O paradoxo de Itaquera

 

 

A terceira copa em que o jornalismo me coloca pra trabalhar é aquela que eu sonhei um dia estar jogando, mas hoje minha principal relação com isso tudo é tentar entender a confusão criada pelo fato de a maior expressão já inventada pela espécie ter sido corrompida pela mais bem estruturada política de atuação agressiva e comercial.

 

Não pode ser chato acordar e tomar café com croatas que vão ver futebol em Itaquera, mas é muito chato que quem more em Itaquera não só não foi chamado pra pelada, como talvez até foi expulso pro croata passar; é muito, muito mais que vinte e dois caras chutando uma bola, e isso no extremo, para o bem e para o mal; uma quinta-feira que vira até feriado, porque o planeta todo veio assistir gente jogando bola, talvez é a quinta-feira mais legal que eu possa imaginar pra ter com meus amigos; uma quinta-feira pra uma Copa do Mundo desse jeito, asséptica, branca, militar, especuladora e que viola os direitos das pessoas, é talvez a quinta-feira mais assustadora e que eu menos posso querer ter na minha cidade.

 

Sobre as arquibancadas, é engraçado o monopólio da definição de violência torcer o nariz pra quem atira uma pedra numa vidraça de agência bancária, enquanto parece que tudo bem encher a boca pra mandar a presidente tomar no cu (pelo que, mesmo?) ou xingar o goleiro rival de bicha.

 

Sobre o jogo, já não tenho relação afetiva com essa seleção que me soa importada, a estética da coisa também não me encanta, e tecnicamente me incomoda uma equipe brasileira de Copa do Mundo que não se propõe a ter a bola, mas que tem como maior mérito a intensidade e a pressão na marcação.

 

Por fim, muito respeito por quem está nas ruas se manifestando, morte aos sequestradores do futebol, que os novos estádios consigam ter um lampejo da alma de um velho Maracanã e que o jogo consiga sair da ditadura do preparo físico e do esquema tático.

 

Paulo Silva Junior é jornalista.

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