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Os legados da Copa no Brasil têm de chegar na política Imprimir E-mail
Escrito por Sérgio Botton Barcellos   
Qui, 17 de Julho de 2014
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Xingaram a Dilma na abertura da Copa. O Suarez mordeu e tomou suspensão exemplar. Espanha e Itália saíram na primeira fase. Argélia, Costa Rica e Colômbia fizeram as suas melhores participações em Copas. O Neymar teve a vértebra fraturada. Brasil levou 7x1 da Alemanha. Teve excelentes e bons jogos (como Costa Rica x Holanda, por exemplo) e outros nem tanto. Mas a Copa do Mundo, antes de começar, já tinha seus “campeões”, a “artilharia” pesada e seus “perdedores”. Não nos enganemos.

 

O que trago sobre a Copa e os seus legados para essa provocação não se restringem ao evento em si, partidas e festas. Cabe contextualizar que esse evento iniciou muito antes de 2014, no ano de 2007, quando o Brasil foi escolhido para ser a sede. Já havia entrado para a história desde “junho de 2013”, na Copa das Confederações, com as imensas e numerosas manifestações e até o surgimento de lemas como “Não vai ter Copa”, “Copa para quem?”, “Copa sem povo, tô na rua de novo” etc. que podem ser vistos de diferentes maneiras.

 

Esses lemas trouxeram à tona demandas que foram e ainda estão sendo levantadas por organizações e coletivos sociais (transporte público, serviços públicos em geral, as remoções causadas pela Copa, o não cumprimento de muitas das promessas dos “legados” da Copa, a violência policial nos protestos e nas favelas...) mesmo com a fortíssima repressão e o estado de exceção policial em andamento.

 

“As pessoas protestaram tarde em relação à Copa do Mundo”? A informação necessária para formar opinião sobre a Copa foi trazida de modo a fazer com que muitos grupos se deparassem tardiamente com os efeitos sobre as vidas das pessoas, como: a remoção forçada de mais 250 mil pessoas, o uso majoritário de verba pública para a promoção do evento; e a forte repressão policial que permitiu mais uma vez evidenciar a função da polícia na proteção dos interesses da elite brasileira. E outro aspecto é que, com o nível e a parcialidade da mídia brasileira, estar bem informado não pode ser considerado um pré-requisito para poder se expressar politicamente.

 

Ao longo desse processo, o modo como a Copa do Mundo de 2014 foi fomentada, tanto pelo governo como pelos meios de comunicação, tentou criar uma falsa polêmica e oposição entre torcedores e manifestantes. De acordo com os que operam essa divisão, ou você é torcedor e, portanto, não apoia as manifestações que fazem oposição à maneira como a Copa foi construída, ou você é uma minoria de manifestantes (desconsiderando a forte repressão policial) que não torce e não vê os jogos da Copa. Contudo, à medida que a Copa ia ocorrendo, ponderações como “dá pra gostar de futebol sem ser um alienado?”; “eu torço e gosto de futebol, mas não gosto da FIFA”, foram frequentes.

 

Um dos fatos oriundos de junho do ano passado foi que as pessoas se deram conta do quão contraditória era essa “grande oportunidade” de ter a Copa do Mundo no Brasil, com sua organização obscura, mais uma vez reproduzindo um processo de privatização dos lucros e socialização dos prejuízos. Lembrando que não há garantia de que os credores irão pagar os bancos estatais que concederam a maioria dos recursos utilizados para a realização do evento.

 

Mais um aspecto evidenciado foi a insistência na aplicação do conceito “vira-latas” para qualquer um que questionasse a forma como estão sendo promovidos os megaeventos no Brasil. O uso desvairado desse termo parece revelar o quanto o governo, assim como nós enquanto sociedade, nos conflitamos em uma espécie de vácuo interpretativo. Uma boa parte da base governista e alguns “neodesenvolvidos” mais exaltados parece impotente para decifrar e construir sentidos que possam dar conta das reivindicações explicitadas desde as manifestações de junho do ano passado. Desse modo, atuam na promoção de maniqueísmos, de um debate raso politicamente e esvaziado de utopia.

