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“Eles estão roubando vocês!” Imprimir E-mail
Escrito por Giulia Afiune, Agência Pública   
Segunda, 12 de Maio de 2014
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“Conseguir um ingresso para a Copa do Mundo é ganhar na loteria”, resume o jornalista britânico Andrew Jennings, parceiro da Pública, ao falar de seu novo livro “Um jogo cada vez mais sujo”, lançado no Brasil no dia 5 de maio pela Panda Books. A FIFA novamente é o alvo das investigações de Jennings, desta vez focadas na distribuição de ingressos por sorteio, anunciada para os torcedores e que, segundo ele, esconde um mundo de negócios sujos, mercado negro e troca de favores. O repórter também revela outros negócios ilegais que enriqueceram dirigentes da FIFA, incluindo os brasileiros Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF e do Comitê Organizador Local) e João Havelange (ex-presidente da CBF e da FIFA).

 

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Andrew Jennings revela esquema ilegal de venda de ingressos
para a Copa do Mundo (Foto:
o.canada.com)

 

Com um estilo descontraído e irônico, Jennings conta quem são os irmãos mexicanos Jaime e Enrique Byrom, donos do grupo Byrom PLC, acionista majoritário da Match Services e da Match Hospitality, prestadoras de serviço para FIFA. São eles que controlam todos os negócios relacionados a ingressos, acomodações e hospitalidade nas Copas do Mundo da FIFA. E fazem mais: no livro, o jornalista prova que nos mundiais da Alemanha, em 2006, e da África do Sul, em 2010, os Byrom forneceram ingressos para o vice-presidente da FIFA Jack Warner vender no mercado negro, em troca de votos que os favoreciam no Comitê Executivo da FIFA.

 

Jennings recebeu e-mails do advogado dos Byrom, ameaçando processar jornalista e editora, mas não pretende se calar. “Eu disse que se eles continuassem, ia publicar os documentos”, contou o jornalista em entrevista à Agência Pública, em que detalha os negócios ilegais relacionados aos ingressos e os motivos que fazem da Copa do Mundo um pote de ouro para a FIFA e os patrocinadores, sem trazer benefícios para o torcedor.

 

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Capa do novo livro de Andrew Jennings
“Um Jogo Cada Vez Mais Sujo” (Foto: Reprodução)

 

No livro você mostra os negócios entre os irmãos Byrom e o vice-presidente da FIFA Jack Warner nas Copas de 2006 e 2010. Em linhas gerais, como esses negócios funcionam?

 

Existe um mundo negro que os fãs do futebol não conhecem, que é o mundo dos negócios de ingressos. Há 209 associações nacionais de futebol na FIFA, como a CBF, no Brasil. Algumas são bem honestas, mas a maioria não é. As associações nacionais pedem ingressos aos Byrom, que os fornecem em nome do Blatter (presidente da FIFA) e da FIFA. Os negociadores de ingressos do mercado negro vão até essas pessoas em diferentes países da África, da Ásia, alguns da Europa – especialmente os do antigo bloco soviético – e conseguem os ingressos com eles.

 

Em 2006 na Alemanha, eu revelei que eles estavam vendendo milhares e milhares de ingressos para Jack Warner, que agora está sendo forçado a sair da FIFA. Foi uma grande história, uma grande confusão, e eles fizeram isso de novo em 2010! O Warner, (presidente) da União Caribenha de Futebol, solicitou ingressos (por e-mail) mas copiou um negociante na Noruega! Então os Byrom sabiam que Jack estava comprando deles em nome do cara na Noruega. E eles copiam a correspondência para a FIFA e para a Infront, empresa do Philippe Blatter (sobrinho do presidente da entidade). Então todos eles sabem o que está acontecendo.

