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‘A legalização da maconha é um processo que, inclusive por interesses econômicos, está em curso e é irreversível’ Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito e Raphael Sanz, da Redação   
Qui, 15 de Maio de 2014
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Até pouco tempo atrás vista como movimento de pouca importância na agenda política, inclusive progressista, a Marcha da Maconha ganha cada vez mais adeptos e influência. Mas enquanto o Uruguai legalizou a produção, consumo e venda da erva, e os argentinos fazem marchas com mais de 100 mil pessoas pela legalização, o Brasil ainda caminha a passos mais lentos no processo de desconstrução da fracassada ‘Guerra às Drogas’ – por sinal, cada vez mais renegada pelos seus próprios mentores, os EUA.

 

“A Marcha da Maconha cresceu também porque o debate está mudando internacionalmente. Os EUA já têm 20 estados que permitem a maconha medicinal, dois deles já legalizaram o consumo, o Uruguai legalizou agora, na Europa uma série de países já descriminalizaram a maconha... Portanto, o cenário internacional mudou, já não dá mais pra defender a atual política, ela não tem base científica nenhuma, resultado nenhum. Não dá mais pra esconder”, disse Julio Delmanto, do coletivo antiproibicionista Desentorpecendo a Razão (DAR), em entrevista ao Correio.

 

Na conversa, além de contextualizar o debate das drogas no cenário mundial e falar das marchas que percorrem dezenas de cidades, Delmanto, também um dos seus organizadores, destaca que a própria sociedade brasileira já tem outro nível de compreensão do debate da legalização das drogas. Apesar disso, lembra que existem fortes lobbies conservadores, especialmente na esfera institucional, o que ainda deixa incerto o ritmo do avanço dessa pauta. De toda forma, considera-a irreversível.

 

“Desde a decisão do STF de afastar a proibição da Marcha, ela vem crescendo claramente nas cidades. Mais do que isso, o peso no cenário político é muito maior. A marcha era ridicularizada, ignorada, hoje em dia é considerada um ator importante na discussão sobre drogas. As pessoas querem ouvir, saber quem são os militantes, a cobertura da imprensa ficou mais séria, os movimentos dão mais atenção e todo o processo faz com que as marchas se organizem mais e cresçam”, disse.

 

A entrevista completa com Julio Delmanto, feita em parceria com a webrádio Central 3, pode ser lida abaixo.

 

Correio da Cidadania: Primeiramente, como você avalia a Marcha da Maconha realizada em São Paulo, no dia 26 de abril?

 

Julio Delmanto: Eu a avalio como bastante positiva. É a primeira vez que São Paulo abre as marchas no Brasil. Teve uma em Atibaia, mas podemos dizer que São Paulo inaugurou o calendário das marchas. São mais de 30 cidades com marchas e neste ano aprofundamos questões que vimos colocando nos últimos. Aprofundou-se, sobretudo, a participação de outros setores sociais, com mais gente da periferia, de outros movimentos...

 

Diferentes pautas foram postas, a marcha está cada vez mais diversa, cada vez mais uma marcha com outras marchas dentro. Também aumentou em tamanho, pois estava bem grande. E a atuação da polícia foi bastante contida, penso que muito por causa de nossa organização na segurança.

 

Assim, acredito que foi uma marcha muito boa, abrindo as demais que ocorrem no Brasil. O debate está aberto e a mobilização foi importante.

 

Correio da Cidadania: Qual a expectativa em torno das demais marchas, realizadas em dezenas de outras cidades do país, nos finais de semana seguintes à marcha de São Paulo?

 

Julio Delmanto: Em geral, de crescimento, uma tendência que já acontece desde as primeiras marchas e, sobretudo, desde a decisão do STF, que afastou a sua proibição. Desde então, as marchas vêm crescendo claramente nas cidades. Mais do que isso, o peso no cenário politico é muito maior. A marcha era ridicularizada, ignorada, hoje em dia é considerada um ator importante na discussão sobre drogas. As pessoas querem ouvir, saber quem são os militantes, a cobertura da imprensa ficou mais séria, os movimentos dão mais atenção e todo o processo faz com que as marchas se organizem mais e cresçam.

