Vivendo e desaprendendo

 

 

A (justa) hecatombe dos 7x1 ressoará na memória mundial pelo resto dos tempos, sem dúvida. As necessárias reflexões sobre o que tem feito o futebol brasileiro cavar mais fundo seu poço, ano após ano, também já têm ganhado cada vez mais espaço nas mesas de tevês e botecos país afora, pelo menos entre aqueles que se recusam a enxergar o futebol como mero entretenimento. Quanto a isso, tampouco há dúvidas.

 

Outro ponto que praticamente não gera discordâncias versa sobre o fato de que tal falência futebolística se deve, acima de tudo, aos descaminhos daquilo que se diz “extracampo”, isto é, às políticas dominantes no cenário esportivo e, de forma mais direta, às pessoas que ocupam cargos diretivos na CBF, federações estaduais e clubes, numa nítida cadeia de responsabilidades.

 

Tudo, agora, muito fácil de apontar, até por dedos que sempre cumprimentaram as estruturas e figuras que conduziram o futebol brasileiro à superação, no sentido jamais imaginado, do Maracanazo de 1950. Muito legal a dona Globo fazer uma extensa matéria sobre todo o trabalho que reconduziu o futebol alemão ao Olimpo. Mas antes de levar a surra histórica, era essa a visão que trazia ao público sobre a administração de Ricardo Teixeira: http://g1.globo.com/jornal-nacional/videos/t/edicoes/v/ricardo-teixeira-foi-o-presidente-que-passou-mais-tempo-no-comando-da-cbf/1853864/

 

Colóquios e seminários repetitivos, por vezes até autopromocionais, sobre as necessidades de “choques de gestão” e “novas práticas administrativas”, em terra de capitalismo tardio e pobremente copiador, não nos tirarão de buraco algum sem uma autêntica revisão em toda a forma de enxergar e fazer futebol dentro das quatro linhas. Política e gestão de bom gosto são bem vindas, mas campo e bola ainda decidem.

 

Se até quem voltará a ver jogos somente em 2018 emposta a voz para afirmar que o futebol brasileiro “parou no tempo”, somos obrigados a refletir sobre isso. E, estranha conclusão, antes tivesse “parado” no tempo!

 

Claro, não podemos compactuar com a delirante apresentação de Luxemburgo no Flamengo (aliás, o próprio retrato do nosso desalento), na qual o pofexô afirmou “não ter visto nada de moderno taticamente na Copa do Mundo”.

 

Trata-se, simplesmente, de tentar entender onde erramos e onde acertamos nas últimas décadas. E também de aperfeiçoar nosso discernimento do que é bom importar ou copiar, e do que não necessariamente o seja.

 

Antes de tudo, é preciso ter em mente que futebol também precisa de ideias de longo prazo, de uma escola que defina um estilo a ser respeitado e trabalhado por muito tempo, como diversos países, destaco a Holanda, fazem historicamente. Inclusive a ponto de promoverem congressos nacionais que possam delinear as ideias e práticas que serão levadas adiante em todo o país, desde a categoria de base até os times profissionais.

 

Não é só a Alemanha quem o fez, como agora se fala exaustivamente. A Bélgica também, o que ajuda em muito a explicar o surgimento de sua badalada geração de numerosos bons jogadores. Outro exemplo, que infelizmente vem morrendo, foi dado por José Pekerman em sua passagem pelas categorias de base da Argentina, responsável pela aparição de inúmeros bons valores que alimentaram a seleção nas últimas quatro ou cinco Copas. Fiquemos por aqui.

 

Se olharmos em perspectiva histórica, o cenário das contradições brasileiras chega a assustar. Basicamente, por dois motivos:

 

1) enquanto vivemos tempo em que é muito mais fácil observar e estudar as novidades aplicadas por qualquer time e treinador, logo que elas aparecem, em qualquer canto do mundo, demoramos uma eternidade para notá-las e aplicá-las;

 

2) no momento em que praticamente toda a coletividade do futebol profissional mantém a postura tosca e chauvinista de recusar, de supetão, qualquer colaboração de treinadores estrangeiros, esquece-se que o país bebeu muito de outras fontes antes de começar a bordar o lábaro estrelado na camisa amarela.

 

Pois bem. Como todos sabem, o 4-2-3-1 virou o esquema da moda, pautando praticamente todos os grandes times dos últimos 5, 10 ou 15 anos. Com as devidas variantes, que partiam da mesma base, como o 4-3-3 (com ou sem pontas clássicos), o 4-4-2 (com o meio campo em linha, ao invés dos outrora populares losangos e quadrados), ou até um cauteloso 4-5-1, culminou-se num leve remodelamento para o 4-1-4-1, que permite abrir o mesmo leque de variações com simples movimentações dos jogadores.