 

Na Alemanha, eles tiveram muito lucro, mas na África do Sul esse mercado entrou em colapso porque ninguém queria ir para lá. É por isso que o escritório de ingressos dos Byrom estava entrando em contato com o Jack e com a Noruega, dizendo: “se vocês não mandarem o dinheiro logo, nós cancelamos seus ingressos”. O Jack Warner estava comprando os ingressos em nome do cara do mercado negro na Noruega e os Byrom precisavam lhe dar ingressos porque ele controla pelo menos três votos no Comitê Executivo da FIFA: se Jack quer ingressos, ele ganha ingressos. E o que dá em troca é que ele e os amigos votam em você para que consiga todos os contratos dos ingressos.

 

O que nós não sabemos é: que outros membros do Comitê Executivo ganham ingressos nessa escala?

 

Os Byrom conseguem os ingressos por meio do contrato que a FIFA tem com a Match?

 

Não, a Match é hospitalidade. Existem três diferentes contratos entre os Byrom e a FIFA. Um é para os 3 milhões de ingressos para todos os jogos que vocês vão ter no Brasil nos próximos meses. Esses ingressos são para pessoas como eu e você ficarmos nas arquibancadas de concreto gritando e torcendo pelos times. Outro é para acomodação, porque nós estrangeiros e vocês brasileiros de outras cidades precisam de um lugar para ficar. Assim, os Byrom reservam uma grande quantidade de quartos, perto da Copa do Mundo percebem que não venderam todos e começam a se livrar deles.

 

A terceira coisa é a Match Hospitality, da qual os Byrom são acionistas majoritários, da qual o Philippe, sobrinho do sir Blatter, tem 5% e outros grupos também têm ações... A Match é responsável pela hospitalidade, que são aqueles grandes e caros camarotes de vidro nos estádios, todos novos, pagos, em sua maioria, pelos contribuintes. Tem muito dinheiro na hospitalidade. Eu acho que vai ser um desastre porque essas pessoas não vão vir, mas isso é outra questão.

 

O que os pacotes de hospitalidade oferecem e para quem eles são vendidos?

 

Você pode ver no artigo eu fiz para a Pública: A hospitalidade é um bom translado para o estádio, muito espaço, comida, bebidas...Você pode comprar até as mais luxuosas suítes-hospitalidade, com uma parede de vidro para que possa assistir um pouco do jogo de vez em quando, quando você não está fazendo negócios, onde você não precisa se misturar com as pessoas comuns. Imagine ficar na mesma bancada que todos esses brasileiros? Urgh.

 

Está tudo no site deles, com preços astronômicos. Quem compra esses pacotes são pessoas muito ricas que levam seus amigos, executivos e empresas que levam seus melhores clientes ou seus melhores vendedores, como uma espécie de prêmio. O alvo é o mercado corporativo, é uma hospitalidade corporativa.

 

Os contribuintes pagaram por esses camarotes de vidro luxuosos, mas vocês não podem comprar esses pacotes. Você pode ter sorte na loteria e conseguir um ingresso para ver um jogo, mas não vai ter dinheiro para esse camarote, a não ser que seja um brasileiro muito rico do mundo dos negócios.

 

A FIFA argumenta que a Match ter o controle exclusivo das vendas de ingressos e de pacotes de hospitalidade impede vendas não autorizadas. Isso é verdade? Por que é interessante para a FIFA manter esse esquema?

 

Isso é uma besteira. Os Byrom controlam todos os ingressos. Você vai no site da FIFA e encontra todo tipo de lixo sobre impedir as vendas não autorizadas, o que é ridículo, porque todo ingresso vem da porta do fundo dos Byrom. Eu não consigo imprimi-los, você também não. Muitos ingressos são impressos na última hora, porque agora nós não sabemos que time vai jogar na segunda fase e em qual estádio.

 

Ouve-se um monte de lixo sobre como você deve comprar deles, se não você pode ter o ingresso rasgado na entrada do estádio. Se você compra exclusivamente dos Byrom ou de seus amigos, vai entrar. Mas o Warner estava comprando ingressos para outras pessoas! Ele não queria 5 mil ingressos para assistir a Copa da Alemanha, era para colocá-los direto no mercado!

