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‘Já passou da hora de a MINUSTAH sair do Haiti’ Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, Matias Pinto e Felipe Dominguez, da Redação   
Sexta, 04 de Julho de 2014
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Pela primeira vez em sua história, o Brasil chefia uma ocupação militar em país estrangeiro, que acaba de completar 10 anos. Para falar da intervenção no Haiti, no momento em que o fluxo migratório do país mais pobre das Américas começa a se tornar visível por aqui, entrevistamos o historiador e jornalista Thalles Gomes, que comenta o que viu da intervenção da MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti) enquanto foi correspondente do jornal Brasil de Fato.

 

“O Haiti é um ótimo fornecedor de mão de obra, com 1 milhão de pessoas morando nos EUA. Existem as maquiladoras, as empresas do setor têxtil que têm parte da produção no Haiti. Tudo sem pagar impostos, com salários muito baixos, sem respeitar nenhum direito trabalhista. Há também uma simbologia forte, pelo fato de o país estar a menos de 100km dos EUA, e um temor de que, com o histórico de lutas e radicalização popular, sem interferência externa os haitianos poderiam desestabilizar a situação do Caribe”, explicou, contextualizando o passado rebelde do primeiro país a se libertar da escravidão e suas duradouras consequências negativas.

 

Ao longo da conversa, Thalles ajuda a rememorar os principais acontecimentos desde a batalha pela independência, que forjaram a dura realidade social ainda perdurante, além do implacável cerco de diversas potências em relação ao país que até hoje não se recuperou do terremoto de 2010. Sobre as tropas da ONU, ele fala de seu enorme fracasso em reorganizar as estruturas do país, o que só reforça o sentimento da população de aversão aos militares, além de paulatinamente se refletir no histórico afeto dos haitianos pelo Brasil.

 

“As tropas não são bem vistas, há uma discussão muito forte sobre sua permanência. Começou em 2010, quando as tropas não conseguiram ajudar na reconstrução do país após o terremoto. Em um ano, menos de 10% dos escombros tinham sido removidos. E pra piorar a forma como são vistas, teve a epidemia de cólera, trazida pelas tropas. É uma tropa de ocupação que não ajuda a resolver os problemas sociais, não ajuda a fortalecer as estruturas políticas e ainda traz cólera. Já passou da hora de a MINUSTAH sair do Haiti”, resumiu.

 

A entrevista completa, novamente realizada em parceria com a webrádio Central3, pode ser lida a seguir.

 

Correio da Cidadania: O que você poderia dizer da ocupação militar do Haiti, através da MINUSTAH, missão teoricamente a serviço da pacificação do país, e também do papel brasileiro nessa ocupação?

 

Thalles Gomes: O papel do Brasil, infelizmente, é bastante vergonhoso. O povo haitiano tem uma identidade muito forte com o Brasil. Isso se deve muito ao futebol, mas também pela identidade racial e histórica, por conta do imaginário sobre o Brasil na cultura latino-americana, de um país negro, livre, festivo. Há algo muito próximo, com forte cultura africana. Mas, infelizmente, de 2004 pra cá o Brasil desceu do patamar de nação irmã para nação ocupante, invasora.

 

Em 2014, lamentamos os 10 anos da ocupação estrangeira no Haiti (MINUSTAH), que chegou em abril de 2004 pra “pacificar” um país que passava por um momento político interessante. Em 2004, completaram-se 200 anos da independência haitiana, que, diferentemente da nossa, foi fruto de uma revolução. A única revolução de escravos vitoriosa no mundo, após 13 anos de luta. E o exército haitiano derrotou, nada mais, nada menos, que as frotas e tropas de Inglaterra, Espanha e França. É como se hoje alguém derrotasse Estados Unidos, União Europeia e Rússia juntos. Uma ilha minúscula fez isso.

 

Correio da Cidadania: O simbolismo de ser a primeira colônia, após os EUA, a se libertar, gera a impressão de um certo castigo hereditário.

 

Thalles Gomes: É mesmo, a represália é muito forte. É bom lembrar que o Haiti teve uma revolução de escravos negros, que, além de proclamarem a independência, fizeram outras duas coisas, na época afrontas totais ao sistema: aboliram a escravidão (primeiro país nas Américas a fazê-lo) e promoveram a reforma agrária. Mexeram com a propriedade da terra e as relações de trabalho numa pequena ilha, que também exportou soldados e ajudou financeiramente Miranda, um dos libertadores da América Central e do Sul. Daí a represália tão forte. Depois, o país passou 100 anos pagando dívidas da independência, sofreu embargo dos EUA durante 80 anos...

