Síria: hesitação norte-americana

 

 

Diante da alteração interna constante de poder entre grupos milicianos no Iraque e na Síria, os Estados Unidos tergiversam sobre qual posição adotar concernente aos respectivos governos locais. No caso iraquiano, a inclinação seria a de intensificar o auxílio; no sírio, o desejo seria o de apoiar a parcela mais secular da oposição.

 

Para tanto, a Casa Branca já chancelou como terroristas dois líderes de grupos acusados de conexão com a Al-Qaeda – um seria saudita, ao passo que o outro, iraquiano. Com a medida, proíbem-se cidadãos norte-americanos de se relacionar econômica e politicamente com eles e, por extensão, com suas organizações.

 

De maneira paralela, a administração norte-americana não consegue definir até o momento o modo mais conveniente de destinar a ajuda aos adversários mais comedidos da família al-Assad: cogita-se desde o treinamento militar dos contendores até a delimitação de uma zona de exclusão territorial.

 

Em todas as hipóteses consideradas, há o justificado receio de involuntariamente providenciar preparo técnico ou acolhimento a fundamentalistas, em especial os estrangeiros.

 

Diante disso, a hesitação militar se mantém, embora a diplomática, não, ao ter se movimentado nas Nações Unidas, com o propósito de desgastar politicamente a administração de al-Assad.

 

Nesse sentido, a iniciativa foi frustrada, graças à intervenção conjunta da Rússia, ressentida com a posição ocidental no tocante à questão ucraniana, e China, assaz pragmática, ciosas além de tudo da importância do acompanhamento dos assuntos médios-orientais.

 

Ambas vetaram em maio último a proposta de encarregar o Tribunal Penal Internacional de investigar delitos de guerra em solo sírio, ao ter como ponto de partida denúncias contra o atual regime autoritário de al-Assad.

 

Acresça-se que Washington não consegue sequer viabilizar as Nações Unidas como o palco para entabular as negociações de paz. Desta forma, o debate de uma possível intervenção distancia-se do cotidiano.

 

Enquanto isso, a guerra civil lá ocasiona um estranho quadro político: por um lado, a quadragenária ditadura sobrevive em parte por causa do velado apoio iraniano; por outro, o extremismo reforça-se devido ao discreto socorro saudita – estima-se em dez mil o número de milicianos fundamentalistas, muito dos quais vindos de países próximos.

 

A possibilidade de a movimentação integrista logo ultrapassar as fronteiras da Síria e do Iraque preocupa bastante os Estados Unidos, de modo que a Casa Branca dedica-se a organizar extensos exercícios militares com a Jordânia, fiel aliada. Esta poderia servir-lhe de base para o lançamento de eventuais ataques à Síria.

 

No meio dos extremos políticos, agoniza a população civil, sem perspectiva de esperança no horizonte no curto prazo. Avalia-se que um em cada dez mortos seria criança. A fome grassa. Doenças espalham-se em função de condições sanitárias inadequadas.

 

Deslocados encontram-se aos milhões, o que faz o país situar-se ao lado de outros com duradouros desentendimentos internos como Congo, Nigéria e Sudão. O crime propaga-se, com a execução de sequestros e extorsões.

 

Enfim, a sociedade local levará muito tempo para recuperar-se de maneira mínima da atual tragédia, onde se misturam o anacronismo da Guerra Fria, a presente ditadura familiar, com a contemporaneidade da ordem mundial, o extremismo.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.


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