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Depois de Odessa Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Sexta, 09 de Maio de 2014
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Ninguém duvida que a motivação da Rússia, dos EUA e da União Europeia na crise ucraniana é o interesse de cada um. Para a Europa, vale muito a pena ter a Ucrânia na sua comunidade pela imensa produção de cereais e poderosa indústria pesada.

 

Os russos estão criando uma réplica à comunidade europeia: a união de nações ex-soviéticas, que, por enquanto, conta apenas com a Bielorrússia e o Cazaquistão, além dos russos, é claro. A entrada da Ucrânia seria essencial.

 

Finalmente, os EUA esperam que uma Ucrânia integrada na União Europeia fatalmente também entre na OTAN. Como a OTAN obedece a Washington, Putin ficaria diante da nada agradável situação de ter armas norte-americanas apontadas para Moscou, encostadas no território russo.

 

Aliás, o general Breedlove, comandante da OTAN,  acaba de pedir o posicionamento das suas  tropas nas fronteiras dos países ex-membros da União Soviética  com a Rússia.

 

No entanto, Rússia,  de um lado, europeus e estadunidenses, do outro, alegam que seu comportamento é ditado por razões altruístas, em defesa do povo da Ucrânia, contra as violações dos direitos humanos, das leis, da ética etc. – pela  parte adversária.

 

Querem obter a aprovação da opinião pública mundial e dos seus países. Contam com a imprensa para colaborar, inclusive torcendo a verdade, se necessário. Não é por outra razão que Putin premiou como heróis 300 jornalistas que estariam, no dizer dele, cobrindo os incidentes ucranianos da maneira mais imparcial e competente.

 

Afinal, nada mais justo, pois sem eles, o premier russo não teria aumentado seu índice de aprovação popular para espantosos 82%, conforme recente pesquisa. No Ocidente, a grande imprensa também  mereceria louvores do establishment por seu trabalho.

 

Na cobertura dos conflitos, está certo que ela não deixou de mencionar o uso de porretes, armas de fogo e a invasão de prédios públicos pelos rebeldes - mas deu destaque especial às violências das forças de segurança.

 

Tem algum sentido já que o governo teve maior responsabilidade na estatística de mortos e feridos. O que talvez até justificaria um impeachment, se fosse promovido através do processo definido pela Constituição ucraniana: acusação, revisão pela Corte Constitucional de Justiça e, finalmente, aprovação por 3/4 dos parlamentares – exatamente 338.

 

Nada disso aconteceu. Depois de firmado um acordo com o governo (aprovado por EUA, Europa e Rússia), a oposição, pressionada pela multidão na praça Maidan – por sua vez insuflada por milícias fascistas –, voltou atrás.

 

A estas alturas, sob ameaça dos rebeldes de atacarem a casa do presidente, todos os guardas fugiram e Yanukovich seguiu seu exemplo – que ele não é nenhum herói. Foi para a segura Karkow, a segunda maior cidade do país, onde recebera 20% mais votos do que a oposição na última eleição presidencial.

 

Diante disso, os deputados da oposição, com os adeptos do governo morrendo de medo da multidão, votaram a queda do presidente. A alegação foi que Yanukovich “fugira a seus deveres de uma maneira inconstitucional”…

 

A grande mídia considerou que tudo foi legal ou, ao menos, resultado de uma revolução do povo ucraniano. Não exatamente.

 

Embora, em Kiev e algumas outras cidades, tenha havido manifestações, barricadas e derrubadas de autoridades, deixando claro o apoio das maiorias locais, no Sul e no Leste não aconteceu o mesmo. Seus habitantes, 40% do povo ucraniano, não participaram da queda de um governo que haviam eleito. Ninguém perguntou se eram favoráveis, coisa a que tinham direito já que vivem num país democrático.

 

Posteriormente, a Criméia foi anexada à Rússia, por um referendo com maciça aprovação do povo. Por sinal, de todo o povo da região, que foi chamado às urnas. Tropas russas tinham sido mandadas para garantir a tomada das bases militares do governo. O povo da Criméia decidiu com liberdade total. A imprensa ocidental, enviada para cobrir o referendo, não viu indícios de pressão russa.

 

Em seguida, várias regiões de maioria étnica com origem russa se rebelaram contra o governo. Suas reivindicações não estão muito claras. Algumas pedem a federalização do país, conferindo-se maior autonomia às regiões. Outras, anexação à Rússia.

 

Estão fazendo a mesma coisa que os revolucionários pró-Europa: barricadas, ocupação de prédios públicos, manifestações de massa. Imediatamente, a grande mídia afirmou que soldados russos lideravam as milícias insurretas. Mas  dois repórteres enviados pelo New York Times para flagrar tudo afirmaram que não era verdade: não havia russos, no máximo ex-soldados ucranianos do tempo do extinto exército vermelho.

