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Lições de Ângela Davis e Miguel Urbano Imprimir E-mail
Escrito por Otto Filgueiras   
Sexta, 01 de Agosto de 2014
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Uma e outro prosseguem comunistas e deixam isso claro na prática revolucionária, nas entrevistas e nos seus escritos.

 

Entrevistada pelo programa Espaço Público, da TV Brasil, na noite de 29 de julho, a legendária Ângela Davis, aos 70 anos, disse que retira força para continuar lutando, contra o capitalismo e pelo socialismo, da juventude e dos embates das comunidades negras que almejam o fim da descriminação social e racial nos Estados Unidos e em outros países do mundo.

 

Com mais de 80 anos, o também legendário Miguel Urbano diz no texto Sobre a Questão do Estado, publicado em 17 de julho passado no sítio do PCB, saber que a sua vida útil se aproxima do fim, mas que o seu compromisso como comunista “não é com o calendário e sim com os princípios e valores pelos quais me bati – o ideário que conferiu sentido à minha aventura existencial”.

 

Ou seja, os dois sabem que a morte virá, é inevitável, mas deixarão legados de esperança e de vida. E de luta contra o capitalismo.

 

A professora e filosofa Ângela Davis foi do Partido Comunista dos Estados Unidos, vinculada aos Panteras Negras (nas décadas de 1960 e 1970) e ficou presa durante um tempo, quase foi condenada à morte, mas depois de libertada pela pressão popular, prosseguiu lutando. Hoje ela defende e participa do movimento Ocupa Wall Street.

 

Considera positivo um operário ter ocupado a presidência da República no Brasil, mas avalia como insuficiente e avisa que é preciso avançar para derrotar o sistema capitalista.

 

Na entrevista, ela fez críticas ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e disse que preferiria um “candidato branco que criticasse o capitalismo, o inter-racismo e as prisões, do que um candidato negro que é o status quo”.

 

Integrante do Comitê Central do Partido Comunista Português, Miguel Urbano lembra que, em l967, Álvaro Cunhal escreveu que o Estado burguês “é um instrumento de dominação de uma classe sobre outras classes”. Portanto, diz ele, “será preciso destruí-lo e substituí-lo por um Estado diferente, quando o povo, sem data no calendário, conquistar o poder”.

 

Ele considera impossível construir o socialismo num país utilizando as instituições criadas pela burguesia. Diz que o golpe de Estado de Augusto Pinochet, no Chile, teve o desfecho sangrento do massacre da Unidade Popular chilena e foi uma resposta àqueles que insistiam em defender a “via pacífica” para a construção do socialismo utilizando o Estado burguês.

 

De acordo com Urbano, os partidos que se batem pelo socialismo devem participar dos parlamentos e lutar neles por reformas revolucionárias. Mas sem ilusões: “A sua função deve ser o combate ao sistema, sem a perspectiva de eventual cooperação com partidos burgueses no parlamento e fora dele”.

 

Segundo ele, as revoluções não são pré-datadas: “Tive o privilégio de ser testemunha de algumas e participei modestamente na luminosa e breve saga do 25 de Abril e na luta pela defesa das suas conquistas”.

 

Mesmo levando em conta a importância dos movimentos sociais na atualidade, Urbano considera ingênua a esperança de que as revoluções futuras sejam obra desses movimentos e diz que a luta de classes continua a ser o motor da história. Sustenta que o partido revolucionário marxista-leninista de novo tipo vai liderar a revolução e destaca a atualização do ideário de Lênin.

 

Ele diz que o capitalismo não tem soluções para salvar da destruição o seu monstruoso projeto de dominação universal. “Está condenado a desaparecer. Entrou já num lento processo de implosão”.

 

Por isso, os marxistas, os comunistas, precisam estar atentos para não reproduzir os mecanismos do Estado burguês na sua prática revolucionária, incluindo a formação de empresas capitalistas, com “conteúdo proletário”. Tudo isso é fácil de fazer, mas redunda, inevitavelmente, em fracasso.

 

Além do que, é preciso ter claro que no Brasil o projeto social-liberal fez água, a presidente Dilma poderá ter de enfrentar um segundo turno, mas se reelegerá com fissuras importantes no apoio de setores populares mais combativos. Afinal, esse governo de petistas chapa-branca e comunistas de logotipo e outros mais defende um projeto burguês e insiste na administração do capitalismo. Mesmo o seu repúdio ao genocídio do povo Palestino pode ser da boca para fora e se constata isso na manutenção dos acordos militares do Brasil com o governo de Israel.

 

Enquanto isso, o império dos Estados Unidos entrou em desespero, provoca guerra na Ucrânia e se alia ao Estado fascista de Israel na matança de civis palestinos em Gaza.

 

É verdade que ainda faltam certas condições subjetivas para a revolução socialista, mas também é correto dizer que as condições objetivas estão prontas no Brasil e que a esquerda revolucionária (marxistas e comunistas) precisa de maturidade e bom senso para dar um passo à frente e organizar o povo trabalhador para a luta pelo socialismo, mas sem derrapar para o doutrinarismo e militarismo.

 

 

Leia também:

Aos que virão depois de nós

 

Otto Filgueiras é jornalista e está lançando, pela Editora Caio Prado Júnior, o livro Revolucionários sem rosto: uma história da Ação Popular, em dois volumes: Primeiros Tempos e Bom Combate.

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