Senhor Deus dos Desgraçados

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O abraço do craque David Luiz (depois da seleção brasileira de futebol ter vencido o jogo contra a Colômbia) em James Rodrigues, artilheiro da Copa e em prantos por seu time ter sido eliminado da competição, me emocionou e demonstrou que a solidariedade ainda existe no jogo da bola, apesar dos negócios milionários, alguns escusos, da FIFA.

 

Admirador de Charles Chaplin de pés abertos, e atrapalhado, David Luiz disse em entrevista para Ronaldo Fenômeno, trabalhando para a rede Globo, que a folha seca que deu com o lado interno do pé direito, e redundou no espetacular segundo gol do Brasil contra a Colômbia, é resultado de anos de treinamento e inspirado no ator e diretor de Tempos Modernos. Por isso mesmo, Chaplin foi perseguido nos Estados Unidos, na década de 1960, pelo macarthismo anticomunista.

 

No entanto, a atitude solidária de David Luiz com o adversário só foi registrada no programa Cartão Verde, da televisão Cultura, pelo professor de português Pasquale. O restante da mídia comercial televisiva, incluindo Bandeirantes e Globo, focou a sua cobertura na falta contra Neymar (ausente da semifinal contra a Alemanha e afastado da Copa por causa da fratura de uma vértebra), depois da agressão estúpida do jogador colombiano Zuñiga, que atingiu o brasileiro pelas costas.

 

A atitude solidária, de classe, do valente David Luiz é continuidade do comportamento da torcida da seleção do Japão, eliminada da Copa. Enquanto os brasileiros e demais torcedores de outros países se retiravam dos estádios, deixando montanhas de seus lixos, os japoneses recolhiam garrafas e copos de plástico, papel, bandejinhas de isopor, latas de cervejas e de refrigerantes vazias ou quase, canudinhos, restos de alimentos e embalagens usadas por eles.

 

Foi o gesto mais fascinante da Copa, quando aqueles japoneses ensinaram a todos nós a tratar com respeito o espaço público, o meio ambiente e os outros habitantes da terra. Agora a atitude dos nipônicos tem a companhia da solidariedade de classe de David Luiz.

 

Claro que nada disso é suficiente para romper com a opressão e exploração capitalista, mas é uma lição à parte mais obtusa e reacionária da classe média brasileira, que pouco se importa de a polícia torturar e matar os pobres e negros das periferias das cidades, contanto que seus interesses mesquinhos e as suas propriedades sejam preservados. E garantindo que continuem berrando: Pra Frente Brasil, salve a seleção... e esse é um País que vai pra frente...

 

Além de lutar pelo socialismo mais eficiente econômica e tecnologicamente do que o capitalismo e as suas crises, os marxistas, os comunistas, precisam mostrar ao povo que se batem por um mundo mais justo e humano.

 

Não ter medo de incorporar os poemas e a emoção de Castro Alves, o poeta dos escravos, que clamava em praça pública, e não encontrava, pelo Senhor Deus dos Desgraçados. Resgatar criticamente revolucionários iguais a Leon Trotsky e Mao Tse-Tung. Resgatar Poemas do Cárcere, de Ho-Chi-Minh e outros mais. E não se esquecer da genialidade de Lenine, pregando que mulheres e homens precisavam sonhar. Mas com a condição de acreditar nos seus sonhos, de examinar atentamente a vida real, de confrontar seus sonhos com a realidade para, finalmente, realizar as suas fantasias.

 

 

Otto Filgueiras é jornalista e está lançando, pela editora Caio Prado Júnior, o livro Revolucionários sem rosto: uma história da Ação Popular.

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