 

Além disso, todos pudemos ver, a partir do Barcelona de Guardiola foi imposta a “lei” da diminuição do campo e compactação entre os setores do time. Aliado à intrínseca qualidade técnica, esse era o “segredo” que permitia ao time catalão, e por extensão à seleção espanhola, aquela incessante troca de passes denominada tiki taka. Com as três linhas em espaços de 30 ou 40 metros, ficava fácil fazer uma marcação pressão que tomava a bola muito rapidamente de adversários que demoraram anos pra desenvolver um antídoto à armadilha.

 

E foram os alemães (mas não apenas) os “caxias” que assimilaram e até aprimoraram a fórmula, como se vê em seus grandes times e na seleção. Enquanto os novos tetracampeões chegaram a cercar o time amarelo em menos de 20 metros entre defensores e atacantes, os setores brasileiros pareciam necessitar da linha de transmissão que traz energia do Rio Madeira ao Sudeste para se acharem em campo.

 

Mas, como dito pelo próprio Pep, ele apenas tratou de reproduzir e renovar aquilo que já existira. Em suas palavras: “o que meu pai e avô me diziam sobre o futebol brasileiro da época deles”.

 

Basta lembrar do vareio do Flamengo sobre o Liverpool em 1981, e muitas outras glórias daquele timaço, para atestar que há mais de 30 anos o Brasil já sabia jogar com essas definições. Com volantes criadores. A seleção de 1982, de Telê Santana, é outro exemplo que confirma não ter se tratado de nada casual ou esporádico. Novamente Telê, dessa vez com o São Paulo bi-mundial, reproduzia, em linhas gerais, as ideias de jogo mais festejadas de hoje. Tinha até o seu Thomas Müller, isto é, o atacante que não conseguimos definir bem onde joga, mas aparece em todos os lugares, inclusive como camisa 9: Palhinha.

 

Imediatista e caótico que é, nosso futebol abriu mão de cultivar as ideias, em nome de cobrar resultados duas vezes por semana, e ainda ostenta algo em torno de 30 demissões de técnicos a cada Campeonato Brasileiro. Assim, entende-se por que os “professores” abrem mão da “ideologia” e apelam às maneiras mais simplistas de jogo.

 

Desmemoriado que é, nosso futebol esquece que importou vários técnicos estrangeiros em seus primórdios, para trazer os conhecimentos que se alastravam e predominavam pelo mundo.

 

O Brasil se diz pai do 4-2-4, consagrado no título de 1958, mas como informa o ótimo livro de Paulo Vinicius Coelho, “Tática Mente”, o técnico Vicente Feola o assimilou do húngaro Bela Guttman, em sua passagem pelo São Paulo. Um fato, visto que os húngaros jogavam assim, mesmo com alguma semelhança com o predecessor WM, na Copa de 1954.

 

De toda forma, só o fato de haver controvérsia sobre a paternidade do esquema já demonstra que esse Brasil já gostou mais de estudar.

 

Quanto ao WM, aprendemos com outro húngaro, Dori Kruschner, que passou pelo Flamengo na década de 1930. Além dos húngaros, outros técnicos foram importados no período e deixaram sua marca.

 

Não havia televisão mostrando todos os jogos do Bayern de Munique, mas tampouco havia a arrogância de quem se autoproclamaria o “país do futebol”, noção que ensejou a certeza de que “com brasileiro não há quem possa”, ao menos quando o assunto é futebol.

 

Daí para o 4-3-3, que marcou os anos 60 e 70, portanto, a era de ouro do futebol brasileiro, foi um pulo, desenvolvido pelos próprios canarinhos, simbolizado na figura de Zagallo, tanto como jogador quanto como treinador.

 

Depois da derrota de 1982 e o triunfo do “ideal pragmático”, associado ao amargo jejum de 24 anos sem título mundial, o Brasil começou, resumidamente, a pisar na própria história, tachá-la de “romântica”, “fantasiosa”, “ultrapassada”, para os tempos modernos. Parece que estamos falando de outras coisas, mas a colonização cultural tomou conta também do nosso futebol.

 

Assim, vimos a primeira década de 2000 coalhada de times em 3-5-2, já tentado por Lazaroni em 1990, mas nascido em algumas seleções europeias, como Alemanha, Itália e Dinamarca, nos anos 80. De forma distorcida, pois o que lá foi feito pra tentar ser mais ofensivo e liberar um defensor para a criação, aqui foi feito pra “se garantir”.

 

Atualmente, o baixo nível unanimemente apontado aos torneios domésticos dispensa comentários sobre como temos produzido ou reproduzido pessimamente outras ideias de jogo.

 

Enfim, o Brasil já esteve na vanguarda. Portanto, é preciso ter cuidado quando se fala, ao vento, de “mudaaarrr... ou mudar de vez” o nosso futebol. Isso é óbvio. Mas é preciso avaliar o que seria bem-vindo e o que seria mero discurso para tranquilizar o público.

 

O ponto é: precisamos voltar a nos enxergar como uma escola de futebol, no sentido mais estrito da palavra.

 

 

Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania. Escreve semanalmente e apresenta os programas Central Autônoma e Conexão Sudaca na Central - http://central3.com.br/author/gabriel/#sthash.T293CQA4.dpuf, onde este texto foi também publicado.

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