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Liberalismo ou imperialismo? Imprimir E-mail
Escrito por Adriano Benayon   
Quarta, 25 de Junho de 2014
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Objetividade

 

1. Ao nos ocuparmos das questões nacionais, não devemos nos precipitar, pois há pressa, e não se deve desperdiçar tempo em assuntos e discussões de importância secundária. A situação é grave demais para que se tire o foco do que interessa.

 

2. Um tema que não deveria merecer muito gasto de nossa energia são as eleições presidenciais. Em artigo recente, “Eleições e Modelo Dependente”, escrevi: “O real sistema de poder manobra sempre para que todos os candidatos com chance de chegar ao 2º turno estejam comprometidos com a realização destes objetivos: ampliar e aprofundar a desnacionalização da economia, desindustrializá-la, servir a dívida – inflada pela composição de juros absurdos – e propiciar ganhos desmedidos às grandes empresas transnacionais”.

 

3. Portanto, com qualquer “eleito”, a vitória será do sistema imperial e de saqueio, comandado pela oligarquia financeira anglo-americana, através de carteis transnacionais e coadjuvada por concentradores locais.

 

4. Sessenta anos de atraso tecnológico aumentando e crescente perda de autodeterminação política e econômica geraram condições deterioradas de vida no país.

 

5. Essa deterioração tem sido acompanhada por doses maciças de desinformação, sendo a natural revolta popular manipulada por opositores diretamente vinculados àquela oligarquia financeira e principalmente por entidades controladas por esta, que agem para desestabilizar a presente gerência petista.

 

6. Esta, na verdade, atende ao sistema de poder da oligarquia, contra o qual a revolta deveria se dirigir. É como culpar só o gerente do restaurante que manda servir alimentos estragados e que, se não o fizer, será sumariamente demitido.

 

7. De qualquer forma, não é tolerável a lesividade das políticas do atual governo, como: 1) os leilões do petróleo; 2) o agravamento da situação do setor de energia elétrica no quadro de um sistema predador, que se diz “de mercado”; 3) as parcerias público-privadas; 4) novas elevações das absurdas taxas de juros dos títulos públicos, que sangram o Tesouro, em favor dos concentradores financeiros.

 

8. Há que denunciar também a continuidade: 1) das alienações de terras usadas predatoriamente, em grandes plantations, para exportação; 2) da extrema desnacionalização da economia; 3) do favorecimento aos carteis transnacionais, praticantes de preços extorsivos e de transferência; 4) da liberdade de exportação, com baixa ou nula tributação, de inestimáveis recursos minerais, preciosos e estratégicos, inclusive o nióbio, em que o pouco caso com os interesses nacionais recebe o aval da CODEMIG, estadual de Minas Gerais.

 

9. Entre os crimes mais graves das gerências petistas estão os decretos e medidas para liberar as sementes transgênicas e os agrotóxicos a elas associados. A urgente proibição dessas sementes tem de ser exigida nas mobilizações populares, sem as quais o processo de desintegração do país não terá solução de continuidade.

 

10. Mais de 800 cientistas de 82 países assinaram carta aberta, na qual pedem a suspensão imediata das licenças ambientais para cultivos transgênicos e produtos derivados, tanto comercialmente como em testes em campo aberto, durante ao menos cinco anos.

 

11. Eles proclamam: “as patentes dos organismos vivos, dos processos, das sementes, das linhas de células e genes devem ser revogadas e proibidas”.

 

12. Apontam agrônomos e biólogos: "Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, nem reprodução da flora; sem flora não há animais, sem animais, não haverá raça humana".

 

13. Isso não é pouco, e há mais que isso. Os cientistas confirmam que os cultivos transgênicos prejudicam os agricultores, inclusive por envolverem o aumento do uso de herbicidas e o empobrecimento do solo. Ademais, intensificam o monopólio das grandes empresas sobre os alimentos, o que está levando os agricultores familiares à miséria e impedindo a segurança alimentar e a saúde no mundo.

 

14. Até mesmo nos EUA e no Reino Unido, fontes do próprio Estado reconhecem o perigo dos transgênicos para a biodiversidade e a saúde humana e animal. A transferência horizontal de genes acarreta a difusão de genes que tornam incuráveis as doenças infecciosas e criam vírus e bactérias causadores de doenças e mutações capazes de provocar o câncer.

