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Por que Paulo Malhães foi o Herói da Direita brasileira? Imprimir E-mail
Escrito por Leonardo Soares   
Sexta, 09 de Maio de 2014
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Paulo Malhães não disse tudo antes de ser assassinado.  Além de assassino, torturador, mentiroso e terrorista, ele também era um livre empreendedor. Ele acabou não confessando uma outra faceta da sua doentia e aterradora personalidade: além de tudo acima citado, ele também era um Liberal.

 

Sim, ele era um Liberal! Talvez não por convicção, é muito improvável que ele fosse um arguto leitor de Locke, Smith, Ricardo, Hayek, Friedman, Campos ou Merchior. Mas era um liberal por instinto. Ele era um liberal em ato. Um liberal prático, que colocava à prova a sua teoria nas ações de espancamento e execução dos seus opositores – os que acreditavam que a liberdade democrática é mais importante que a liberdade do Capital. E era Liberal também na medida em que arregaçou as mangas – e pistolas – para livrar a região onde morava da bandidagem.

 

Malhães era em tudo coerente (em pensamento, ação, omissão) com o regime ditatorial de que foi fruto e um dos grandes fomentadores. Toda a prática voltada para retirar a vida de homens e mulheres, de maneira torpe e brutal, seguia um macabro roteiro que começou a ser articulado bem antes do Golpe de 64 e já vinha sendo experimentado nos porões de delegacias policiais, matagais e rios da Baixada Fluminense.

 

Com seus crimes e “justiçamentos”, Paulo pôs para funcionar um conjunto macabro de práticas de aniquilamento de grupos e figuras do que o Sistema entendia na conjuntura como sendo o grande mal, a grande ameaça à boa sociedade, o elemento subversivo, agitador, nefasto e terrorista.

 

Tortura e torturador: frutos de um Estado terrorista


Mas Paulo fez questão de afirmar que nada foi feito solitariamente. Ele demonstra que, longe de ser um ato solitário ou à revelia dos altos escalões, as práticas de tortura seguiam uma rígida diretriz ditada por uma linha de comando que ligava os carniceiros das masmorras do regime à alta cúpula do regime ditatorial.

 

Várias execuções – inclusive de agentes de antigos colaboradores da ditadura – foram decididas pela chamada “comunidade de informações”. Sobre as torturas, ele declarou à Comissão da Verdade que “ele (o ministro) era sempre informado. Estava sabendo. Relatórios eram feitos e entregues ao chefe da seção”.

 

E Malhães não era o único. Todos já sabem. Mas não resta mais dúvidas de que eles eram exaustivamente treinados, preparados e instruídos para massacrar e trucidar cidadãos brasileiros pelo próprio aparato do Estado. Portanto, a tortura e o extermínio de militantes políticos não foram de maneira alguma atos arbitrário de psicopatas, mas sim uma política de Estado. Este trecho do insuspeito O Globo (órgão que foi ardoroso apoiador da “Revolução Redentora de 1964”) é bastante ilustrativo:

 

[Em fins da década de 60] “A guerra suja, que resultaria em morte e desaparecimento de mais de 300 pessoas, começava naquele momento. E Malhães, jovem oficial que anos antes aderia aos golpistas que derrubaram o presidente João Goulart, era a essa altura um quadro qualificado. Após passar pelo Centro de Ensino de Pessoal (CEP), que qualificou alguns dos mais notórios torturadores do regime, Malhães foi requisitado pelo Centro de Informações do Exército (CIE)”.

 

Paulo Malhães (mas não só ele) foi um dos agentes do regime de terror implantado pelo consórcio empresarial-militar que “melhor” incorporou o espírito que move todo um sistema de dominação (ao mesmo tempo ideológica, social e política), baseado na mais desbragada e selvagem opressão e extermínio de grupos tidos como inimigos. Por um tempo, o mal era encarnado por militantes e agentes subversivos da esquerda, cuja localização era mais difusa, espalhados que eram em células clandestinas, em alguns grandes centros urbanos, mas invariavelmente filhos de classe média. Esse era o alvo dos Malhães das décadas de 60 e 70.

 

Na mesma matéria do pasquim neoliberal, Adriano Diogo, deputado petista e presidente da Comissão Estadual da Verdade de SP, faz uma declaração bem sintomática. Segundo ele,

 

“Ainda não sabemos o que aconteceu direito. Mas o Malhães era um cara importante dentro da estrutura da ditadura. A impressão que dá é que a ditadura não acabou. Essa página da História do Brasil ainda não foi completamente virada. Dá a impressão de que a morte dele foi algo pensado”.

 

Mas Adriano erra feio num ponto. A tal "página da ditadura" nem começou a ser virada para as populações das favelas, periferias, morros, prisões e casebres desse país. Ela, ao contrário, parece estar a cada dia maior, mais pesada e encharcada de sangue.

 

Essa tal "página da ditadura" nunca fez parte do passado para esses segmentos da sociedade. Ele continua fazendo parte do cotidiano de medo, terror, impunidade e covardia patrocinados pelo Estado e impostos com brutalidade e violência contra tais populações. Num cenário que enche de gozo e satisfação as elites brancas, limpinhas, cheirosas e decentes desse país.

