O falso sequestro

 

 

Netanyahu sabia que os três jovens israelenses desaparecidos não tinham sido sequestrados, mas assassinados. Dificilmente poderia ignorar que o Hamas era inocente. Mas usou o crime para tentar destruir o Hamas e o acordo de unificação dos movimentos palestinos.

 

Logo no início, ele revelou que um dos jovens havia telefonado para a polícia, dizendo-se sequestrado, antes que a ligação fosse interrompida. Estranhamente, nesse país onde há liberdade de imprensa, a divulgação dos detalhes da gravação foi proibida por ordem judicial conseguida pelo Shin Bet (serviço secreto de Israel).

 

Como se sabe, Netannyahu culpou o Hamas pelo sequestro com o fim de trocar os jovens israelenses por prisioneiros políticos palestinos.

 

Sem ter apresentado uma única prova, ele se lançou numa violenta pregação de ódio, ganhando o apoio da população e a simpatia da comunidade internacional para um uma busca maciça de sequestrados e sequestradores.

 

Nessa campanha, que invadiu centenas de casas da Cisjordânia, dezenas de membros do Hamas foram presos e oito civis mortos, em protestos contra a ação do exército.

 

Presos também muitos professores, estudantes, ativistas de direitos humanos e até parlamentares do Hamas.

 

Com o povo israelense mergulhado no ódio aos árabes e no desejo de vingança, como, aliás, ele queria, Netanyahu liberou a gravação do telefonema.

 

A estas alturas havia prendido 540 palestinos como suspeitos, dos quais 200 permanecem detidos sem acusação.

 

E os corpos dos jovens já tinham sido encontrados, mortos a tiros. Aparentemente, o assassinato desmentia a tese do sequestro pelo Hamas para troca de prisioneiros.

 

O governo veio logo com nova teoria: temendo que o telefone do jovem alertasse a polícia e ela viesse voando, os sequestradores desistiram da sua proposta inicial e mataram os três.

Mas, em 10 de julho, o The Sidney Morning Herald (principal jornal australiano) publicou informações da Reuters que contam outra história.

 

O FBI fez uma análise da gravação do telefonema. Verificou que, após o apelo do jovem, uma voz ordenou que abaixassem as cabeças. Ouviram-se 10 tiros e a voz gritando: “Pegamos os três”.

 

Aí, os técnicos do FBI sacaram que os sons dos disparos vinham de armas com silenciadores.

 

Armas com silenciador são usadas para assassinatos, não para sequestros. Um oficial norte-americano, participante da investigação, informou tudo isso à Reuters, sob condição de anonimato.

 

Disse também que, para os investigadores do FBI, o uso de silenciadores demonstrava que os criminosos planejaram um assassinato. Nunca um sequestro. Com isso, Netanyhau ficaria muito mal na foto.

 

Dificilmente o Shin Bet – que dispõe da mais avançada tecnologia – não teria notado a questão do silenciador e comunicado ao chefão.

 

Embora sejam mínimas as chances dessa omissão, Netanyahu não sai livre de culpas. Pelo menos, ele sabia que os jovens já estavam assassinados ao ouvir os 10 tiros disparados, na gravação.

 

Mesmo assim, decretou a busca de casa em casa dos jovens, como se estivessem sequestrados, para justificar as prisões indiscriminadas de centenas de palestinos (ilegais por serem “punição coletiva”). E assim poder atacar o Hamas sem problemas.

 

O crescimento do ódio racial, as vítimas palestinas de violências e ataques mortais pelo exército, as mortes e destruições causadas pelos bombardeios de Gaza, o terror da população israelense diante dos foguetes lançados pelos militantes islâmicos...

 

Há muitas acusações às quais Netanyahu deveria responder. Para isso existe o Tribunal Criminal Internacional.

 

 

Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

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