 

Quando se pergunta a respeito do Haiti, sempre se tem a imagem da miséria. Mas nem sempre foi assim. Já foi a colônia mais próspera das Américas, o primeiro a abolir a escravatura, o primeiro a fazer reforma agrária... E, ao longo desses 210 anos de independência, o que houve foi uma sistemática represália, ocupação e interferência estrangeira no Haiti. A MINUSTAH é apenas o capítulo mais recente, mas o país sofreu ininterruptas ocupações, de diversos países.

 

Teve a ocupação e represália francesa logo depois da independência, mas desde 1915 quem comanda efetivamente o Haiti são os EUA. Entre 1915 e 1934, os EUA ocuparam militarmente o país, construindo as bases subservientes de sua economia. Acabaram com toda a possibilidade de produção autônoma de alimentos e de uma industrialização. Tornou o país dependente e consumidor, conforme a doutrina Monroe, de “América para os americanos”. E o Haiti foi o principal laboratório para as intervenções militares estadunidenses que se deram a seguir na história.

 

Correio da Cidadania: Podemos dizer que o Haiti foi a Cuba do século 19?

 

Thalles Gomes: A revolução haitiana foi referência histórica para diversos revolucionários do século 20. Foram 13 anos de guerrilha, muito parecida com a de Cuba. O Haiti é um país montanhoso em mais de 70% do território. Talvez a coisa mais fenomenal da revolução haitiana é que ela foi feita por escravos e derrotou os maiores líderes e as principais mentes militares da época. Napoleão, tido como grande estrategista militar do século 19, foi derrotado por dois escravos. É uma simbologia muito forte.

 

Há relatos de que, entre 1806 e 1815, houve uma repressão muito forte a qualquer menção ao ‘haitianismo’ no Brasil. Havia a ideia de que o Haiti podia exportar sua revolução, além de relatos sobre cartazes de negros livres fazendo suas reivindicações aqui no Brasil, mencionando Dessalines, o primeiro presidente do Haiti livre. O símbolo haitiano foi reprimido duramente. A imagem que temos de um país miserável é bem mais fruto da intervenção estrangeira do que de suas próprias pernas.

 

Correio da Cidadania: Falando no Haiti, é fácil pensar na vizinha República Dominicana, com quem divide ao meio a ilha de Santo Domingo. Como se dá a relação entre os dois, que já teve episódios como o Massacre de Perejil, em 1937, quando as tropas do general Trujillo mataram 20 mil haitianos que migraram para o lado oriental da ilha?

 

Thalles Gomes: Como dito, os dois países dividem a ‘Isla Española’. Já foram uma única nação, mas durante o processo de independência do Haiti a coroa espanhola conseguiu manter a República Dominicana como colônia. A consequência principal do empobrecimento do Haiti é ter se tornado uma nação migratória. Estima-se que um terço de sua população esteja fora do Haiti. E quase 1 milhão de haitianos trabalham na República Dominicana, o mesmo número de haitianos nos EUA. Obviamente, tais fluxos migratórios causaram desconforto e aversão fortes na economia e sociedade dominicanas.

 

O massacre ainda é muito lembrado, mas hoje a relação é outra. Logo depois do terremoto de 2010, o presidente dominicano abriu as fronteiras e se colocou à disposição para ajudar. A República Dominicana não é empecilho para o Haiti. É uma nação que sofre dos mesmos males, mas talvez, no momento histórico, tenha a economia mais desenvolvida. Se fosse pensar nos principais problemas do Haiti, colocaria os EUA, a União Europeia, a MINUSTAH e suas intervenções constantes na economia haitiana.

 

Correio da Cidadania: E se tivemos Trujillo, tivemos a cara-metade haitiana, através dos Duvallier.

