Educação na lata

 

 

Thomas Mann, pela boca de um personagem diabólico, diz que um dos tormentos do inferno é fazer o condenado sentir calor, calor, calor... obrigando-o a encontrar um canto frio... e nesse canto ele começa a sentir frio, frio, mais frio... e volta a buscar o calor. A fuga alternada desses extremos torna a alma eternamente infeliz.


As famosas “salas de lata” de escolas municipais e estaduais de São Paulo são gélidas no inverno, quentíssimas no verão, e, quando chove, produzem um barulho infernal que o próprio demônio não previu...


Evidentemente, a versão oficial minimiza os males, lança cortinas de fumaça, diz que o inferno não é tão feio como se pinta... ou como se fotografa. Quem acompanha os noticiários, e lê as justificativas dos que governam, chega a pensar que essas confortáveis salas deveriam ser mantidas, mas depois descobre que são criticadas por todos, inclusive por aqueles que demoram a eliminá-las.


No último dia 21 de março, o prefeito Gilberto Kassab visitou a Escola Municipal Cacilda Becker, bairro do Jabaquara. Foi verificar a substituição “de sala metálica” — a preposição “de” produz ambigüidade: era uma sala, eram dez? — por instalações de alvenaria, e a construção de banheiro masculino para funcionários (antes não havia esse banheiro?). A notícia aparece agora, mas durante quanto tempo os problemas foram ocultados, sobretudo ao longo das campanhas políticas?


No Boletim Informativo da Subprefeitura dos bairros de Santana/Tucuruvi (outubro de 2006), a manchete é “Salas de lata? Nunca mais!”. O texto afirma que essas salas eram um pesadelo para alunos, famílias e professores. No entanto... em 2005, a secretaria de estado da Educação, em plena gestão Alckmin, defendia as salas de metal: “têm bom isolamento térmico, ventilação e iluminação basicamente idênticas às das escolas de alvenaria...”. Ora, então por que substituí-las? E por que a promessa de que deixariam de existir em 2003, em 2004, em 2005, em 2006...?


A idéia diabólica nasceu com Celso Pitta (1997-2001), Marta Suplicy (2001-2005) não desarmou o calvário de 30 mil alunos, e a gestão Serra/Kassab (2006...) vai fazendo o que pode. Todos eles, seja qual for o partido, seja qual for a desculpa, demonstram com esta morosidade e belos eufemismos em que lugar a educação se encontra em sua lista de prioridades.


Quantas aulas na lata terão contribuído para o péssimo aproveitamento dos alunos nesta década perdida!

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

Web Site: www.perisse.com.br

 

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