 

Liberalismo ou imperialismo?

 

15. A oligarquia financeira mundial tem investido no Brasil – durante mais de um século, de forma crescente – na (de)formação de opiniões e na deseducação, gerando confusão mental e animosidade entre grupos sociais e indivíduos, associados a doutrinas e ideologias.

 

16. Os saqueadores e seus adeptos – remunerados ou não – encobrem a verdadeira natureza das políticas que realizam o saqueio imperial, fazendo que até mesmo os críticos delas as qualifiquem de liberais e neoliberais.

 

17. Esses nomes não costumam causar repulsa geral e até exercem atração sobre as pessoas que os associam a termos da mesma raiz, como “livre”, libertário”, “liberdade”. Palavras bonitas e antigos ideários das revoluções francesa e norte-americana, que passaram a ser evocados por mentores das políticas de escravização através da economia.

 

18. Do mesmo modo que as oligarquias nos países centrais, os defensores, no Brasil, dos privilégios aos carteis transnacionais e de seus contatos coloniais ou semicoloniais também se dizem e são chamados de (neo)liberais.

 

19. Então, o que, na realidade, não passa de mera apropriação dos recursos naturais e dos frutos do trabalho de um país fica sendo discutido como se fosse questão doutrinária.

 

20. O engodo é ainda maior, porque se atribui aos liberais serem contrários à intervenção do Estado, e porque a grande maioria das pessoas ignora que atualmente, na maioria dos países, o Estado é controlado pela oligarquia e que ele intervém em favor desta, nas finanças e na economia.

 

21. Por causa disso – mas sem que o público perceba que é por isso – o Estado comporta-se como insaciável coletor de impostos e taxas, sem prestar serviços, nem investir bem, nem assegurar direitos sociais básicos.

 

22. A própria incompetência adrede instalada no Estado serviu para fazer aumentar ainda mais a concentração predadora, através das privatizações.

 

23. Essas estão sendo desfeitas em alguns países como Rússia e França, enquanto no Brasil o Estado só aumenta de tamanho como repassador de recursos a concentradores estrangeiros e locais.

 

24. Antes, tivemos excelentes avanços tecnológicos em estatais, mas elas foram sendo minadas para “justificar” as privatizações. Tudo em nome da “livre” iniciativa, na qual carteis e monopólios sufocam a iniciativa, impedem a concorrência e se apropriam das poucas tecnologias não impedidas de surgir.

 

25. Entretanto, nenhum país se desenvolveu sem a liderança do Estado, o único instrumento para a sociedade organizar-se para evoluir e defender-se, papel que ainda desempenha em alguns países, ainda que nem sempre a contento geral.

 

26. Sem o Estado a seu serviço, a sociedade transforma-se em massa amorfa, composta por indivíduos sem personalidade e sem liberdade alguma, como ocorre no grande número de países dominados pela oligarquia financeira mundial, inclusive em suas sedes – EUA, Reino Unido.

 

27. Assim, as instituições formalmente democráticas, mesmo quando não violadas por desestabilizações e golpes de Estado, ficam sob controle daquela oligarquia. Os “governantes” são prepostos ou acuados.

 

28. De fato, não existe democracia sob regimes que não estabelecem limite à concentração econômico-financeira. A falsa que temos aqui leva à convulsão, com chance de o que vier depois levar à guerra civil, à desintegração e a ainda maior submissão ao império mundial.

 

29. Portanto, nossa sobrevivência depende de os brasileiros não mais se deixarem pautar pela agenda e pelos conceitos do império. Só começará a ser viabilizada quando a consciência dos fatos deixar de ser obscurecida por ideologias, e quando os brasileiros deixarem de repelir-se entre si por divergências de opinião, inclusive esquerda ou direita.

 

Leia outros artigos de Adriano Benayon:

Para sobreviver, sair do dólar

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Adriano Benayon é doutor em Economia e autor do livro Globalização versus Desenvolvimento

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Última atualização em Segunda, 30 de Junho de 2014
 

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