Um homem justo

 

 

 

Desde quando fiquei sabendo da grave enfermidade do senhor Plínio de Arruda Sampaio, tive-o presente em minha oração e na de nossa comunidade Divino Salvador. Para mim, ele foi sempre uma referência de coerência de vida cristã, fosse qual fosse a realidade em que vivesse, às vezes em meio a grandes adversidades e desafios para a sua fé.

 

Lembro-me de certa vez em que procurou na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) elementos para esclarecer e formar retamente sua consciência diante de matéria polêmica que deveria votar na Câmara dos Deputados, na qual divergia da posição de seu partido.

 

Ele frequentava e participava regularmente das reuniões de políticos de partidos diferentes na sede da entidade em Brasília. Tinha uma relação de amizade e confiança com D. Luciano Mendes de Almeida, D. Celso Queirós, D. Paulo Evaristo, D. Demétrio Valentini e outros bispos e assessores responsáveis pela área da pastoral social.

 

Lembro-me de uma ocasião em que falou aos Bispos do Regional Sul I - CNBB, reunidos em Assembleia em Itaici - SP. Em três palavras-chave, ele resumiu sua posição como leigo cristão na política. Assim se expressou: para mim, a militância política é uma vocação, uma cruz e uma missão. Em seguida discorreu sobre cada uma delas, com tanta maestria e firmeza que mesmo passado tanto tempo ainda tenho em mente sua vibração e entusiasmo de cristão, no sentido etimológico da palavra – em Deus!

 

Vocação e Missão são duas categorias bíblicas que iluminam e norteiam a vida do cristão discípulo no seguimento do Divino Mestre, que chama e envia na força do Espírito, para servir e promover a vida, defender a dignidade e os direitos da pessoa humana, especialmente lá onde é mais ameaçado.

 

Ora, Plínio o fez exemplarmente, ao longo de sua carreira profissional e política, tanto assim que contrariou poderosos interesses econômicos e políticos que o mandaram para o exílio. Foi parte de sua cruz. Mas a cruz que compõe a trilogia vocação, cruz e missão, para ele, consistia, sobretudo, nas contradições e desafios que, no exercício cotidiano da política, tinha que enfrentar para ser coerente com o Evangelho e com suas convicções quanto à justiça, o direito, a ética e outros valores humanos, como a vida, especialmente, dos mais fracos e indefesos.


Se a política limpa é a mais alta forma do exercício da caridade, e a caridade a lei suprema do Evangelho, Plínio trilhou este caminho como verdadeiro discípulo do Senhor. Com efeito: “O espaço próprio de sua atividade (dos leigos cristãos) é o mundo vasto e complexo da política, da realidade social, da economia, como também da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional e do sofrimento” (Paulo VI).

 

Ora, foi neste vasto e complicado mundo que Plínio de Arruda viveu intensamente, inclusive o sofrimento. Adeus, Plínio. Você seguiu sua vocação, cumpriu sua missão e sua cruz nos deixa um rastro de luz!

 


Padre José De Nadai, da Paróquia Divino Salvador, é porta-voz da arquidiocese de Campinas.

Publicado nos jornais do Grupo RAC.

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