato: cassianoterra(0)uol.com.br">cassianoterra(0)uol.com.br

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Última atualização em Sexta, 08 de Agosto de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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