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Palmeiras são a melhor opção para os biocombustíveis Imprimir E-mail
Escrito por Rodolfo Salm   
Segunda, 09 de Abril de 2007
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Desde a visita de George W. Bush ao Brasil, multiplicaram-se os temores de vários setores da sociedade quanto às conseqüências do aumento da produção de etanol de cana-de-açúcar para o meio ambiente. A visita fez crescer os olhos dos usineiros, transfigurados nos novos xeiques do petróleo verde, e também a possibilidade desta "terra tornar-se um imenso canavial" (repetindo a alusão de frei Betto à música de Chico Buarque feita na semana passada).

São tantos os dados e as análises comparando o consumo de combustível de um carro com as necessidades alimentícias de não sei quantas pessoas, lembrando as péssimas condições de trabalho no corte da cana (mesmo no estado de São Paulo), a poluição dos rios, a degradação do solo, as queimadas, os desmatamentos, que fica difícil escolher um gancho para escrever um artigo original.

 

Mas chamaram-me a atenção dois artigos disponíveis no APARTE (um sítio acadêmico “voltado para o debate sobre os rumos da política econômica e social brasileira e as formas de promoção da inclusão social”, ligado à UFRJ, www.ie.ufrj.br/aparte).

 

No primeiro deles www.ie.ufrj.br/aparte/usuarios/colunista.php?apelido=CLESSA), o professor Carlos Lessa (ex-presidente do BNDES) defende a preservação do potencial energético brasileiro como estratégia geopolítica para evitar a subordinação do Brasil às necessidades dos Estados Unidos neste setor. O professor lembrou nossa vantagem geográfica, que nos confere elevadíssimos níveis de insolação, a base da energia da biomassa; observou como a produção de açúcar só se desenvolveu no Caribe no período colonial graças à combinação de políticas dominadoras com reservas de mercado praticadas pelos Estados Unidos e pelos países europeus; apoiou a posição do governo Lula de exigir a redução dos subsídios ao álcool norte-americano e alertou: “nada pior para o nosso futuro que caminhar para uma arena de apetites imperiais por energia”.

 

No segundo artigo (www.ie.ufrj.br/aparte/opinioes/opiniao.php?codigo=APARTE_0433),  o economista Marcello Averbug reconheceu a omissão de seus pares no que diz respeito à questão ambiental, observando que, apesar do aquecimento global estar previsto há muitos anos, quase nada foi feito pela ciência econômica para “esquematizar meios financeiros, transformações no sistema produtivo e, de um modo geral, as políticas públicas” necessárias para se lidar com o fenômeno. O autor definiu a violência cometida contra o planeta como suicida, e concluiu que as instituições onde os economistas atuam deveriam dedicar-se a formular e divulgar propostas sobre como reformar a estrutura produtiva mundial (transporte, indústria, agricultura e energia) para torná-la menos agressiva ao meio ambiente.

 

Os textos em princípio não discordam um do outro, pois, certamente, no mundo dos desejos do professor Lessa, em que será possível “combinar produção de cana e soja e libertar os equipamentos mecânicos da lavoura do uso de combustível fóssil, substituindo-o por biodiesel derivado da soja associada com a lavoura de cana”, haveria sistemas de financiamento destinados a reduzir a emissão de agentes poluentes e recuperar áreas contaminadas, como sugeriu Marcello Averbug. O problema é que o argumento de Averbug é genérico (e estou de pleno acordo com ele, não há no que criticá-lo), enquanto que o texto do professor Lessa é específico e defende a atividade sucroalcooleira que, segundo ele, “tem um balanço térmico extremamente adequado para o meio ambiente nacional e mundial”.