 

A FIFA diz que está policiando esse mercado paralelo de ingressos, mas não está. É como um padre que olha para o outro lado!

 

E os líderes da FIFA também lucram com esse esquema?

 

Nós não podemos provar. Eu valorizo muito os documentos. Eu ouço histórias, vejo como Jack Warner se safou com milhares e milhares de ingressos. Será que outros líderes da FIFA fazem negócios semelhantes? É legítimo fazer essa pergunta, mas nós não temos prova.

 

Os Byrom controlam todos os ingressos para a Copa do Mundo no Brasil. Os parceiros comerciais deles aqui são o Grupo Traffic e o Grupo Águia, que, como você mostra, têm ligações comprovadas com a CBF e o Ricardo Teixeira. O que isso sugere?

 

No caso dos ingressos, o Teixeira forçou os Byrom a terem parceiros brasileiros para que seus amigos pudessem ganhar uma fatia. Por isso esses grupos têm alguma ação. Você encontra as referências à Traffic se olhar os relatórios do senador Álvaro Dias (relatórios finais da CPI da CBF, elaborados em 2001) - volume 1 –  volume 2volume 3volume 4.

 

Isso significa que o povo brasileiro está excluído. Vocês estão pagando pela Copa do Mundo e para vocês é dito que os ingressos vão ser distribuídos de forma justa. Depois, descobre-se que todo tipo de atividade ilegal relacionada aos ingressos está acontecendo.

 

No livro, você faz uma analogia entre a pilha de ingressos para a Copa do Mundo e um iceberg, mostrando que apenas a ponta está disponível para os torcedores, enquanto, embaixo d’água, o resto é vendido por meio de negócios ilegais. Então, o documento em que a FIFA explica a distribuição dos ingressos é falso?

 

Sim, porque existe um mercado negro. E se você está comprando um ingresso de mercado negro, ele pode vir de um país africano, ou de outro lugar. A FIFA fala sobre a ponta do iceberg, mas o fato é que existe um outro mundo sombrio embaixo da superfície, onde existe um imenso mercado de ingressos.

 

Qual é a chance de um brasileiro que ama futebol assistir o Brasil jogar no estádio na Copa do Mundo?

 

Gaste o seu dinheiro em uma televisão. Eles não colocam todos os ingressos na loteria! Você não pode acreditar nos gráficos, porque não há como checá-los! Os Byrom têm todas as estatísticas! Você pode checar o que o governo está fazendo, porque se conseguem os números, mas os Byrom não precisam publicá-los. Se eles dizem que 100% dos ingressos estão na loteria, você nunca vai provar que isso não é verdade.

 

Os ingressos do mercado negro são vendidos apenas para pessoas ricas ou para pessoas comuns também?

 

Pessoas como Jack Warner comprariam ingressos, mas ele os venderia para empresas que os colocariam em pacotes com voos e acomodação. Se você fosse um turista na Copa do Mundo da Alemanha ou da África do Sul, viajaria no voo que eles reservaram, ficaria no quarto que eles reservaram. Mas olharia no seu ingresso e veria que, em vez do seu nome, está escrito “Fred Smith”. Todo ano você ouve que eles vão checar os passaportes, mas nunca fazem isso. Isso faz parte da farsa de dizer que, se você não tem seu nome no ingresso, está em apuros. É uma grande mentira.

 

O Ricardo Teixeira e o João Havelange (ex-presidente da CBF e da FIFA) têm relação com esse esquema?

 

O que nós sabemos é que, antes de forçarmos o Teixeira a sair, ele estava no Comitê Organizador Local, que fazia de tudo: ingressos, estádios... Eu não sei qual fatia o Havelange ainda consegue. Ele tem 96 anos. Mas Ricardo estava lá desde o começo. Ele preparou tudo, os negócios, tudo que tinha a ver com a Copa. Nós o forçamos a sair apenas por escândalos externos, ele não esperava por isso. Então você pode atribuir a ele tudo que está errado com a Copa, porque antes de sair todos esses contratos já estavam sendo arranjados, não são contratos novos. Ele diz que não tinha controle sobre o que estava acontecendo. Ah, por favor…

 

O que você descobriu sobre o Ricardo Teixeira?