 

A estas alturas, o Ocidente estava deitando e rolando. Segundo seus dirigentes divulgavam pela imprensa:

 

- A revolução fora legítima, contra um Yanukowicz corrupto, que massacrava o povo na praça Maidan;

 

- O referendo da Criméia e a anexação à Rússia eram ilegais;

 

- A Rússia estava intervindo militarmente, apoiando os rebeldes, chamados de terroristas pelo governo de Kiev - talvez por coincidência, o mesmo artifício usado pelas ditaduras síria e egípcia para demonizar seus adversários;

 

- Embora os fascistas dos movimentos Svoboda e Setor da Direita tenham atirado com armas de fogo, matado policiais e fiéis ao governo, eles eram minoria na praça Maidan;

 

- O governo de Kiev era democrático e moderado,  enfrentava os separatistas de forma legítima, respeitando os direitos humanos.

 

Falando sério, com uma ou outra exceção, estes fatos eram, no máximo, discutíveis. Inquestionável, somente a brutalidade das forças de segurança e milícias pró- regime deposto.

 

Enquanto isso, as forças que fizeram a revolução e o governo resultante são pintados como autênticos good guys, empenhados em criar uma Ucrânia unida e feliz, contra o sinistro Putin e seus sequazes.

 

Mas, aí aconteceu o bárbaro massacre de Odessa.

 

Odessa é uma cidade dividida entre os grupos a favor e contra o governo de Kiev. No dia 2 de maio, uma grande passeata pró-Kiev cruzou com uma concentração de oposicionistas. O conflito foi inevitável.

 

Em menor número, os adversários do governo refugiaram-se num prédio da união dos sindicatos. A multidão legalista perseguiu-os, atirando coquetéis Molotov que provocaram um incêndio no prédio. Os que tentaram fugir da morte pelo fogo foram alvejados por atiradores do lado de fora. Vê-se um vídeo no qual um homem, com um colete azul, atira várias vezes contra as pessoas no prédio em chamas.

 

A polícia do governo assistiu a tudo, sem intervir. No fim da tragédia, 40 oposicionistas estavam mortos, queimados pelo fogo ou alvejados a bala. Só aí a polícia do novo governo agiu. Limitou-se a prender  67 dos perseguidos que conseguiram se salvar do incêndio.

 

Nem um único dos assassinos foi preso. A  grande mídia e o governo dos EUA condenaram severamente esse conflito que perdeu tantas vidas.

 

No Brasil, os noticiários de Rádio, TV e jornais principais foram no mesmo caminho. Como se as vítimas pertencessem aos dois blocos, sem nenhum deles ser apontado como o culpado. Só vi uma ou outra rara menção, perdida no meio de pequenos textos, informando que os mortos eram, em geral, separatistas. Mas nenhum jornal ou TV atribuiu à multidão pró-Kiev a autoria do bárbaro crime.

 

No dia seguinte, 2.000 oposicionistas invadiram a sede da polícia e obrigaram a soltura dos presos.  O governo demitiu a polícia de Odessa por não ter evitado o atentado, mas também pela libertação dos 67 oposicionistas. Nem falou em punir os responsáveis por um incêndio criminoso e pelo atraque aos que procuravam se salvar de uma morte terrível.

 

Desse jeito, não ficou longe das posturas repressivas de Yanukovich.

 

Depois de Odessa, ninguém mais pode ter muito respeito por um governo que coonesta ações de um tal nível de selvageria. Depois de Odessa, não é mais possível dizer que são o Bem e o Mal que estão em luta na Ucrânia. Good guys não queimam pessoas.

 

Já que as coisas são assim, acho que só um acordo, com concessões recíprocas, resolveria a questão. Embora Kiev insista em chamar os rebeldes de separatistas, o mais provável é que eles queiram a federalização da Ucrânia – como os russos, aliás, têm defendido.

 

Nesse sistema, as regiões teriam autonomia, dentro de uma Federação Ucraniana. Até onde iria esta autonomia é o problema.

 

É de se crer que as regiões ucranianas com maioria étnica russa gostariam de ter direito a celebrar acordos econômicos com outros países. Leia-se, Rússia. Não sendo possível, poderiam insistir numa cláusula, que impediria o posicionamento de tropas da OTAN  em seus territórios.

 

Apesar das ameaças ocidentais de sanções realmente pesadas, é difícil que aconteçam. A Europa não toparia ir longe demais.

 

O volume dos seus negócios com a Rússia é 12 vezes maior do que o dos norte-americanos. Ela não quer arriscar esses lucrativos negócios e poderia levar os europeus de volta à recessão da qual começam a sair. E, se a Rússia cortar o fornecimento de gás à Ucrânia, vai, no próximo inverno, congelar as pessoas e a economia locais.

 

Depois de Odessa, o governo de Kiev, e a Europa e os EUA por extensão, perderam moral e vão ter de parar de demonizar Putin e entrar em acordo com ele.

 

Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

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Última atualização em Segunda, 12 de Maio de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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