 

A marcha do Rio fez blocos, com alas, desde diversidade feminista até contra a FIFA. Tudo isso faz com que a marcha tenha a cara de um movimento amplo, bem diverso, sob o consenso da legalização da maconha, mas que discute muito as outras pautas. A expectativa para esse “Maio Verde” é muito boa. Não só no Brasil. A Argentina acabou de ter manifestações com mais de 100 mil pessoas pela legalização. A pauta está muito forte no continente e no mundo.

 

Correio da Cidadania: Fazendo um apanhado histórico do coletivo que milita na organização da marcha e pela legalização do consumo de determinadas substâncias, como você descreveria a trajetória deste movimento e os obstáculos enfrentados?

 

Julio Delmanto: A trajetória do nosso movimento é em grande medida parecida com a de outros movimentos, que discutiam questões de esquerda, mas que não estavam na pauta tradicional da esquerda operária, trabalhista, de tomada do Estado etc., tais como os movimentos negro, feminista, da diversidade sexual... Nossa marcha nasceu nesse processo. Inclusive, as primeiras manifestações pela legalização ocorreram nos anos 80, quando outros movimentos, da chamada nova esquerda, se consolidavam. Mas a Marcha da Maconha, com esse nome, nasceu só em 2007, no Rio de Janeiro, organizada pela internet, uma coisa ainda meio clandestina. Em 2008, já estava em 12 cidades, sendo a maioria delas impedida de marchar, pela acusação de apologia ao crime.

 

Por quatro anos, até 2011, fomos proibidos, sendo que, nos três primeiros, a marcha acontecia no Ibirapuera, um movimento pequeno. Quando vimos que já tinham umas 700 pessoas, mais organizadas, decidimos enfrentar a proibição e fomos para a Avenida Paulista, naquele 21 de maio de 2011. Tentamos marchar, fomos bastante reprimidos e, se aquilo não nos matou, nos fortaleceu bastante. Fizemos outras marchas logo em seguida e teve a Marcha da Liberdade, em solidariedade, no Brasil inteiro. Depois, forçamos o STF a julgar nossa legalidade, o que era uma coisa meio óbvia, por se tratar do direito de manifestação. A partir daí, foi uma virada. Não só porque mostramos força, ganhamos a mídia nacional e diversos apoios, mas porque saímos da defensiva.

 

A partir de 2011, não marchávamos para poder marchar, como se dava em geral, e sim para propor. Propor o fim da ‘Guerra às Drogas’, novas políticas, a legalização da maconha, a discussão sobre quem é afetado pela própria ‘Guerra às Drogas’, discussão de outras substâncias, o sistema penal, a desmilitarização, o uso medicinal, enfim, a marcha está nesse momento de abrir muitos debates, interlocuções com muitos setores, atuando bem propositivamente.

 

De lá pra cá, a forma como as pessoas veem a marcha mudou na sociedade. Ou era vista quase como coisa de traficantes, um absurdo, ou como algo engraçado, ridículo. “Eles só querem fumar e se divertir”. Agora está ficando meio óbvio para as pessoas que não marchamos para poder fumar, porque já fumamos tranquilamente. Quem quer fuma. Não é essa a discussão. Queremos discutir os efeitos sociais da proibição, a interferência do Estado na vida das pessoas...

 

Na escala evolutiva, a marcha consegue fazer com que tais questões entrem na cena política do Brasil. Pode ser que ainda estejamos longe da mudança de fato, mas estamos muito mais próximos do que em 2007 e na época das primeiras marchas.

 

Correio da Cidadania: Nesse sentido, como você enxerga o nível do debate do antiproibicionismo na sociedade no atual momento, para além da própria marcha?

 

Julio Delmanto: O próprio crescimento da marcha é produto disso e também estimulou a mudança no debate. A marcha cresceu também porque o debate está mudando internacionalmente. Os EUA já têm 20 estados que permitem a maconha medicinal, dois deles já legalizaram o consumo, o Uruguai legalizou agora, na Europa uma série de países já descriminalizaram a maconha...

 

Portanto, o cenário internacional mudou, já não dá mais pra defender a atual política, ela não tem base científica nenhuma, resultado nenhum. Não dá mais pra esconder. E outros setores, nos últimos anos, começaram a participar de vez da discussão. Muitos deles por conta da projeção da marcha, interesses eleitorais, mas tudo bem. Um monte de gente tem entrado no debate, e são pessoas que falam com pessoas que não falamos. O Fernando Henrique fala com pessoas com quem não falamos. O PT, PSOL, PSTU falam com pessoas diferentes. Todos esses atores estão se envolvendo no tema.

