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Che (2): Homem e Exemplo Imprimir E-mail
Escrito por Pietro Alarcón   
Segunda, 15 de Outubro de 2007
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Pode-se eleger uma opção política por diversas circunstâncias: pela família, pelos amigos, pela procura, consciente ou inconsciente, daquilo que outorgue sentido à vida, pela atmosfera de solidariedade política e humana que rodeia o entorno em que se desenvolve nossa existência.

 

As situações mais imprevisíveis e casuais podem-se apresentar, facilitando o passo do mero espectador ao de ator social e o que ao princípio pode ser apenas uma aflição momentânea converte-se em um modo de encarar a vida, uma filosofia que inspira a práxis diária.

 

A vida de Ernesto Guevara transcorreu na Argentina sendo testemunha de conflitos como o da Guerra Chile-Bolívia pela saída deste último ao oceano, do acompanhamento da sua família aos refugiados da Guerra Civil Espanhola, das denúncias do seu pai em reuniões e eventos políticos da perigosa infiltração do nazismo no seu país.

 

No entanto, os sucessos mais interessantes que podem ser levados em conta para entender a formação do comandante Che Guevara têm antecedentes nos sucessos da Bolívia, entre 1951 e 1953, e se encontram, de forma mais acentuada, na Guatemala de 1954: “ (...) He nacido en Argentina, he combatido em Cuba y he comenzado a ser revolucionario en Guatemala”, escreve em carta enviada a Guilherme Lorentzein.

 

Na Bolívia, Guevara assiste ao primeiro grande movimento de massas que o impressionará profundamente: a Revolução de 1952. Nela, o golpe de Estado no país é rejeitado pelos sindicatos operários e mineiros. Uma insurreição popular e armada vence o exército e surge, no bojo do processo, a COB - a Central Sindical dos Trabalhadores da Bolívia – que, convertida em poder, inicia a transformação da sociedade. Sob forte pressão, o governo proclama o sufrágio universal e a nacionalização das minas de estanho entre julho e outubro de 1952. A reforma agrária começa a ser efetivada em agosto de 1953.

 

Diversos fatores, que podem ser analisados em outra oportunidade, impediram o progresso das reformas na Bolívia. Saliente-se agora que o jovem Guevara observa, nitidamente, a força e invencibilidade de um povo organizado. Partindo, Ernesto Guevara dirige-se a Costa Rica, Honduras e Nicarágua. Nesses países observa e reflete sobre o panorama da exploração que por sobre homens e mulheres promovem as transnacionais, como a tristemente conhecida United Fruit Company. Opina, agitado, inquieto leitor da história da América, nos círculos de amigos, sobre a identidade que verifica entre os trabalhadores, independentemente da sua nacionalidade. 

 

Na Guatemala, em 1953, Jacobo Arbenz promove a reforma agrária. Ernesto chega ao país e constata que as reformas promovidas são análogas às da Bolívia, que o governo caminha em sentido contrário aos interesses da United Fruit. Prontamente sente a necessidade de agir, de assumir um compromisso maior, de maneira que procura os comunistas do PGT – Partido dos Trabalhadores -, se oferece no pronto socorro médico e nas brigadas juvenis militares que defendem o movimento diante da decisão da Conferência Interamericana - que, reunida em março de 1954, autoriza, através de uma Resolução, a invasão da Guatemala, com apoio dos Estados Unidos, desde o território da vizinha Honduras.

 

O exílio de Arbenz e a desconfiança do governo com relação à capacidade popular de defender as conquistas diante da agressão o decepcionam. Convencido de que as reformas democráticas e sociais somente não serão anuladas se houver uma força militar ancorada no povo organizado, recorre, decidido, à procura de um suporte teórico que lhe outorgue maior consistência. Volta-se à leitura de Marx, agora não apenas com a curiosidade das primeiras aproximações à filosofia, aquelas da secundária, quando se propôs a fazer um Dicionário Filosófico, mas com o interesse em aprofundar estudos, conhecer e diagnosticar problemas, oferecer saídas coerentes, ter uma formação mais sólida.

