Cronista da Folha é a super voz do 1%

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O jornal diário de maior circulação no país menospreza seus leitores com comentários ufanistas e presunçosos do megaempresário Abílio Diniz sobre a Copa do Mundo.

 

Isso é que é democracia. Não satisfeita com os vários empresários e porta-vozes do reacionarismo e da direita que transitam diariamente nas colunas e nas matérias do jornal, a Folha de S. Paulo resolveu premiar seus leitores com os inteligentes, aguçados e patrióticos comentários do megaempresário Abílio Diniz, aquele que desde a Ditadura Militar é fiel amigo dos ocupantes do Palácio do Planalto e que, depois de apoiar Sarney, Collor e FHC, na última campanha eleitoral abriu as portas de sua mansão, em São Paulo, para angariar apoios na fina flor da elite para a candidata do PT.

 

Agora, travestido de cronista esportivo-social, despeja sandices cotidianas para milhares de pessoas ao falar de um Brasil típico da “Alice no país das maravilhas”, misturado com a profunda filosofia de intelectuais de primeira grandeza como Felipão e Zagalo. Depois de tentar dar um passa-moleque no grupo francês Casino, e fracassar, o herdeiro dos Diniz perdeu boa parte do patrimônio que o velho pai Valentim havia construído desde a doceira Pão de Açúcar. Claro, sobrou o suficiente para novas empreitadas e ainda muito pique para expressar o pensamento do 1%, que é aquele seleto grupo que concentra renda e riqueza e que tem sido contemplado com a Selic de 11% (presente do Banco Central), com os títulos do tesouro e com os empréstimos subsidiados do BNDES.

 

Por isso mesmo, não é que estranhar que, em sua crônica de hoje (09.06.2014), o solerte escrevinhador da Folha tenha aberto sua obra prima com a seguinte frase: “Eu me sinto neste momento como uma criança que vai à Disney de quatro em quatro anos. Adoro futebol e estou me preparando para ver todos os jogos da primeira fase. Mas me entristecem as manifestações e, mais ainda, as dificuldades da população nestes últimos dias, gerando um clima tenso no país que não condiz com o clima de início de Mundial, ainda mais jogado aqui”.

 

Claro, um lugar comum, ele lembrou a todos os pais e mães do Brasil a delícia do que temos feito rotineiramente com nossos filhos quando os levamos para passear na Disney de quatro em quatro anos. Não falha nunca, o passeio na Disney é como a TV dos brasileiros, uma grande diversão. E lembrou também como todos os trabalhadores de salário mínimo, que adoram futebol, já compraram seus ingressos para “todos os jogos da primeira fase”. Pena que, na vida real, os ingressos de cada jogo, nas mãos dos cambistas, sejam equivalentes ao salário de um mês de trabalho, pelo menos, já que a maior parte desses ingressos foi reservada por grandes corporações e por órgãos governamentais.

 

Além disso, o solerte escriba disse que está triste por causa das “manifestações”, uma reação típica da Casa Grande que insiste em manter a Senzala no seu devido lugar, conformada, silenciada, pacificada, completamente distanciada daqueles singelos direitos básicos consubstanciados na Revolução Francesa de 1789, na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e na Constituição Federal de 1988, entre os quais o de expressão, reunião, manifestação e de rebeldia diante da violência do Estado, da exploração e da opressão.

 

Nada disso, o cronista Abílio Diniz segue fielmente o pensamento do 1%, dos mais ricos, dos setores ultraconservadores das classes médias e de todos aqueles que estão satisfeitos com o modelo político-econômico dominante, que assegura os privilégios do 1% e que, até pouco tempo, oferecia a garantia do governo de que a paz social seria mantida nos sindicatos de trabalhadores, nos movimentos populares e na juventude. Por isso, agora, a tristeza do empresário-cronista.

 

O porta-voz do 1%, na Folha, conclui sua coluna com outra frase lapidar: “É um momento especial e de muita tensão. A seleção precisa focar no torneio. Manifestação é manifestação. Jogo é jogo. Vai começar o maior espetáculo da Terra”. Mais uma vez ele confunde a conjuntura da Copa do Mundo com o mundo da fantasia em que vive a elite, ao comparar o megaevento privado da FIFA com a estreia de um grande circo popular. Só que, junto com o futebol, “o maior espetáculo da Terra” deixará o alto custo do espetáculo para ser pago por 99% dos brasileiros. Ainda bem que ele não nos chamou de palhaços!

 

Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor.

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