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“A política de segurança pública é o pior legado da Copa do Mundo” Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito e Paulo Silva Junior, da Redação   
Quarta, 30 de Julho de 2014
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Acabaram os 30 dias de festa promovida pela Copa do Mundo e, enquanto voltamos à realidade, começamos a constatar quais são, de fato, os legados trazidos pelo bilionário evento em relação ao prometido, isto é, melhorias na vida de todos os habitantes das cidades-sedes, agraciadas com obras e projetos de benefício geral, especialmente na questão da mobilidade. No entanto, se tal diagnóstico não é dado nem pelo seu maior entusiasta, não são os movimentos sociais que mostram satisfação com o processo vivido.

 

“Nosso ponto nunca foi falar de futebol, mas das violações dos direitos humanos que estavam ocorrendo em nome da Copa do Mundo. Eu acho que isso ficou bem claro. Enquanto o evento vem e passa, a vida continua. Mas a vida continua com uma cidade mais segregada, mais privatizada e muitas violações que, de fato, ocorreram neste período e precisam ser bastante investigadas”, disse Francisco Carneiro, da Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (ANCOP), em entrevista ao Correio.

 

De um lado, ele considera toda a mobilização de contestação à Copa vitoriosa, pois apesar das violações de direitos de vários tipos, algumas vitórias também foram registradas, além de, em sua visão, ter se cumprido a missão dos Comitês, que agora deixam a semente da articulação e atuação conjunta de diversos movimentos sociais. No entanto, critica as posturas do governo brasileiro, que através de uma escalada repressiva, muito legitimada pela Copa, estaria agora “tomando partido à direita” em todos os anseios e manifestos trazidos pelas ruas nos últimos meses.

 

“A atual criminalização é uma prova de que a gente caminha, sim, a passos largos, se não a uma ditadura formal, para uma ditadura na prática, na qual uma visão hegemônica do modelo de sociedade não permite contestações mais fortes em qualquer um de seus campos de organização social. A reação adotada após junho foi: não fortalecer a democracia, não fortalecer a participação popular, não fortalecer canais de conscientização, mobilização e discussão de projetos de sociedade. E, sim, reprimir e impedir que isso avance”, enumerou.

 

A entrevista completa com Francisco Carneiro, realizada em parceria com a webrádio Central 3, pode ser lida a seguir.

 

Correio da Cidadania: Como a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa analisa todo o processo político em torno da realização do mundial de futebol, agora que terminou a festa e os olhares já se voltam às eleições?

 

Francisco Carneiro: A Copa, assim como vários outros megaeventos e megaprojetos, se mostra como um grande interesse e um grande negócio para as empreiteiras e as grandes empresas, que moldaram, ao longo desses anos, em nome da Copa do Mundo, diversas leis e regras, inclusive a lógica do ir e vir na cidade.

 

Nosso ponto nunca foi falar de futebol, mas das violações dos direitos humanos que estavam ocorrendo em nome da Copa do Mundo. Eu acho que isso ficou bem claro. Enquanto o evento vem e passa, a vida continua. Mas a vida continua com uma cidade mais segregada, mais privatizada e muitas violações que, de fato, ocorreram neste período e precisam ser bastante investigadas.

 

Conseguimos muitas vitórias, mas, infelizmente, vários processos negativos repercutiram e recrudesceram. É a análise geral do que constatamos depois de o evento ter ocorrido.

 

Correio da Cidadania: O que pensa da crítica de alguns setores, no sentido de que os movimentos de contestação à Copa tiveram tudo na mão pra aglutinar a insatisfação popular com a condução do megaevento, mas teriam caído em erros táticos e estratégicos?

 

Francisco Carneiro: Mais de 50% da população em algum momento, por volta de até maio, estava contra a realização da Copa no Brasil, o que mostra como afetou o cotidiano das pessoas. Não só as violações dos direitos humanos, mas a corrupção. O conjunto de problemas sociais foi se agravando, foi se tornando explícito, não em virtude de nenhuma tática, de nenhum grupo, mas para a população em geral. A ação de qualquer um dos nossos grupos é menor, não é capaz de atingir 50% da população.