 

Thalles Gomes: O ano de 2014 é simbólico porque em 1804 se proclamou a independência e, em 1934, acabou a ocupação dos EUA. Em 1957, o François Duvallier, médico, ganhou a eleição com discursos de viés populista. Mas, assim que tomou posse, virou um ditador a serviço dos EUA. Aquilo que os EUA tinham promovido durante a ocupação, o Duvallier – chamado de Papa Doc – manteve, com a ideia da abertura de fronteiras, economia totalmente dependente, importação de todo tipo de produção dos EUA, exportação de mão de obra...

 

Ele fez isso até 1971, quando transmitiu sua ditadura, talvez o único caso na história da América de se passar um regime autoritário de pai para filho. O Jean Claude Duvallier governou o país, com mão de ferro, de 1971 a 1986. Criou e fortaleceu os Tonton Macoute, as tropas presidenciais que perseguiram e mataram boa parte dos militantes que tinham um discurso mais progressista. Mesmo não militantes tiveram de se asilar. Estima-se que mais de 30 mil pessoas foram assassinadas, uma ditadura sanguinolenta que também serviu para preparar o terreno em favor da instalação do neoliberalismo no Haiti.

 

Hoje, o neoliberalismo é o principal empecilho econômico ao país, que sofre a interferência estrangeira, vive de exportar mão de obra, de ajuda internacional ou de empresas como as maquiladoras, que não constroem nada, não montam nada, não pagam imposto e utilizam mão de obra barata para sua produção. A herança dos Duvallier é muito forte, até hoje se coloca como um marco divisor, que aprofundou ainda mais as desigualdades e pobreza haitianas. Mas eles não fizeram sozinhos. Tiveram o apoio e a bênção de outras nações.

 

Já o processo de redemocratização do Haiti é parecido com o brasileiro. As primeiras eleições livres ocorreram quase no mesmo período. Mas a diferença é que o Lula deles ganhou. Era um padre da teologia da libertação, o Jean Bertrand Aristide. Assumiu o cargo com um discurso bastante progressista, nada socialista ou revolucionário, mas apenas uma tentativa de resolver minimamente alguns problemas de distribuição de renda. Nada de estatizar terras, reforma agrária. E ele durou só oito meses no cargo, deposto por um golpe militar, incentivado e financiado pelos Estados Unidos.

 

Isso fez com que a possibilidade inicial de reconstruir o Haiti na redemocratização fosse por água abaixo. Seus oito meses de governo foram o que talvez tenha aumentado os olhos das nações estrangeiras, porque depois houve uma ocupação que durou mais três anos. E quando o Aristide voltou, foi com o consenso de Washington debaixo do braço, tendo de aceitar o manual de recuperação econômica do FMI.

 

Correio da Cidadania: Como foi o processo político mais recente, com a segunda passagem do Aristide, a virada de século e a criação do clima para a ocupação que dura até hoje?

 

Thalles Gomes: O Aristide voltou em 2000, com sua nova eleição, e havia o discurso de retomar a pauta dos anos 80, aplicando o que não foi possível por conta do golpe de 1990. Não fez grandes mudanças, talvez se assemelhe ao governo Lula no sentido da conciliação de classes, mas em 2004, ano bastante simbólico pelos 200 anos da revolução, ele começou com discursos de afrontar mais a presença estrangeira, principalmente dos EUA. Ameaçou não pagar dívidas, falou em investir o dinheiro da dívida ao FMI na educação, enfim, um discurso que nos acostumamos a ouvir de governos como de Correa, Morales, Kirchner...

 

E a resposta foi a mesma de antes. Existe um ditado popular que fala: sempre que aparece uma possibilidade de mudança social no Haiti, desembarcam 20 mil marines para acabar com tudo. Foi assim em 1915, em 1990, em 2004, antes da Minustah, e em 2010, após o terremoto. Sempre baixaram 20 mil marines estadunidenses. Portanto, sempre que existe uma possibilidade de mudança social, permeada por uma discussão e participação popular mais efetiva no governo, há uma intervenção militar estrangeira.

 

Correio da Cidadania: Hoje, quais os maiores e mais específicos interesses comerciais dos Estados Unidos no país?

 

Thalles Gomes: O Haiti é um ótimo fornecedor de mão de obra, com 1 milhão de pessoas morando nos EUA. Existem as maquiladoras, as empresas do setor têxtil que têm parte da produção no Haiti. Trazem o tecido, os botões e os haitianos apenas montam. Tudo sem pagar impostos, com salários muito baixos, sem respeitar nenhum direito trabalhista.