 

Eu investiguei as propinas dele na Suíça e os relatórios do Álvaro Dias (da CPI da CBF). As investigações nos relatórios provam que Teixeira é um grande ladrão. Eu li todas as 500 mil palavras com a ajuda do Google Tradutor (risos). Você tem que cometer um ato muito criminoso antes de entrar em uma máfia. Eu estaria errado se dissesse que a FIFA deu a Copa do Mundo para o Brasil. Isso é besteira. Blatter deu a Copa do Mundo para o Teixeira. Não a FIFA, o Blatter. São coisas diferentes.

 

A FIFA é uma máfia, uma família de crime organizado. No livro, eu mostro que ela não é uma organização legítima. Os líderes são ladrões, dividem tudo entre eles e estava na hora de dar ao Ricardo a sua Copa do Mundo. A CBF estava falida e isso provou ao Blatter que Teixeira era justamente o tipo que ele queria para organizar a Copa do Mundo.

 

Que pessoas e organizações lucram com a Copa do Mundo?

 

Vocês contribuintes pagam por ela. A FIFA consegue lucrar com a bilheteria. Todo o dinheiro da FIFA vem da Copa do Mundo, é sua grande fonte de renda. Nos outros torneios, como futebol feminino, sub-17, sub-21, eles perdem dinheiro. Mas eles precisam fazê-los para mostrar que são inclusivos. O Valcke prevê que a FIFA vai ganhar US$ 2,7 bilhões com a Copa, os brasileiros ficam bravos e ele responde: “Mas nós estamos colocando tanto dinheiro de volta”. Isso não é verdade. Quando um quarto de hotel é alugado, isso não é colocar dinheiro, é alugar um quarto de hotel!

 

Os patrocinadores, como McDonald’s, Visa, Samsung e outros conseguem uma maravilhosa isenção fiscal de 12 meses pela “lei da FIFA”. O Romário lutou contra ela, mas a Dilma forçou sua aprovação. A isenção fiscal para eles é um fardo para vocês. Se eles não pagam os impostos, vocês pagam. Eles estão roubando vocês! Essas empresas, como a Coca-Cola e a Samsung, estão vendendo produtos e não há impostos! Não tem motivo! Se eu for começar uma empresa em São Paulo, eu tenho isenção fiscal? Não, não tenho.

 

Portanto, a Copa do Mundo é um pretexto para eles lucrarem?

 

Eu acho que nós poderíamos ter um campeonato mundial de futebol sem eles. Nós não precisamos desse nível de pessoas não transparentes só se preocupando com eles e com seus associados comerciais. Só o dinheiro da venda dos direitos televisivos, que você conseguiria legitimamente, é suficiente para pagar pela Copa do Mundo. As emissoras pagam uma fortuna para transmitir. Não precisa de negócios por baixo dos panos com patrocinadores ou isenções fiscais especiais.

 

Baixe aqui um trecho exclusivo do novo livro de Andrew Jennings “Um jogo cada vez mais sujo”

 

Saiba mais:

Transparency in Sport – site do jornalista Andrew Jennings

Conexões perigosas: A Copa do Mundo e a Match Services

Os negócios da Match, fornecedora da Fifa na Copa da África e do Brasil

Eles vão tomar champanhe no Maracanã

Andrew Jennings: Como eu ajudei o FBI a investigar a FIFA

Conversa Pública com Andrew Jennings, inimigo número 1 da FIFA


Giulia Afiune é jornalista e colaboradora da Agência Pública de Jornalismo Investigativo, onde esta entrevista foi originalmente publicada.

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Última atualização em Qui, 29 de Maio de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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