 

O que os Comitês fizeram, ao longo dos quatro anos em que se organizaram, foi estar junto com a população atingida diretamente e denunciar constantemente o sentido da Copa do Mundo. Neste sentido, não achamos que erramos. Conseguimos muitas vitórias ao longo de todo esse tempo. Vitórias no limite do que a gente podia, frente à grande força que o governo e os empresários faziam. Sobre o fato de 50% das pessoas serem contra, mas não resultar em mobilizações, há um conjunto de fatores que o explicam. Do mesmo jeito que junho de 2013 nos pegou de surpresa pela quantidade de pessoas indo às ruas, em 2014 a mobilização para assistir aos jogos também pegou todo mundo de surpresa.

 

Não acho que é questão de uma tática. Qualquer tática que tivesse sido pensada, não teria resultado em grandes mobilizações. Para nós, era importante um processo forte de contestação durante a Copa, era a nossa aposta. Trabalhamos e nos organizamos pra isso. Porém, o mais importante foi o processo de denúncia, de discussão dos diversos impactos, de construção de uma rede na mídia (alternativa principalmente), na academia e, em especial, de resistência da população atingida contra o modelo que a Copa e os megaeventos trazem. Conquistamos vitórias que minimizaram as violações do período.

 

O processo foi bem vitorioso, estamos tranquilos porque sabemos que fizemos o que poderia ser feito.

 

Correio da Cidadania: Como analisam a atuação estatal, dos mais diferentes governos, na relação com os protestos das últimas semanas? O que você pôde ver de perto?

 

Francisco Carneiro: Se a gente pudesse elencar alguns dos diversos legados que a Copa trouxe, de maneira bem negativa, talvez o primeiro seja o estado de exceção, de repressão ao direito de manifestação e organização, e a transformação do conceito de segurança. Não para fortalecer a política de segurança pública, a integração da comunidade, a própria vivência do espaço comunitário e a rua como espaço coletivo, mas uma segurança que passa a reprimir, excluir e favorecer interesses privados. É um legado muito ruim. Tais conceitos foram usados ao extremo durante a Copa do Mundo. E desse legado a polícia não esquece, vai continuar usando de forma cotidiana, agora na repressão nas favelas, nas periferias.

 

Foram diversas violações ao direito de organização e ao direito de manifestação. A atual criminalização, principalmente em Belo Horizonte e São Paulo e, agora, recentemente, no Rio de Janeiro, é uma prova de que a gente caminha, sim, a passos largos, se não a uma ditadura formal, para uma ditadura na prática, na qual uma visão hegemônica do modelo de sociedade não permite contestações mais fortes em qualquer um de seus campos de organização social.

 

Portanto, a questão da política de segurança pública é, de fato, o pior legado. Creio que obtivemos a conquista, ao longo do tempo, com o apoio internacional, de evitar que a política antiterrorismo avançasse no Congresso. Mas isso não impediu a polícia, o judiciário e os governos de considerarem as pessoas que se organizam e lutam por direitos como terroristas e inimigas do Estado, quando, na verdade, estavam lutando por direitos e por democracia.

 

Correio da Cidadania: Acredita que a escalada repressiva e a tentativa de sofisticar instrumentos jurídicos para criminalizar a luta social são passageiras ou se manterão? São os governos efetivamente respondendo aos ventos de junho de 2013?

 

Francisco Carneiro: Um exemplo bem prático: a polícia militar e federal treinou e se capacitou para a Copa do Mundo com a polícia israelense, que hoje joga suas bombas e aniquila um povo inteiro na Faixa de Gaza. Depois de dado o treinamento, não tem um chip que fala “esqueça isso”. É uma prática que se internalizou e vai continuar. Ainda mais com o fato de que para as forças mais reacionárias a criminalização é positiva. Se está dando certo prender um estudante da USP, prender uma advogada popular, para eles não tem por que parar.