 

Há essas duas questões e também uma simbologia muito forte, pelo fato de o país estar a menos de 100km dos EUA. Há um temor de que, com o histórico de lutas e radicalização popular, sem interferência externa os haitianos poderiam desestabilizar a situação do Caribe. Por isso a missão da ONU tem a palavra “estabilização” em seu nome.

 

Correio da Cidadania: Guardadas as devidas proporções, temem um efeito de influência parecido com a revolução cubana, até pela situação precária de países próximos, como Honduras, hoje sob efeito de um golpe de Estado?

 

Thalles Gomes: A explicação para o interesse dos Estados Unidos sobre o Haiti é a mesma para o interesse em El Salvador, Honduras, Nicarágua, Guatemala... Mesmo com o passar dos séculos, prevalece a doutrina Monroe, de ter a América como quintal para os seus interesses comerciais (e não os patrióticos).

 

E aí vem a principal crítica para chegarmos ao último momento político do Haiti, com o terremoto de janeiro de 2010, que matou 300 mil e desabrigou 1 milhão – estima-se que durante os 40 segundos de tremor de terra se perdeu o equivalente a 130% do PIB do país. A resposta dos governos dos EUA, da UE e da comunidade internacional foi: “vamos abrir o mercado. O mercado que vai ajudar a resolver o problema do Haiti”. Não se buscou fortalecer o Estado ou a sociedade civil. Mas trazer empresas.

 

No campo, muito emblematicamente, a resposta que deram em 2010 foi a entrada das sementes transgênicas. Doaram 300 toneladas de sementes transgênicas aos camponeses do Haiti. Essa foi a ideia de reconstrução e solidariedade. Doar sementes transgênicas, tornar os camponeses dependentes dos herbicidas e fazer com que eles, para continuarem plantando, comprem e dependam da Monsanto. Sendo que ninguém sabe o que a transgenia faz no nosso corpo, se tem relação com o aumento do câncer...

 

Mas é isso: para um país que passa por uma dificuldade muito grande, a resposta é abrir a economia para as grandes empresas; no campo, ao agronegócio; e, na cidade, a essas empresas de serviços.

 

Correio da Cidadania: No simulacro democrático, qual a situação política e governamental do país?

 

Thalles Gomes: O Haiti tem dezenas de partidos. É difícil pensar na dinâmica de ver qual é o partido de maior força, diferentemente de outros países com instituições partidárias fortes. Tanto que o atual presidente não veio de base partidária. É um cantor famoso, com espaço na mídia, que foi lá e se elegeu. Para entender a política haitiana, é preciso pensar menos nos partidos e mais nos movimentos sociais. O Haiti hoje ainda é essencialmente agrário. Mais de 60% da população está no campo. Os movimentos camponeses têm uma importância grande, portanto.

 

Correio da Cidadania: E como está o protagonismo de tais movimentos no presente?

 

Thalles Gomes: Existe uma grande dificuldade econômica que afeta todos os setores da sociedade, inclusive os movimentos sociais. Dá pra citar dois grandes movimentos: o Cabeças Unidas dos Camponeses (Tèt Kole Ti Peyizan Ayisyen – TK), que nasceu pleiteando a reforma agrária em plena ditadura Duvallier e tem estrutura parecida com o MST, ocupa terra e tenta criar uma conscientização política a partir da ação direta;  o outro é o MPP (Mouvman Peyizan Papay – Movimento Camponês Papaia), de quase 40 anos, que não tem a pegada de ocupação de terra, mas o intuito da formação política.

 

A última vez que estive no Haiti foi em 2010, período em que se discutia o que seria a reconstrução do país. Com 300 mil mortos e 1 milhão de desalojados, pensava-se em reconstruir um Haiti diferente desde o fundo do poço. Essa era a perspectiva. Em meio àquela calamidade, uma união que pautasse um Haiti mais unido e popular. Mas tal não ocorreu, porque até hoje quem gerencia os recursos de ajuda que chegam são ONGS estrangeiras, entidades de outros países. De modo que os movimentos têm dificuldade de organização, por não terem pernas e capacidade de se autogerir. Dependem da cooperação estrangeira, que de certa forma se parece com as ideias da Monsanto. As ONGs controlam o acesso ao dinheiro. Assim, se é preciso um dinheiro para se deslocar, fazer uma formação em pequena cidade, é preciso fazer projeto, relatório... E quem avalia são estrangeiros.

