D. Tomás, só um fato

0
0
0
s2sdefault

 

 

Teria muitos fatos, muitos momentos para falar de D. Tomás, a partir da convivência de sete anos na Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra. Mas relato apenas um.

 

Um dia lhe disse sobre a importância do Pe. Ibiapina para o Nordeste e de toda geração de evangelizadores, inclusive Pe. Cícero e os beatos que vieram nessa linhagem, fundando comunidades como Canudos, Caldeirão e Pau de Colher.

 

Ele ouviu atentamente e disse: “são nossos precursores”.

 

Alguns meses depois ele já estava no Juazeiro do Norte, num encontro que as CPTs do Nordeste costumam fazer durante uma das festas do Santuário do Pe. Cícero, no dia de finados.

 

Ele quis conhecer o Pe. Murilo, um homem que durante 40 anos sustentou a memória do Pe. Cícero como vigário, acolhendo os romeiros, quando a própria instituição eclesial não sabia o que fazer com esse potencial. Hoje já sabe.

 

Fui com D. Tomás visitar o Pe. Murilo na casa paroquial do Juazeiro. Chegamos e fomos atendidos por uma mulher que trabalhava na casa paroquial. Ela disse: “entrem por aqui e vocês saem lá na Igreja. Ele está confessando o povo”.

 

Fomos atravessando as portas e saímos na Igreja. De repente, Pe. Murilo saiu como uma flecha de dentro do confessionário e veio em direção a D. Tomás. Mesmo sem que jamais o tivesse visto pessoalmente, lhe deu abraço tão efusivo que D. Tomás parecia perplexo. Mais perplexo ainda estava o Pe Murilo, já que não era costume de bispos visitarem o santuário do Pe. Cícero. Foi uma festa e, naquela noite, D. Tomás foi o celebrante de uma missa para aproximadamente 150 mil romeiros.

 

Durante esses dias, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realiza sua 52ª assembleia. Um dos temas centrais do evento é a discussão de um novo documento sobre as questões da terra no Brasil. O episcopado, por reações internas, não consegue aprovar outro documento sobre o assunto desde 1983.

 

Portanto, em memória de Ibiapina, de Pe. Cícero, de tantos precursores, talvez em honra de D. Tomás, mas principalmente em nome daqueles aos quais esses homens dedicaram suas vidas – índios, negros libertos, pobres do sertão, sem terra etc. –, está na hora de a CNBB dar um novo grito profético em favor desses despossuídos da terra em pleno século XXI.

 

 

Roberto Malvezzi (Gogó) possui formação em Filosofia, Teologia e Estudos Sociais. Atua na Equipe CPP/CPT do São Francisco.


Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados