Quem tem medo da Virada Cultural?

 

 

 

No fim de semana passado aconteceu em São Paulo a décima edição da Virada Cultural. Em parte significativa da cobertura da imprensa os comentários giraram basicamente em torno de um suposto crescimento da violência durante os dias do evento, dando mais destaque às ocorrências policiais que à Virada em si.

 

Dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que a média de ocorrências na área do evento, nos finais de semana, entre janeiro e abril deste ano, foi de 50,88 roubos. Durante a Virada, foram registradas 71 ocorrências. Embora o número seja superior à media, me parece que este está longe de ser o dado mais relevante a ser comentado a respeito do evento.

 

Nos dois dias que fui à Virada – sem atravessar toda a madrugada de sábado para domingo – não percebi essa tão alardeada sensação de insegurança. No sábado, vi o show da Baby no Palco Júlio Prestes, depois passei na Praça da República e assisti a um show de jazz. Em seguida, no Largo do Arouche, vi um pedaço do show da Kátia, cantando Roberto Carlos, e depois continuei caminhando pelo centro, fui até a Avenida Ipiranga, onde diversos grupos apresentavam coreografias de dança de rua. Estive também na Praça Roosevelt, onde grupos se apresentavam espontaneamente, fora da programação oficial.

 

No domingo, passei no Palco Braços Abertos, fui ao show do Luiz Melodia, na Júlio Prestes e, depois, pretendia ver o show da Céu, mas desisti por conta do temporal. Então fui ao Sesc Pompeia e peguei o final da apresentação das rodas de samba paulistano e ainda tive a grata surpresa de assistir a uma guerra de passinho e treme-treme e, em seguida, à apresentação de um grupo colombiano de afro/techno/funk.

 

Para mim, a experiência da Virada foi a de encontrar uma enorme diversidade de caras, cores, idades e jeitos, todo mundo dançando, conversando, curtindo, ocupando as ruas e praças da cidade. Uma multidão muito diferente da multidão-boiada nos metrôs e trens nos horários de pico, muito diferente da multidão que consome enlouquecidamente na Rua 25 de Março às vésperas do Natal. Uma outra multidão que, ao contrário do que muitos falaram, me pareceu bastante tranquila.

 

Também me chamou a atenção o serviço de limpeza, com grupos de varredores por toda a parte, recolhendo o lixo e dançando ao som do samba, do reggae ou do rock. No domingo, fui pra rua esperando encontrar sujeira e mal cheiro, mas surpreendentemente elas já estavam limpas. Assim como a limpeza, a organização e distribuição dos palcos também me pareceram melhores que em outras edições, sem muitos vazios entre um e outro.

 

Vale a pena destacar também a consolidação da Viradinha Cultural, que este ano ocupou a Praça Roosevelt. Amigos comentaram que crianças de várias partes da cidade e de classes sociais as mais diversas – que jamais se encontram – lotaram a praça, usufruindo uma programação de altíssimo nível. Também o Palco Braços Abertos, instalado na região da “cracolândia”, me pareceu uma iniciativa que sinaliza uma outra postura em relação àquele lugar: do abandono e criminalização para o acolhimento e tentativa de diálogo.

 

Numa cidade tão segregada e guetificada, a Virada é sinônimo de encontro. Evidentemente, por ser um evento que acontece uma vez ao ano, um espetáculo pontual, não dá conta de enfrentar nem de resolver as distâncias e conflitos que separam paulistanos, condenando-os no dia a dia a experiências tão restritas e limitadas de urbanidade. Diante da recusa de alguns em olhar para estas questões, fico me perguntando: a que serve uma leitura da Virada focada apenas na violência?

 

Raquel Rolnik, arquiteta e urbanista, é professora da FAU/USP.

Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

 

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