Vergonhas

 

 

 

Vergonha pela derrota na Copa do Mundo. Mas mais vergonha pela prostituição infantil, que é praticamente aceita em um país que não investe em uma política séria e efetiva de combate a essa anomalia. Vergonha de ver nossa seleção sofrer a maior lavada de sua história, bem quando a Copa acontece no Brasil, depois de 64 anos. Mas mais vergonha pela hipocrisia das declarações de políticos, com seus pêsames pela morte dos operários de obras ligadas à Copa e seus holofotes irresistíveis. Palavras de dor que são na verdade um desrespeito à família dos mortos, por serem mera retórica falsa e distante do coração, construída por marqueteiros calculistas.

 

Vergonha de levar de 7 a 1. Mas imensamente maior é a minha vergonha por ser cidadão de um país onde jovens pobres são assassinados diariamente nas favelas e periferias, seja por bandidos ou pela polícia, todos vítimas da justiça sumária decretada por um policial ou um chefe de tráfico, a quem concedemos, por omissão, o poder de vida e morte sobre outro brasileiro. Vergonha de fazer parte de uma sociedade que aceita calada que um PM aja como juiz e decida em segundos pela morte do “suposto” criminoso, que nunca terá a chance de ser julgado adequadamente, como ensina a mais básica regra da justiça humana.  E vergonha de todos nós que fingimos que acreditamos quando o William Bonner diz que a morte do “suspeito” aconteceu durante “troca de tiros com os policiais”.

 

Vergonha da atuação da seleção brasileira de futebol nesta semifinal. Mas vergonha ainda maior por ver brasileiros queimarem sua bandeira ao perder uma partida de futebol, e ao mesmo tempo aceitarem a absurda desigualdade na distribuição de renda e a fome crônica do povo brasileiro com a bandeira hasteada. E mais: criticarem duramente quem faz alguma coisa para colocar um pouco mais de pão na boca da criança que chora de fome, seja qual for a motivação política de quem criou uma bolsa miséria que coloca essa comida a mais no prato daquele faminto.

 

Vergonha e tristeza por ver o gente boa do Davi Luiz chorando. Mas mais tristeza de uma mídia que estimula um povo a depositar todas as suas esperanças de alegria e engrandecimento interior no resultado de um campeonato de futebol, da mídia que saliva como chacal faminto ao apontar, caçar e capturar os “culpados” pela derrota histórica. Culpados que são imediatamente jogados aos leões, para deleite da massa ensandecida, como romanos no antigo Coliseu.

 

Vergonha de ser jornalista e verificar que, das dezenas de notícias sobre o falecimento do Plínio de Arruda Sampaio que tinham sido colocadas no ar até as 23h do dia 8 de julho, apenas quatro citaram os quase 20 heroicos anos de vida do Correio da Cidadania (e as que o fizeram citaram o veículo de passagem), seja por pura ignorância do jornalista, seja porque este veículo traz uma visão divergente daquela que interessa a quem se deu bem de verdade com a Copa. E que vai sempre jogar aos leões quem quer que seja, para sempre alimentar na massa esse sentimento de ódio necessário para manter-se no poder, como bem ensinou Maquiavel.

 

Vergonha de um governo que troca o que resta da floresta pelo apoio político da bancada ruralista, vergonha pela podridão dos rios que cortam nossas cidades, vergonha de políticas de incentivo à produção e venda de veículos automotores em cidades onde o trânsito está parando e onde o ar está cada vez mais envenenado.

 

No meu ranking pessoal de vergonhas como brasileiro, a derrota para os alemães está quase na lanterna da terceira divisão.

 

Leia também:

‘Dizer agora que a culpa é toda da CBF seria hilariante, não fosse ofensa à inteligência’ – entrevista com o historiador Marcos Alvito, um dos fundadores da Associação Nacional dos Torcedores.

 

Danilo Di Giorgi é jornalista.

Blog http://ddigiorgi.blogspot.com.br/

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