 

Assim, ao jovem que procura entender as causas que originam a escassez de oportunidades, a miséria das maiorias dos latino-americanos, a dor e a fome, se soma a experiência, a convicção, o compromisso amadurecido.

 

Não é um mero rebelde, alguém que temerariamente se exponha ao perigo, nem um irresponsável, mas alguém que conhece como poucos a situação, e que não toma decisões precipitadas. Mas que está disposto ao trabalho, voluntarioso e animado. 

 

Percebe que reformas democráticas requerem uma versão de sociedade que supere as modalidades de uma representação política mentirosa, de suporte fraco em um esquema de partidos onde o interesse público é um elemento formal. Tenta um desenho de Estado que supere a noção precária de elencar direitos sociais sem efetividade alguma.

 

Empreender os rumos do desenvolvimento sobre bases econômicas e valores diferentes dos tentados até o momento na América lhe parece apenas lógico. Descobre e ratifica seus pensamentos nas intermináveis discussões no México com Hilda Gadea, a moça intelectual que o desafia, a militante da ala esquerda do APRA Peruano que “tiene un corazón por lo menos de platino...” .    

 

Esse era o Ernesto Guevara que, em novembro de 1955, em casa de Maria Antonia González, no México, conheceria Fidel Castro Ruz, um advogado cubano que procurava recursos para iniciar uma viagem a sua terra, com a idéia de prosseguir a luta contra a ditadura de Batista. A viagem só foi possível na noite de 24 de novembro de 1956, quando o Granma partiu de Tuxpan com oitenta e dois homens.

 

Na época, Guevara se considera um revolucionário, de visão continental, mas não um marxista. No entanto, as leituras de Marx o diferenciam do restante de expedicionários do Movimento 26 de Julho. Suas freqüentes análises fundadas em São Carlos (“Querida mamá...São Carlos ha hecho una nueva adquisición. Del futuro no puedo decir nada...) fazem com que seja nomeado o responsável pela biblioteca e a educação política.

 

Nas aulas, além do interesse em transmitir idéias, do companheirismo e da solidariedade, destaca algo singular: cada vez que se refere ou chama a atenção de alguém o faz utilizando a expressão Che, no começo ou no final da frase. Os alunos, irreverentes ainda nas mais complexas circunstâncias, o batizam de CHE. Rio Platense, Guevara não se incomoda, nem perde a seu argentinismo. Seu senso de humor é reconhecidamente diferente dos companheiros cubanos. O apelido CHE vingou e passou a imortalizá-lo.

 

Nesta altura, CHE está convencido de que não é possível modificar as condições de existência sem a ação humana consciente. Não somente pensa no ser humano, mas age como acha que todo ser humano deve agir. Tenta ensinar com o exemplo e manifestar sua essência de ser social não apenas como aquele que, física e cotidianamente, compartilha das idéias dos outros e vive e convive com outros, pois sua idéia é ir além. No momento, sua idéia consiste em fazer pensar a todos que, em que cada ação humana, há implícita uma referência a uma certa estrutura social que, quando não responde às expectativas dos seres humanos, deve naturalmente ser modificada.

 

Assim, CHE proclama comportamentalmente que o sujeito individual deve pensar coletivamente. Destarte, a ação humana é fundamental e a compreensão do modelo social e das suas limitações é imprescindível para transformá-lo. Reside, ali, nessas reflexões, o potencial teórico revolucionário de uma parte do seu pensamento, que seria conhecido mais tarde, quando da publicação de “El socialismo y el Hombre en Cuba” , em uma carta dirigida a Carlos Quijano, do Semanário Marcha de Montevideo, em março de 1965.

 

Na carta, CHE se debruça por sobre a essência do homem e seu papel no processo de construção de uma nova sociedade. Começa refutando, não somente do ponto de vista teórico, mas fático, o argumento de setores críticos à revolução de que nela o Estado coage o indivíduo, o anula, enquanto o Estado se engrandece, golpeia a liberdade individual.

 

CHE explica como a luta guerrilheira se desenvolve em dois distintos ambientes: o povo e a guerrilha e como, em ambos, a entrega do ser humano, sua atitude em favor das mudanças, deve ser exemplar. A tarefa, explica o CHE, consiste em “..encontrar la fórmula para perpetuar en la vida cotidiana esa actitud heroica...”.

