O diabo nas finanças do Vaticano

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Não sei se o diabo veste Prada e se habita a livraria do cônego, como atestou Eduardo Frieiro. Sei que gosta do cheiro do dinheiro e, agora, parece perder espaço no banco do Vaticano, oficialmente IOR (Instituto para Obras de Religião).

 

O papa Francisco, na ânsia de reformar a Cúria Romana, a 9 de julho substituiu o presidente do banco, o alemão Ernst Von Freyberg, nomeado por Bento XVI, pelo francês Jean-Baptiste de Franssu.

 

O combate à corrupção e à lavagem de dinheiro no banco do Vaticano decorre da decisão do “G9”, o grupo de nove cardeais que assessora o papa na reforma da Igreja.

 

Entre as 19 mil contas do banco, três mil, consideradas suspeitas, já foram canceladas após a auditoria ordenada por Francisco. O papa “quer que as mudanças aconteçam rapidamente”, declarou o cardeal George Pell, que dirige a recém-criada Secretaria da Economia do Vaticano.

 

O objetivo de Francisco é enxugar o IOR, torná-lo um banco acessível apenas a funcionários da Igreja e instituições católicas. Segundo o cardeal Pell, transformá-lo em um simples “prestador de serviços à Igreja”.

 

No início de julho, o IOR publicou seu balanço de 2013. Anunciou o bloqueio de 1.329 contas pessoais e 762 institucionais. O encerramento dessas contas representa para o banco uma perda de 44 milhões de euros.

 

“Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”, disse Jesus (Lucas 16, 13). E ele próprio quebrou as bancas dos cambistas do Templo de Jerusalém (Mateus 21, 12).

 

Ações mafiosas na Igreja não são novidade. Teve repercussão mundial o caso Marcinkus, arcebispo ítalo-americano que presidiu o banco do Vaticano entre 1971 e 1989. Foi acusado de responsável pela quebra do Banco Ambrosiano de Milão, em 1982, declarado insolvente pelo governo italiano após ter sido descoberto um rombo de US$ 1,5 bilhão. O Vaticano possuía 10% do capital do Ambrosiano.

 

Ao investigar a falência do banco, a Justiça descobriu operações fraudulentas, como pagamentos ilícitos à loja maçônica P-2 e desvios de fundos para contas em proveito particular. Acusado formalmente, Marcinkus escapou da prisão ao se asilar no Vaticano, que gastou US$ 100 milhões para ressarcir clientes do Ambrosiano.

 

Em lances dignos das novelas de Ian Fleming, dois meses antes da quebra do banco, seu presidente, Roberto Calvi, apareceu enforcado sob uma ponte em Londres. Atribuiu-se a suicídio. Exumado o corpo, se comprovou que havia sido assassinado num terreno baldio próximo à ponte e ali dependurado.

 

O católico Richard Hammer, agente do FBI, narra em seu livro “The Vatican connection” (Conexão vaticana), como descobriu, por acaso, em 1971, que o cardeal Tisserant, via Marcinkus, aceitara cobrir o déficit do banco do Vaticano, no valor de US$ 950 milhões, recebendo da máfia a metade do valor em ações da Bolsa “perfeitamente” falsificadas.

 

O fato de as Igrejas gozarem, no Brasil, de isenção tributária, facilita a corrupção e dificulta a transparência de suas transações financeiras. Mais lamentável é padres e pastores de alguns países, como Alemanha e Argentina, receberem salários do Estado, o que os impede de exercerem o profetismo de denunciar as mazelas do governo. Talvez isso explique a cumplicidade de muitos padres e pastores alemães com o nazismo, e argentinos com a ditadura militar.

 

O papa Francisco, na primeira semana de seu pontificado, foi visto apagando as luzes dos salões do Vaticano. Indagado por que se ocupava com aquilo, respondeu: “A conta de luz de um mês desses salões dá pra sustentar por um ano um sacerdote na América Latina”.

 

O que vale para a Igreja, vale para o mundo: enquanto perdurar a idolatria do dinheiro, com o seu valor acima do valor das pessoas, estaremos longe da proposta de Jesus de criar uma sociedade em que “todos tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10).

 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida”, que a editora Vozes lança neste fim de julho.

Website: http://www.freibetto.org/

Twitter:@freibetto.

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