 

Correio da Cidadania: Como você avalia o trabalho dessas ONGs no Haiti, e especialmente dos grupos que, supostamente, estão lá para ajudar na reconstrução do país?


Thalles Gomes: Eu acho o seguinte: quem deve e quem pode resolver os problemas dos haitianos são os próprios haitianos. Talvez o país na América Latina que mais sofra com a questão da soberania seja o Haiti. Porque é um país que tem um Estado esfacelado, uma economia esfacelada e é totalmente dependente da ajuda estrangeira. Cerca de 1/3 do PIB vem da ajuda estrangeira.

 

Mas o que acontece é que não há respeito à soberania do Estado do Haiti, à autonomia. Não vejo como saída o total desligamento do Haiti do resto dos países, da comunidade internacional. Precisa, sim, de uma solidariedade internacional. Mas de solidariedade que não seja armada. Não há nenhuma justificativa plausível para a manutenção da MINUSTAH no Haiti.

 

Um dos dados mais usados é o Haiti ser um país violento e que a MINUSTAH ajuda a manter a paz. Em 2012, houve mil assassinatos violentos no Haiti. Em dados gerais, 1.110 assassinatos. Isso significa uma média de 10 assassinatos a cada 100 mil habitantes. No Brasil, no mesmo ano, foram mais de 50 mil assassinatos, uma média de 25 assassinatos a cada 100 mil habitantes. Portanto, o Brasil é duas vezes e meia mais violento do que o Haiti. A República Dominicana, localizada na mesma ilha, tem o dobro de assassinatos e nem por isso é ocupada militarmente ou se pauta a ocupação militar da República Dominicana, ou ainda uma ocupação militar do Brasil.

 

O Brasil tem, sim, uma responsabilidade. Todos nós latino-americanos temos responsabilidades com o Haiti. É a nossa pátria mãe. Foi lá que nasceu toda a nossa liberdade, mas a nossa solidariedade não precisa ser armada, não precisa se dar através de exércitos e não precisa ser empresarial. É uma solidariedade entre os povos e organizações.

 

Só assim o Haiti pode, soberana e autonomamente, resolver sua situação. Não é um branco, não é um estrangeiro, quem vai dizer como o Haiti deve resolver seus problemas. São os próprios haitianos, com o tempo que eles precisam, com as dificuldades que possam ter. Ninguém pode resolver por eles. A gente só pode estar do lado. Não pode estar à frente deles.

 

Correio da Cidadania: Qual a expectativa sobre a retirada das tropas, no momento em que a ONU estuda ações para retirá-las a partir de 2016, e o governo uruguaio recentemente já declarou que pretende fazer isso ainda em 2014?

 

Thalles Gomes: Há uma discussão muito grande em torno a diminuir a ocupação da MINUSTAH. É algo prometido desde 2010. Desde que eu estava lá, há uma promessa de saída, mas não há datas concretas. Se for perguntar pra todos os ministros de Defesa, o antigo Nelson Jobim e o Amorim, eles sempre falam: “Vamos sair do Haiti. Precisamos pensar um plano de saída do Haiti”. Mas é algo parecido com o que os EUA fazem no Iraque e no Afeganistão. “Vamos sair”, mas não saem.

 

Seria muito bom se, ao invés de armas, o Brasil conseguisse fazer minimamente uma cooperação comercial mais efetiva. Se pudesse haver uma troca de técnicas. Mas as empresas estão lá em busca de recursos estrangeiros. Discutem como o dinheiro que chega ao Haiti possa de lá sair. O Haiti é apenas um entreposto de toda a grana que chega como “cooperação internacional”.

 

Há muita crítica ao papel das ONGs, muita crítica ao papel da MINUSTAH, mas há uma compreensão, há um sentimento de que a solidariedade é muito importante para o Haiti sair de onde está. E tomara que a saída da MINUSTAH não seja do tipo “lavo minhas mãos e você fica com os problemas”. Porque, depois de dez anos, há uma responsabilidade muito grande do Brasil com o Haiti.