 

Apesar do argumento geopolítico de peso, sou obrigado a discordar do eminente professor em um ponto crucial. Explico: com “balanço térmico”, ele certamente se refere ao fato de que, para cada molécula de carbono eliminada com a queima do etanol da cana-de-açúcar, foi ou será absorvida uma molécula equivalente. Desta forma, se os equipamentos da lavoura fossem movidos por biocombustíveis, fechadas as contas, teríamos uma fonte energética que não agride o meio ambiente, pois não colabora para o efeito estufa. Certo? Apenas e tão-somente se olharmos para o problema do carbono de maneira exclusiva, mas a questão ambiental é muito mais ampla. A conta de emissão e reabsorção de carbono é atraente pela simplicidade, e pode seduzir os interessados em reformar a estrutura produtiva para torná-la menos agressiva ao meio sem afetar o crescimento econômico. Mas a “grande omissão” perdurará enquanto não se atentar para a natureza específica dos organismos biológicos e suas relações com outros organismos e com o meio físico.

 

O balanço do cultivo de cana-de-açúcar é extremamente inadequado para o meio ambiente, pois deixa resíduos tóxicos na forma de poluição dos rios, degradação do solo, queimadas e desmatamentos. Por que colocar os recursos restritos do BNDES a serviço da cultura de cana-de-açúcar, se temos no Brasil uma gama de espécies mais produtivas e mais adequadas ao nosso contexto ecológico?

 

Palmeiras arborescentes de grande porte podem ser mais produtivas que a cana-de-açúcar na produção de biocombustíveis, pois esta precisa ser colhida todo ano, a cada ciclo produtivo, deixando o solo exposto para que as novas plantas desenvolvam sua estrutura fotossintética praticamente a partir do zero. Palmeiras vivem da acumulação bruta de material ao longo de muitos anos, como o grande capitalista, enquanto que as gramíneas, como a cana, são como os operários que sobrevivem da corrida do dia-a-dia, conforme comparou E.J.H Corner, grande estudioso das palmeiras, em “The Natural History of Palms” (a cana tem que investir todo ano em caule, folhas etc., enquanto que as palmeiras, por serem perenes, depois de desenvolvidas têm um investimento muito menor nisso).

 

Já o botânico russo Gregório Bondar, especialista nas palmeiras brasileiras, descreveu o seu fruto como um carvão mineral que cresce em árvores, sem a mina nunca se esgotar. De suas sementes podem-se produzir óleos que facilmente substituiriam o óleo dos motores a diesel. É possível também produzir a um custo modesto carvão a partir da parte dura dos cocos e coquinhos, carvão esse que pode ser vendido para a indústria siderúrgica e as companhias de navegação e de transporte ferroviário.

 

Investindo nas palmeiras, em detrimento das espécies anuais, nunca seríamos “amaldiçoados pelo sol” — o que pode ser dito da cana-de-açúcar e da soja, dada a extensão dos estragos ambientais causados por seu cultivo —, como os povos do Oriente Médio podem dizer que são “amaldiçoados pelo petróleo” (como bem observou o professor Carlos Lessa), dada a extensão dos conflitos que se desenvolvem em sua região.

 

Os muitos milhões de hectares de florestas já desmatados do Brasil, se reflorestados com palmeiras nativas (que se dão muito bem em áreas degradadas), além de recuperarem o ambiente, produziriam uma quantidade de óleo e carvão que nos colocaria, estrategicamente, na liderança isolada do comércio mundial de biocombustíveis, com soberania, autonomia e, melhor do que sem danos, com recuperação ambiental.

 

Alternativa à monocultura canavieira que seja social e ambientalmente muito mais interessante há, mas a julgar pelas declarações, um tanto bizarras, digamos, do presidente Lula, alçando os usineiros à categoria de “heróis nacionais”, parece mesmo que o ideal desta terra é de fato tornar-se um “imenso canavial”.

 

PS. O que aparentemente também está bem para frei Betto (que diz que a nossa “alegria nacional [...] está ameaçada de se transformar numa grande tristeza nacional caso o governo federal não tome, o quanto antes, severas medidas para impedir que o país se torne um imenso canavial em mãos estrangeiras” e que “o mínimo que se espera do presidente Lula é que siga o exemplo de Chávez e defenda os interesses nacionais”), desde que seja um canavial 100% nacional. Discordo. O que se esperaria de um bom presidente seria o desenvolvimento de alternativas e a contenção da expansão do canavial, esteja nas mãos de brasileiros ou estrangeiros.

 

 

Rodolfo Salm, doutor em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia e pela Universidade Federal de São Carlos, é pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi.

 

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