 

E era na atuação exemplar de Malhães em relação a esses atributos que se mostra com aterradora clareza os liames que unem a repressão aos militantes políticos da esquerda durante a Ditadura e a repressão às classes perigosas (pobre e negra) nos dias atuais. Uma levou à outra. Para a alegria de nossa asquerosa Direita, a macabra máquina de extermínio patrocinada pelos agentes terroristas nunca deixou de funcionar. Só foi radicalmente redirecionada para outros alvos, de tonalidade mais escura.

 

Quando matar é uma diversão


Em seu depoimento dado à Comissão Nacional da Verdade, Malhães descreve em riqueza de detalhes como operava aquela máquina nefasta, que fazia e ainda faz a festa de muitos liberais com espírito de Capitão do Mato. Disse que os corpos eram lançados nos rios, após a retirada dos dedos e da arcada dentária, para impedir a identificação. E com prazer indisfarçável, dá uma explicação bem mastigada:

 

“- Naquela época não existia DNA, concorda comigo? Então, quando o senhor vai se desfazer de um corpo, quais são as partes que, se acharem o corpo, podem determinar quem é a pessoa? Arcada dentária e digitais, só. Quebravam os dentes e cortavam os dedos. As mãos, nãos. E, aí, se desfazia do corpo”.


Isso tudo Malhães fazia na Casa da Morte. Mas até chegar ali, Pablo prestaria valiosos serviços para a Ditadura Empresarial-Militar em outras paragens. Mais precisamente, na Baixada Fluminense. Ali chegaria em 1969 para caçar o ex-marinheiro Roberto Emílio Manes, um dos cabeças do levante de sargentos e suboficiais de 1964, que estaria realizando uma série de assaltos na região.

 

Mas como desconhecia, segundo a reportagem, os "grotões da periferia", "foi socorrido pelo então comissário de polícia Luiz Cláudio Azeredo Vianna, chefe de uma pequena unidade da região". Uma aliança que se manteria intocada e cada vez mais selvagem - e isso décadas depois do sepultamento da Ditadura.

 

Pudera. Malhães era um quadro dos mais qualificados. Depois de minucioso treinamento no Centro de Ensino de Pessoal - centro de excelência no preparo e aperfeiçoamento dos mais notórios torturadores -, seria recrutado pelo Centro de Informações do Exército. E corresponderia com galhardia a tamanho investimento estatal na arte do extermínio e da violação dos direitos humanos. Melhor para os liberais reacionários, que tanto se fartaram com as tetas do regime terrorista.

 

E Pablo não deixava dúvidas sobre o seu empenho em fazer desse país uma pátria mais segura, democrática, cristã e humana:

 

“Inicialmente, interrogava com ajuda do pau-de-arara e do choque elétrico. Uma ex-presa política, grávida quando submetida às sessões de tortura chefiadas por Malhães, disse que os choques levaram-na a pensar que o bebê sairia do bebê. Não saiu, mas nasceu meses depois, com uma severa surdez”.

 

Mas Pablo também gostava - além de Deus, da pátria e da família - de bichinhos:


"Eram dele também os filhotes de jacaré batizados de Pata, Peta, Pita, Pota e Joãozinho, usados para amedrontar os presos levados para os cárceres do DOI na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca".

 

A gana de Pablo em zelar pelos valores democráticos era tanta que "passou a usar métodos mais sofisticados para arrancar a verdade dos presos, convencê-los a trair os companheiros e, quando necessário, sumir para sempre com os corpos que ficavam pelo caminho".

 

Levado para a Casa da Morte, Pablo passou a se chamar Laurindo. O nome mudara, mas o empenho em lutar por um Brasil melhor e mais puro só aumentava. Fora levado para lá pelo comissário Luiz Cláudio, o Luizinho.

 

Agora, é bala na pretada...


Luizinho era um dos homens de confiança do banqueiro do bicho Abraão David. Após o fim da Ditadura, Malhães compraria um sítio ao lado do haras pertencente a Luizinho, no bairro de Ipiranga, Nova Iguaçu. Esmagada a serpente e tendo sido todo o seu veneno comunizante desinfetado do território nacional, Pablo passou a mirar a carcaça de outros alvos – não menos perigosos.

 

E segundo testemunhos, passou "a impor a lei a seu modo violento na região". Percorria a cavalo as ruas do bairro à caça de traficantes de drogas. "Quando os avistava, sacava a arma e disparava". Discretamente, "os vizinhos  diziam que Malhães liderava um grupo de extermínio".

 

Pablo, ou Laurindo, enfim, o patriota da Direita liberal, racista e reacionária, o menino que um dia servira ao Movimento AntiComunista (MAC), trilhou com denodo a trajetória do típico agente do terror nesse país que, dos dedos, arcadas e carcaças dos membros da luta armada, passou a cuidar, em "tempos democráticos", de dar um jeitinho nos "elementos" daquela raça que vive enchendo as nossas cidades de bandidinhos.

 

Malhães pode ter morrido - sem nunca ter sido julgado por seus crimes -, mas os Amarildos, Cláudias e Douglas de ontem, de hoje e de amanhã revelam o quanto ele fez escola.

 

Leonardo Soares é professor de História da UFF (Universidade Federal Fluminense).

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Última atualização em Quarta, 14 de Maio de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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