 

Além disso, a marcha serve pra mostrar que o usuário não corresponde àquele estereótipo restrito que as pessoas têm em mente. O que tentamos colocar de forma clara é que ninguém é só usuário, ninguém se define por ser usuário de uma substância ou não. Pode ser usuário trabalhador, vagabundo, artista, criativo, enfim, não é por aí que se define a vida das pessoas.

 

A marcha tenta também um entendimento de que a ‘Guerra às Drogas’ é uma hipocrisia, ou seja, quem quer fuma, sabemos quem ganha, que só pobre está preso, que com o Perrella e os 500kg de cocaína em seu helicóptero não acontece nada... Está tudo ficando claro para as pessoas.

 

Temos feito atividades na periferia, em escolas, e antes as perguntas eram muito mais defensivas. ‘E se legalizar, todo mundo vai usar?’; ‘O motorista da van do meu filho vai fumar maconha e matar todas as crianças?’;  esse tipo de pergunta diminuiu muito.

 

Acho que as pessoas vêm tendo o entendimento de que a ‘Guerra às Drogas’ é uma piada, uma ficção, uma hipocrisia, que o usuário de maconha não é muito diferente do usuário de tabaco, álcool etc., e temos outras formas de conviver com isso.

 

Mas o fato de que existe um avanço claro não quer dizer que a situação seja fácil. Existem reações. Principalmente partindo do Congresso, da chamada bancada evangélica, de setores explicitamente conservadores. Eles têm dinheiro e interesses muito fortes na discussão. O debate avançou bastante, mas enfrentamos setores muito poderosos, com bastante peso institucional.

 

Dá pra fazer uma análise de que, no campo institucional, a situação ainda é bem difícil, retrógrada, conservadora, seja na justiça, nos congressos ou nas políticas públicas. Mas, no campo da sociedade, cada vez mais se caminha para uma abertura, um entendimento do antiproibicionismo. E penso que o processo é irreversível e forçará mudanças institucionais. Só precisamos saber em qual ritmo.

 

Correio da Cidadania: Acredita que a legalização da produção, comercialização e consumo da maconha no Uruguai tende a criar um efeito dominó, ao menos em países vizinhos, como o Brasil? Vê chances de, no curto ou médio prazo, o Estado brasileiro mudar sua forma de lidar com a questão das drogas?


Julio Delmanto: Penso que, em alguma medida, isso está em curso. Mas o Estado, antes de tudo, é o Estado. Não podemos esperar grandes coisas desse instrumento de dominação e manutenção das desigualdades. Além disso, especificamente no caso brasileiro, é um Estado bastante dominado pelos interesses morais, evangélicos, ou dessa extrema-direita bizarra, que emperram as discussões.

 

Mas, como dissemos, o processo está em curso, não só no Uruguai, mas nos EUA, o país que inventou a proibição e que está mudando por dentro. É um processo que, inclusive pressionado por interesses econômicos e outras questões, está em curso e é irreversível. Em maior ou menor intensidade, já afeta, e continuará afetando, o Brasil.

 

Até porque, com o Uruguai seguindo esse caminho, todos verão os resultados. Vão aumentar os índices de tratamento, o nível de informação, como no caso dos dados que vêm de Portugal, Espanha e outros países que tentaram alternativas menos proibicionistas.

 

Certamente, será um elemento muito importante de mudança nas políticas. E caminhará junto do movimento social, que está cada vez mais forte e difícil de ser contido. Não dá mais pra ignorar que, a cada ano, cada vez mais milhares de pessoas estão saindo às ruas para demandar a legalização e fumar maconha na cara da polícia, para praticar a desobediência civil, como se faz nos parques, shows, escolas e todos os lugares.

 

O processo é irreversível e o que vai determinar sua velocidade é o embate entre as forças em luta, os conservadores que ganham com a atual situação e os insatisfeitos, que vêm de baixo. Cedo ou tarde, a mudança está no horizonte.

 

Confira aqui o áudio da entrevista.

Gabriel Brito e Raphael Sanz são jornalistas.


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Última atualização em Sexta, 23 de Maio de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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