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Manifestações nas ruas, as eleições em 2014 e a política do Bem versus Mal Imprimir E-mail
Escrito por Sérgio Botton Barcellos   
Qui, 05 de Junho de 2014
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Os movimentos sociais estão mobilizados e na resistência faz muito tempo, como os do transporte, dos atingidos pelos grandes empreendimentos (Vale do Rio Doce, Belo Monte etc.) e Comitês Populares da Copa do Mundo, feministas, LGBT’s, Sem Terras, Movimento dos Sem Emprego, Comissões Pastorais, estudantes e uma grande variedade de outros movimentos.

 

Os dois últimos governos Lula e o governo Dilma representam uma construção histórica e anos de luta de uma significativa parcela da classe trabalhadora no Brasil, protagonistas em algumas mudanças muito bem avaliadas na vida imediata do povo brasileiro, como, por exemplo, as políticas de redistribuição de renda e o ensino superior. Contudo, não é por isso que não podemos questionar se as ações do governo desestabilizam ou mantêm os aparatos de Estado que produzem desigualdade e injustiça social no Brasil. E por isso parece importante questionar: qual Copa estamos tendo e quais Olimpíadas teremos em 2016? Lembrando que a Copa do Mundo e as Olimpíadas no Brasil não passaram por plebiscito ou referendo popular.

 

As grandes manifestações estão reiniciando e parece que não vão parar mesmo com a forte repressão policial, pelo menos até o final da Copa do Mundo. Observar e estar atento nas ruas é importante, até para disputar os rumos desse processo histórico. Paulo Freire já dizia algo do tipo “a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam”.

 

Nem todo mundo está indo para a rua por conta dos gastos da Copa, mas por uma série de motivos, desde @s “coxinhas” oportunistas, até grupos como o MTST e categorias em greve, como professores, vigilantes, rodoviários e demais grupos que lutam por mais dignidade no trabalho, e os povos indígenas que tentam, de maneira legítima, chamar a atenção internacional sobre a violação dos seus Direitos Humanos. Esses grupos vão querer ocupar a cena da Copa do Mundo 2014. Lembrando que essa apropriação ocorreu em outras Copas do Mundo, como foi, por exemplo, em 1978, com a ação das mães da Praça de Maio na Copa da Argentina.

 

Entretanto, só pautar os gastos da Copa nas manifestações parece ser inócuo e não traz muitos avanços para questões de fundo e problemas que nos perseguem há muito tempo. Para começo de conversa, quando se fala em gastos públicos no Brasil, o debate poderia incluir uma revisão da nossa Dívida Pública, que o atual governo insiste em continuar pagando e que consome entre 45-50% do PIB para bancos e especuladores, e questionar por que não se faz uma auditoria dessa dívida. O Equador fez uma auditoria e averiguaram diversas irregularidades, chegando a anular 70% dela.

 

Outro ponto é que essas manifestações também são uma resposta à negligência com as políticas relacionadas à juventude e aos direitos sociais básicos, como a questão das reformas urbana e agrária, da mobilidade e a falta de planejamento diante do atual momento demográfico do país, com a maior população em faixa etária jovem da história. Desde junho do ano passado, quem vai para as ruas em grande parte são jovens.

 

Contudo, observam-se muitos discursos e ações políticas, na mídia, na blogosfera e nas redes sociais, que atuam na produção de um discurso às vésperas das eleições e da Copa do Mundo, colocando, de um lado, o governo Dilma (desconsiderando o amplo leque ideológico de alianças) como "esquerda" e, por outro, Aécio (PSDB), Eduardo Campos (PSB) e os manifestantes nas ruas do Brasil (sobretudo os Black Blocs) como a “direita” ou “quem não quer o bem do Brasil”.

 

Esta visão, que nasce no seio governista, começou mais forte, aqui e ali, em especial desde junho de 2013, pois foi a forma dicotômica e maniqueísta que encontraram para politizar sua base social sobre as manifestações ocasionadas pela precária mobilidade da população, a falta de um projeto de reforma urbana e agrária, a gentrificação das cidades-sedes de megaeventos e a reação sobre a desmedida violência policial no Brasil.

 

Alguns membros do governo, governistas e outros “istas”, ao criticarem e colocarem todos “no mesmo saco”, como os manifestantes que vão às ruas protestar – os indígenas, a galera do “Não vai ter Copa”, “Copa para quem?”, coxinhas de direita, os Black Blocs, categorias de trabalhadores e outros -, pejorativamente tentam desqualificar e reprimir seus supostos opositores. Da mesma forma, muitos “oposicionistas” fazem isso com a coisa dos “PTralhas”, “CorruPTos”, “comunistas” e seus reclames pela perda pequena e gradual dos privilégios elitistas que tinham antes.

 

Esses grupos, ao fazerem isso e ao não realizarem a autocrítica sobre a sua ação política e a falta de diálogo com esses grupos sociais, não apenas estabelecem uma retórica contraditória, mas também estimulam a repetição e a banalização de uma atitude autoritária, o que, sob o reino do cinismo, como indica Safatle (2008), tende a gerar uma inércia na forma de agir, pois o sujeito se automatiza e reflete de uma forma banal sobre o seu próprio ato.