 

Não é à toa que o fluxo migratório está aumentando consideravelmente de lá para o Brasil. O Brasil é uma referência econômica. Biscoitos brasileiros são vendidos em supermercados do Haiti. O Brasil é referência também política. É como eu falei: 1/3 da população haitiana está fora do Haiti. O papel dos haitianos migrantes é um papel que interfere no PIB. Muito do PIB vem dessas pessoas. Não é uma migração humanitária. Eles não estão fugindo da guerra. Eles estão buscando melhores condições de emprego, querem trabalhar. É a mesma migração dos bolivianos no Brasil. É a mesma migração que há cem anos os europeus fizeram pra cá.

 

E o fluxo migratório haitiano é bem menor do que se alardeia. Não estamos passando por uma calamidade pública. É preciso apenas pensar. Esse fluxo vai continuar e aumentar. Não é fechando a fronteira e dificultando a vinda que vai ser resolvido. É necessário pensar políticas públicas para que esses haitianos venham ao Brasil, sejam recebidos, consigam entrar no mercado de trabalho, consigam ajudar o Haiti e suas famílias a saírem da situação econômica atual e, quem sabe num futuro próximo, retornem ao Haiti com conhecimento acumulado aqui no Brasil.

 

Não tem nenhuma outra solução. Não é fechar fronteira, dificultar o acesso aos documentos e papeladas de migração e dos passaportes, porque existe uma demanda muito forte e o que os haitianos querem é trabalhar para se sustentar e sustentar suas famílias. Se o Brasil quer manter a referência de primeiro país da América do Sul que possa pleitear a vaga no Conselho de Segurança da ONU, mais do que enviar exércitos, comandantes e tropas, tem de encontrar uma forma de ajudar na reconstrução econômica e social do Haiti.

 

Correio da Cidadania: Falando sobre as tropas e o fato de o Brasil ser referência aos haitianos, como você, que viveu no país e viu tudo de perto, sem filtros, descreve a relação cotidiana da população e os militares?

 

Thalles Gomes: Quando íamos para a região camponesa, sempre éramos recebidos com ruídos de ‘bééé, bééé’ das pessoas. Não sabíamos se era xingamento ou algum código, mas era claramente uma imitação de cabrito. Isso porque as tropas, no início da ocupação, roubavam os cabritos dos camponeses, o que equivale a roubar toda a poupança deles. O cara investe tudo no bicho, vem o outro, rouba e mata para comê-lo.

 

A MINUSTAH não é bem vista porque não conseguiu resolver nenhum problema, trata-se apenas de uma presença ostensivamente militar e estrangeira, portanto, não muito tranquila. A primeira coisa que dizíamos quando chegávamos a alguma comunidade era ‘je ne suis pas militaire, je ne suis pas d'accord avec le MINUSTAH’ (Eu não sou militar, eu não estou de acordo com a MINUSTAH). “Sou brasileiro, mas acredito em outra forma de cooperação”.

 

As tropas não são bem vistas ou benquistas, há uma discussão muito forte sobre sua permanência. Começou em 2010, quando as tropas não conseguiram ajudar na reconstrução do país após o terremoto. Em um ano, menos de 10% dos escombros tinham sido removidos. E a MINUSTAH controla todos os serviços públicos, portanto, é a principal responsável, de fato. E pra piorar a forma como são vistas, teve a epidemia de cólera, trazida pelas tropas. Primeiro, negaram, mas depois ficou provado que a cólera veio pelas tropas. É uma tropa de ocupação que não ajuda a resolver os problemas sociais, não ajuda a fortalecer as estruturas políticas e ainda traz cólera.

 

Já passou da hora de a MINUSTAH sair do Haiti e de se pensar um plano de cooperação internacional civil, que dependa menos do Estado e mais das organizações e movimentos sociais.

 

Nota:

Em tempos de tentativas de uso político da Copa do Mundo e suas supostas benfeitorias na vida nacional, vale lembrar que a ocupação militar do Haiti foi inaugurada com um jogo da seleção brasileira em Porto Príncipe, que por tabela ajudou a pavimentar as boas relações entre Ricardo Teixeira e Lula. Isso no mesmo ano em que a FIFA anunciou para 2014 uma Copa na América do Sul e os países do subcontinente já tinham acordado deixar o Brasil como candidato único a sediá-la.

 

Entrevista gravada no Programa “Conexão Sudaca”, veiculado pela webrádio Central3.

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Última atualização em Qui, 10 de Julho de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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