 

Entretanto, eles mesmos parecem não refletir que talvez o “viralatismo” seja o governo investir o que investiu com o dinheiro do povo e ainda fazer parceria com a FIFA. Os livros “O lado sujo do futebol” e “Jogo sujo” estão aí para quem quiser ler. E ficam as questões: O governo vai deixar a FIFA ir embora com os bolsos cheios, “assim na boa”? A CBF vai continuar do jeito que está?

 

Por que algo tão querido e estimado pelo povo brasileiro e pelas torcidas visitantes precisaria de tanta polícia e exército na rua? O governo federal se equivoca ao não atender as reivindicações históricas das organizações e movimentos sociais. Parece não perceber o paradoxo que criou para si mesmo, pois fez melhorias sociais e de indicadores socioeconômicos, mas não promoveu um debate político franco e de fôlego sobre a democracia participativa ao longo de seus doze anos. E as manifestações durante a Copa continuaram pedindo educação, saúde, transporte público digno e de qualidade, bem como uma segurança pública que proteja o povo e não que militarize as comunidades, violente manifestantes, mate crianças e jovens pelas ruas e favelas.

 

Apesar de ocultadas, ocorreram diversas manifestações em várias cidades do país durante a Copa do Mundo. Não ocorreram mais manifestações e não tinham mais pessoas em grande parte devido à forte repressão policial, ao impedimento da concentração de manifestantes, à prisão em série de pessoas por implante de provas e flagrantes forjados, cadastro de manifestantes e buscas de “suspeitos” nas suas casas. Um grande aparato repressivo foi criado para intimidar e coibir formas de organização política. Pelo visto, sem prazo para acabar.

 

Outra das polêmicas da Copa: “quem xingou Dilma na abertura da Copa?” Bom, não foram os manifestantes de junho de 2013, os metroviários demitidos por Alckmin, os trabalhadores em greve ou as comunidades removidas de suas terras ou casas pelas megaconstruções e especulação imobiliária. Estes teriam bons motivos para tal, mas não tinham vontade ou dinheiro para estar na Arena São Paulo. Foi a direita? A elite? A burguesia? Certamente, as vaias não vieram dos aliados Paulo Maluf, Sarney, Fernando Collor, Renan Calheiros e Kátia Abreu. Também não vieram dos empreiteiros, que vão encher os cofres das campanhas eleitorais. Nem dos banqueiros, que continuam faturando como “nunca antes na história do Brasil”. Muito menos dos latifundiários, agradecidos pela reforma agrária e demarcações de terras empacadas. Diz um ditado popular: “passarinho que dorme com morcego, acorda de cabeça pra baixo”.

 

A presidenta deve governar para todos (as) brasileiros (as), mas ao não ir para o confronto e continuar fazendo o número de concessões e agrados que faz às elites em geral, deixa de fazer política voltada para uma série de demandas sociais reprimidas ao longo da história, como: a distribuição de renda, a correção do déficit da habitação, o combate efetivo ao extermínio da juventude negra e pobre, o aumento da qualidade dos serviços públicos e a reforma agrária e urbana.

 

Embora na última década tenham sido dados passos importantes em algumas destas áreas, e ocorrido diversos avanços nos indicadores sociais, um conjunto de pautas veio à tona junto com as contradições da Copa. Dilma e o governo vão ter de colocar em ação a promessa da atual campanha eleitoral, que é ter um projeto de transformação para o Brasil, mas que dessa vez beneficie efetivamente a maioria da população brasileira.

 

Depois dessa, não precisa desenhar que os governos precisam consultar a maioria da sua população (plebiscito?) sobre fazer Copa e Olimpíada, ou não, no Brasil. Caso o povo decida que sim, e como vai ser, que seja o mais popular e acessível possível. E antes de fazer acordos com a FIFA, dar 60% da verba publicitária para apenas um grupo de telecomunicações e fazer uma Copa pra coxinha, gringo e uma fração minoritária da classe média, vale lembrar qual é a sua maior base política.