 

Assim, só vamos mudar isso se diversas forças sociais, não só aquelas que se envolveram na luta contra as violações da Copa, perceberem que, hoje, lutar contra tal modelo de repressão é uma prioridade, temos de começar a questioná-lo por diversos meios e formas. A luta pelo direito à organização e manifestação realmente precisa ser uma nova pauta da esquerda. Porque se hoje atinge grandes processos na rua, daqui a pouco vai para as ocupações de terra, ocupações de prédios, para simples manifestação pacíficas mais contestatórias...

 

Temos de evitar, porque o Estado não vai parar. O judiciário, o Executivo e as forças conservadoras que ocupam os poderes vão continuar agindo neste sentido. Precisamos lutar contra e da forma mais unida possível.

 

Correio da Cidadania: Você entende a situação, em resumo, como a verdadeira resposta do Estado brasileiro às grandes manifestações de junho e todos os anseios expressados pela população naquele momento?

 

Francisco Carneiro: Sim. Com toda a certeza. A conversa deles de que junho era bonito, democrático, era balela. A resposta, na prática, não veio com novas medidas de fomentar a democracia e a participação, mas, sim, com novas medidas de destruir e impedir a democracia e a participação.

 

Portanto, a resposta dos governos foi tomar lado na discussão de segurança, na questão da democracia. E tomar lado à direita. Trabalharam de junho a junho pensando nisso. E implementaram a política que construíram em todo esse período. Era visível, pois os governos receberam pressão de todos os setores conservadores e foram atendendo a tais pressões cotidianamente. Não tinha porque se posicionar e adotar medidas em favor do lado que não é o deles.

 

A reação adotada após junho foi: não fortalecer a democracia, não fortalecer a participação popular, não fortalecer canais de conscientização, mobilização e discussão de projetos de sociedade. E, sim, reprimir e impedir que isso avance.

 

Correio da Cidadania: O que imagina do movimento popular e autônomo nos próximos tempos? O que será do futuro dos Comitês da Copa e sua articulação nacional, estão traçando estratégias de atuação para os próximos tempos?

 

Francisco Carneiro: A experiência da articulação foi inovadora para nós e bem exitosa, seja na sua metodologia de organização, de instância decisória, seja no respeito ao protagonismo das comunidades atingidas. Também foi exitosa porque a gente conseguiu, a partir de um tema que faltou à sociedade, discutir os impactos da Copa muito mais do que a convocação e escalação do Felipão até um mês antes. E ao pautar o debate, conseguiu-se dar liga em vários outros setores. A academia passou a discutir os direitos à cidade e a pegar subsídios das lutas populares muito mais a partir da Copa. A mídia, principalmente a “alternativa”, pauta cada vez mais o assunto e dá vazão, a partir daí, a diversas lutas contra violações que vão acontecendo no dia a dia, além de diversas formas de resistências e organização do povo.

 

Os Comitês vão se reunir, discutir como continuar debatendo e discutindo os direitos à cidade. O mote Copa do Mundo perde um pouco de força, mas penso que a discussão de como os megaprojetos e megaeventos vão desvirtuando o direito à cidade, e avançando na repressão, é uma chave de leitura e organização importante.

 

Como a articulação em si vai continuar, dependerá muito da avaliação que teremos daqui pra frente. Mas estamos bem tranquilos, porque era uma organização que tinha um prazo e deixa um legado, um conjunto de experiências, de como fortalecer a luta e articular as diversas forças da sociedade civil e os diversos movimentos sociais.

 

Clique aqui para ouvir o áudio da entrevista.


Leia também:

‘Sempre que houver a menor ameaça de mobilização social, teremos suspensão de direitos básicos’ – entrevista com Pablo Ortellado.


Gabriel Brito e Paulo Silva Junior são jornalistas.

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Última atualização em Sexta, 08 de Agosto de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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