Homens imprescindíveis

 

 

Coragem, perseverança e honestidade. Talvez esta seja a matéria que forme os grandes homens públicos. E tão grande quando a importância destes, é o vazio que resta quando um deles parte. Numa época ideologicamente medíocre, quando o sistema político brasileiro dá sinais de sua mais completa falência, é o momento em que perdemos um de nossos homens notáveis: Plínio de Arruda Sampaio.

 

Desejava maior justiça social. Sabia que um país desigual estaria fadado ao fracasso, não importava o tamanho de seu sucesso econômico. Acreditava que as transformações estruturais em nossa sociedade eram imprescindíveis. Deputado federal, defendeu reformas de base no governo João Goulart. Cassado por seus ideais, no golpe de 64, teve de enfrentar o exílio por doze anos.

 

Pode-se gostar ou não de seu posicionamento político. Mas nunca se pôde acusar Plínio de incoerente. Relatou o projeto de reforma agrária, buscando reformas de base. Defendeu as Diretas Já, tornou-se deputado constituinte. Com uma tenacidade ímpar, foi candidato à presidência da República em 2010, colocando assuntos em pauta que eram minimamente discutidos por outros candidatos, tratando de desigualdades sociais e econômicas.

 

Numa época em que a política é orientada para benefícios individuais e compadrios, por aqueles que deveriam trabalhar por uma sociedade melhor, fará muita falta a consciência política de homens como Plínio.

 

As convulsões sociais dos últimos meses deixaram bem claro que é hora de repensar o país. Um caminho inexorável, que passa por reformas estruturais de nossa sociedade e de nosso sistema político. Mesmo distante, os ideais propagados por ele continuam presentes.

 

Culto como era, provavelmente Plínio conhecia a milenar sabedoria chinesa. E há uma passagem no Tao Te Ching que se ajusta a homens como ele: “Ele não se exibe e brilhará. Ele não se afirma e se imporá. Realizada sua obra, não fica ligado a ela. E, como ele não se liga a ela, sua obra ficará”.

 

 

Leonardo Beraldo é jornalista.

Publicado no jornal O Município, de São João da Boa Vista (SP).

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