 

Isso se cristaliza na superexposição de algumas lutas pela mídia e pelas redes sociais, quase com caráter “sagrado”, e na desqualificação e criminalização cotidiana de outras lutas, criando estereótipos a partir de temas que acabam sendo pouco aprofundados, como, por exemplo, a questão da violência policial e do dito vandalismo: quem o produz, de fato, quem tem o poder oficial de exercê-lo, como o faz e com quais objetivos. O sistema elabora muitas armadilhas para a gente se confundir ou para nos ocuparmos fazendo coisas que até parecem interessantes, mas que não vão ao “X da questão”. Em relação a isso, Noam Chomsky, em um dos seus escritos, abordou as estratégias de manipulação das informações e da mídia.

 

A visão e o estímulo a uma leitura da realidade de forma dual e maniqueísta, entre esquerda e direita no atual estágio do capitalismo, parecem estimular uma cultura política rasa e estática na compreensão da realidade em relação às manifestações ou à eleição presidencial. Esse tipo de postura favorece uma visão idealizada, na qual quem parece não estar concordando com tudo que a "esquerda" está fazendo, necessariamente, faz o “jogo da direita”, que tem um modelo elitista e antissocial de governar. O estímulo à formação desse tipo de cultura política é bastante influente e se entrelaça com discursos de democracia, fazendo com que diretrizes conservadoras, autoritárias e excludentes se reconfigurem e se apresentem com um revestimento e um viés popular e democratizante (Zizek, 2013).

 

Além dos grandes meios de comunicação, as redes sociais estão sendo um território fértil para esse tipo de disputa, que gradualmente estimula uma visão muito, mas muito, restrita, e uma cultura política aparente e banal, que rememora em certa medida as peripécias e a forma de fazer política de Luís Bonaparte, relatadas em 18 Brumário de Karl Marx (aliás, os “bolados e políticos do facebook”, com suas postagens e eventos, me fazem lembrar dos dezembristas).

 

O poder social e econômico que rege as relações políticas nos governos não é só garantido por aparatos repressivos do Estado, como a nossa polícia repressora e defensora das elites, mas é garantido pela formação de hegemonia cultural a partir do controle do sistema educacional, das instituições religiosas e dos meios de comunicação. Essas instituições influenciam na formação e condicionamento de um conjunto de pressupostos, normas, crenças, valores e atitudes políticas inerentes e presentes em uma sociedade, quase espontâneas, formando blocos de poder.

 

Essa cultura política que se engendra em um conjunto de ações e relações, como as que levam a essa visão dual de Bem versus Mal na disputa eleitoral e na formação de opinião sobre quem poderá gerar as transformações e a igualdade social no Brasil, além de ocorrer na disputa eleitoral, passa pelos organismos sociais e políticos. Por exemplo, a escola, partidos, igreja, meios de comunicação, movimentos sociais, família etc. Nesse sentido, o que temos enquanto sociedade e democracia representativa, que elege os representantes pelo voto obrigatório, perpassa também a relação de cada pessoa com a política no dia a dia, a partir dos mecanismos de coerção e de consenso para o questionamento ou a manutenção da dominação de grupos restritos sobre a sociedade e as suas instituições. E nós, a todo o momento, mesmo achando que não, interagimos com isso, seja no off ou online.

 

Se limitarmos a nossa cultura e formação política a uma visão sectária e maniqueísta, tenderemos a fazer parte do jogo que dizemos negar. Sejamos francos, atualmente, qual dos (as) candidatos (as) que estão liderando as pesquisas para presidente oferecem uma discussão sobre uma transformação de sistema social, econômico e político, ou aborda efetivamente aspectos utópicos para um Brasil com igualdade e justiça social? É importante rememorarmos que os (as) candidatos (as) a cargos eletivos ao executivo e legislativo são sujeitos, como nós, que representam, nesse tempo e espaço, uma forma de ser e estar em nossa sociedade.

 

Lembrando: mesmo que nos façamos de desentendidos, por exemplo, com as cenas de barbárie, como os linchamentos, os casos recentes de justiça com as próprias mãos e os constantes abusos de autoridade das polícias no Brasil (os que são denunciados e noticiados) são componentes, em alguma medida, de uma cultura política dicotômica e maniqueísta sobre a sociedade que vivemos. Entretanto, na hora que acontece algo assim, todo mundo quer “lavar as mãos” perante a opinião pública e eximir-se do estímulo a essa política cotidiana.

 

O aparente é denso. Por mais que o sistema tenha inculcado em nossas mentes o individualismo e o consumismo nas relações humanas, coexistimos e convivemos em sociedade, onde somos todos responsáveis de alguma maneira pela vida que temos em conjunto, tanto pelos nossos atos como por nossas omissões. Assumir isso pode ser um primeiro ou um dos passos para outra forma de viver, diferente da atual. Além de rotular manifestantes ou eleger alguém, algumas questões podem ser necessárias e possíveis de ser pensadas, como: qual o Estado e qual democracia queremos? Estado e democracia para quê e para quem?

 

Sérgio Botton Barcellos, pesquisador, é doutor em Ciências Sociais pelo CPDA/UFRRJ.

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