Síria: a inesperada aproximação entre Estados Unidos e Irã

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Após mais de três anos de guerra civil na Síria, o pêndulo parece pender mais para o lado de Bashar al-Assad, a despeito da oposição das principais potências do Ocidente a sua permanência no poder.

 

Malgrado mais de 150 mil mortes estimadas e de milhões de deslocados, em torno de um terço da sofrida população, não há a perspectiva à vista de encerramento do conflito, o que desestimula o envio de tropas estrangeiras, já desgastadas por duas longas guerras próximas ao território sírio – Iraque e Afeganistão, países nos quais grupos extremistas continuam em contínua ascensão.

 

No curto prazo, a única alternativa exequível para os Estados Unidos seria a de fixar o apoio financeiro a grupos adversários da ditadura de al-Assad através da rubrica de contraterrorismo, o que poderia estender-se a quatro países fronteiriços - Iraque, Turquia, Líbano e Jordânia –, por serem atingidos pela movimentação de combatentes de várias nacionalidades.

 

Outra justificativa para o financiamento da oposição – a de posicionamento moderado, ou seja, a próxima do Ocidente via Exército de Libertação da Síria - seria o estabelecimento de um contrapeso às entidades extremistas.

 

Quase década e meia após o início da última intervenção norte-americana na região médio-oriental, o balanço é desfavorável à Casa Branca, uma vez que sua presença lá ampliou a instabilidade política, ao descongelar rivalidades étnicas e religiosas e ao colocar em xeque fronteiras tradicionalmente reconhecidas pela comunidade internacional.

 

Nas últimas semanas, ascende entre Iraque e Síria a organização Estado Islâmico do Iraque e Levante (indicador geográfico abarcador de territórios cujas áreas corresponderiam em termos gerais à Jordânia, Síria, Palestina e Israel), direcionada para a configuração de um novo país, em que figuraria o ordenamento jurídico amparado em matriz religiosa, no caso de vertente sunita.

 

Enfim, seria a recuperação do califado, extinto naquela área desde o processo de desintegração do Império Otomano, depois da I Guerra Mundial. Todavia, em vez de turcos à frente do poder, seriam os próprios árabes os senhores do governo.

 

Este grupo fundamentalista aproveita-se do descontentamento de parcela da população nas duas jurisdições no tocante à longeva administração alauíta em solo sírio e à recente xiita em terras iraquianas.

 

Uma saída possível para a interrupção dos confrontos voltados para a configuração de novo país, de feitio teocrático, seria a implementação de uma gestão federativa, o que poderia satisfazer os curdos nos dois lados, especialmente os do Iraque, em função do controle das reservas petrolíferas em seu território.

 

A possibilidade de materializar-se mais um Estado integrista, ainda que agrade à Arábia Saudita, propicia uma inimaginável situação, se fosse cogitada meses atrás: a necessidade de diálogo entre Estados Unidos e Irã, reticentes sobre como conduzir o debate sobre as possíveis e indesejadas alterações territoriais no Oriente Médio.

 

Isto coloca os Estados Unidos em uma encruzilhada no curto prazo: ao optar por não deslocar contingentes ao Iraque ou Síria para conter o avanço de entidades fundamentalistas, Washington sinaliza a Teerã o encargo disso. Como contrapartida de tamanha responsabilidade, o Irã poderia exigir compensações, notadamente no campo nuclear.

 

Ao longo dos últimos anos no Oriente Médio, a Casa Branca apenas tonteia lá. Chegou ao ponto de nem sequer conseguir mais coordenar a ação política entre seus aliados mais próximos, de sorte que poderá precisar em breve recorrer a um de seus mais temidos adversários.

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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