 

Essa Copa, além de jogos de alto nível, muitos gols, eficiência da festa para “gringo” e classe média dos grupos A e B, também deixou seus legados políticos, questões em aberto e desafios, como:

 

- Não ser algo digno ou soberano para qualquer governo fazer parcerias com a FIFA diante das inúmeras denúncias de delitos que a entidade está envolvida, prejudicando a vida de cerca de 250 mil pessoas com remoções forçadas, promovendo a gentrificação das cidades sede, além de um estado exceção democrático durante o torneio. Isso não é a derrota do complexo de vira-latas, mas sim a sua sublimação;

 

- Debates binários e maniqueístas só levam à despolitização, fora ser um “tiro no pé”. E outra, nesse discurso insano sobre viralatismo está sendo evidenciada a tentativa de justificar uma espécie de neocolonialismo em curso;

 

- Há a necessidade de outro projeto de segurança pública e policiamento comunitário, o fim dessa polícia militar que forja flagrantes, assassina moradores das comunidades e, nitidamente despreparada, atua em favor de restritos grupos de poder econômico e político;

 

- O planejamento urbano das cidades, as taxas imobiliárias e o nosso sistema de mobilidade não podem ficar reféns de megaeventos ou ocasiões consideradas “especiais”;

 

- Torcemos sabendo que a Copa não era para a maioria da população brasileira. Esporte não é mercadoria. O futebol profissional no Brasil tem de ser popularizado, pois a elitização do futebol afasta a maioria da população dos estádios e do esporte;

 

- Com a Copa do Mundo no Brasil, ficou mais uma vez evidente que eventos e ações de governo podem ter eficiência e qualidade social. Contudo, essa qualidade e toda a dedicação política do governo com a Copa do Mundo pode ser igual com o transporte público, com a educação, a saúde pública e a efetivação das políticas públicas de interesse da população;

 

- Após a lesão de Neymar, com participação de Zúñiga, esse jogador foi chamado de “preto safado”, sua filha de “puta” e sua esposa ameaçada de estupro por muit@s brasileiros. Sim, ficou mais uma vez evidente que o Brasil ainda é um país com diversos grupos sociais racistas, machistas e dispostos à prática do linchamento. Está mais do que na hora de um intenso debate em nível nacional e combate a tais práticas;

 

- Quando, como e onde vão ser publicizados os pagamentos dos empréstimos concedidos pelos bancos estatais para a construção dos estádios?;

 

- A máfia dos ingressos da Copa começou a ser desvelada nessa edição no Brasil. Passou da hora de uma investigação e auditoria profunda na CBF, bem como a investigação das suas relações com dirigentes de clubes e os grandes meios de comunicação.

 

Devem existir mais questões e desafios, mas esses foram os possíveis de serem elaborados no momento, nessa pequena provocação ao debate. Que venham mais e outras.

[…] consiste num tipo de mentira que tem que ser doce a ponto de extasiar, mas, por outro lado suficientemente inalcançável para manter atrelado. Uma saída viável para a monotonia parece ser o esporte; nele, desejos autênticos fazem-se sentir já na largada; nele encontra refúgio a competição, quase extinta para as pessoas humildes. (...) O boxeador está dentro do ringue, amargando, mas o que mais apanha está do lado de fora das cordas, como espectador. Ele é o verdadeiro mestre em aceitar golpes no queixo, em levantar quando soa o gongo. Assim, ele agrada sobretudo àqueles que fazem com que o boneco iludido teime em se levantar (O princípio esperança, Vol.1. BLOCH, Ernest, 2005. p.333).


Sérgio Botton Barcellos é pesquisador e torcedor do futebol sem a CBF e a FIFA. Doutor pelo CPDA-UFRRJ.

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Última atualização em Sexta, 18 de Julho de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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