 

Caracterizando o povo cubano, CHE expressa como este ente não é apenas a soma de elementos da mesma categoria, mas uma força que participa de todo o processo, na reforma agrária e na administração das empresas estatais, na resistência aos furacões e ao ataque a Playa Girón. E como o povo, embora reconheça o governo e suas lideranças, aquelas que interpretam suas necessidades e ganham a sua confiança com a fidelidade aos compromissos, também obriga à correção de rumo, quando estas erram. Tudo isso sem pretender dizer, como ele próprio esclarece, que o modelo seja o ideal, pois a percepção da massa implica uma interação complexa, que requer métodos específicos, onde a intuição é apenas o começo.

 

Claro está que o pano de fundo desse processo de unidade não pode ser a lei do valor, inerente ao capitalismo. A mercadoria tem efeitos não somente na organização da produção, mas também na consciência individual que, no capitalismo, se pauta pelo interesse material, pela rentabilidade.

 

Esse não pode ser o elemento central. O homem não é algo acabado. Na construção do socialismo “Las taras del pasado se trasladan al presente en la conciencia individual y hay que hacer un trabajo continuo para erradicarlas... La nueva sociedad en formación tiene que competir muy duramente con el pasado”.

 

Há, então, que modificar o pano de fundo, simultaneamente à base material deve ir nascendo o novo homem, moralmente comprometido com o trabalho como valor social, e não como instrumento de satisfação da necessidade individual.

 

Sabe-se que o capitalismo usou a força, reprimiu duramente seu passado, educou o ser humano na máxima de que seu valor depende da quantidade de bens que possua. CHE propõe um outro processo. A auto-educação é promovida porque a institucionalidade revolucionaria, conduzindo o indivíduo a uma nova atitude, a da responsabilidade como motor do desenvolvimento social. O ser humano é completamente livre na medida em que não somente tem o necessário para a sua existência, mas porque pensa, reflete, participa, vive em comunidade e observa como seu desenvolvimento não é o individual, mas social.  Na medida em que seu trabalho se evidencia no desenvolvimento de todos, e não no crescimento das riquezas de alguns; na medida em que a mercadoria homem deixa de existir.

 

A contribuição do CHE à compreensão da necessidade de rever os valores que norteiam as nossas sociedades está ligada a suas experiências anteriores à Revolução Cubana, ao seu estudo permanente não somente da literatura marxista ou revolucionaria, mas também à leitura que recria em forma de novelas, de crônicas e contos as dificuldades dos nossos povos. E, ainda, à vivência do início do processo de edificação de um novo estilo de conduzir os negócios do Estado, onde prima o interesse público, o respeito pela vida e os valores essenciais dos seres humanos.

 

Nesse sentido, o pensamento do CHE se distancia de uma compreensão mecanicista da evolução dos modelos sociais. Sua idéia de construção socialista não é o resultado apenas da inevitável maturidade de contradições econômicas, mas da ação humana, da ação consciente do homem na história e, para isso, o ser humano precisa se despojar de um conjunto de prejuízos, preconceitos e fórmulas de individualismo que o isolam do conjunto.

 

O ser humano não é uma ilha, está indissoluvelmente ligado aos outros, e tanto mais contribui a seu crescimento e felicidade quanto mais oferece sua existência à construção do crescimento e da felicidade de todos. Por isso, nas suas palavras, há que tomar o indivíduo humano concreto em seu processo de liberação e o homem novo é pilar fundamental da construção do socialismo.

 

O pensamento de CHE flui em um cenário de contradições, antes e depois da Revolução Cubana, e muitas questões que lhe parecem claras antes de 1959 serão revistas depois. Contudo, essa idéia de homem novo, a compreensão de que não existem receitas  preconcebidas para redefinir a América Latina e o conteúdo humanista do seu pensamento ainda permanecem, desde a minha ótica, francamente incontroversos.

 

Resta, ainda, o CHE militar, o que deixamos para o próximo artigo dessa série.

 

Pietro Alarcón, advogado, colombiano, é professor da PUC-SP.

 

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Última atualização em Segunda, 15 de Outubro de 2007
 

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