40 anos Brasil-China

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Na reunião em Fortaleza e Brasília dos países que compõem o BRICS, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o presidente da China, Xi Jinping, em discurso e entrevistas destacou que faz 40 anos que se restabeleceram as relações diplomáticas entre os dois países, no governo do general Ernesto Geisel em 1974.

 

Durante o evento, o Brasil assinou importantes acordos com todos esses países, em especial 32 com a República Popular da China, abrangendo o financiamento e execução de rodovias e ferrovias e o desenvolvimento de atividades de petróleo, com destaque na associação para explorar o gigantesco campo de Libra, no pré-sal.

 

Como é sabido desde 2009, portanto há cinco anos, a China suplanta os Estados Unidos como maior parceiro comercial do Brasil, com tendência de substancial aumento de nossa exportação e importação para aquele país com 1,350 bilhões de habitantes, o maior do mundo, e 2º PIB, abaixo somente da América do Norte, caminhando celeremente para alcançar o primeiro lugar.

 

Quando se fala em China é impossível ignorar a viagem pioneira de caráter político e comercial àquele país, em 1971, do empresário paranaense Horácio Sabino Coimbra, fundador da Companhia Cacique de Café Solúvel.

 

Na ocasião, o Brasil vivia o período mais violento e radical da ditadura de 21 anos no governo de Garrastazu Médici, e a China era presidida por Mao Tsé Tung, cujo comunismo era temido no Ocidente, sem qualquer vínculo com os Estados Unidos.

 

Relembre-se que no golpe de 64 foram presos e maltratados alguns chineses que estavam no Rio de Janeiro, tratando de negócios entre os dois países.

 

Até então, nenhum homem de negócios brasileiro tinha visitado a China, e Horácio Coimbra rompeu o isolamento, com autorização prévia do presidente Médici, que designou o cônsul brasileiro em Hong Kong, na época ainda possessão inglesa, Geraldo Holanda de Cavalcante, a acompanhar o visitante como secretário particular, e não como ocupante de cargo diplomático do Brasil.

 

Horácio e o cônsul visitaram a Feira Industrial do Cantão, apresentaram lista de produtos que o Brasil poderia exportar à China e outros a serem adquiridos, sempre enfatizando que sua viagem era de caráter particular, embora de conhecimento das autoridades brasileiras.

 

Em Pequim, capital da China, Horácio Coimbra foi recebido pelo vice-Ministro do Comércio Exterior e por outras personalidades do governo e de empresas estatais, em reuniões de alto nível. Após a visita pioneira, outros empresários brasileiros visitaram a China até que se consumasse o restabelecimento das relações diplomáticas por delegação chinesa, que pediu ao Itamaraty incluir uma visita a Horácio Sabino Coimbra para agradecer seu gesto de amizade, sendo recebida com um jantar na sua residência em São Paulo.

 

Em visita oficial à China, em maio de 2004, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entregou ao presidente da Cia. Cacique de Café Solúvel, Sergio Coimbra, placa de homenagem ao seu pai, com os dizeres “Homenagem do Governo Brasileiro a Horácio Sabino Coimbra pelo papel pioneiro desempenhado nas relações comerciais Brasil-China”.

 

Publiquei na íntegra os Relatórios dessa viagem à China de Horácio Coimbra e do cônsul Geraldo Holanda Cavalcanti em meu livro Segredos da Ditadura de 64, Editora Paz e Terra/SP, 2010. Isto porque a ata da reunião do Conselho de Segurança Nacional, presidida pelo General Arthur da Costa e Silva, que cassou meu mandato de deputado federal mais votado do MDB do Paraná, não me faz acusação alguma de corrupção ou desonestidade, mas especifica que eu tinha proferido discurso “dizendo que o general Macedo Soares é que deveria ser demitido do Ministério da Indústria e Comércio e não o presidente do Instituto Brasileiro do Café, Horácio Coimbra”.

 

Essas atas do Conselho de Segurança Nacional eram secretas até que o presidente Lula, por decreto de 5 de março de 2009, as abriu ao conhecimento geral, e eu fui o primeiro político cassado pelo AI-5 que publicou na íntegra as ridículas alegações da ditadura para excluir da vida pública um jovem de 36 anos.

 

Os 32 acordos Brasil-China assinados agora em Brasília são a mais eloquente comprovação do acerto da corajosa viagem desbravadora de Horácio Sabino Coimbra ao colossal país do oriente.

 

Léo de Almeida Neves é ex-diretor de Crédito Rural do Banco do Brasil e ex-deputado federal.

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