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A volta de Dan Mitrione Imprimir E-mail
Escrito por José Benedito Pires Trindade e Otto Filgueiras   
Segunda, 28 de Abril de 2014
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Daniel A. Mitrione, o mítico agente da CIA, que passou a década de 60 treinando policiais latino-americanos, especialmente brasileiros e uruguaios na “arte” do interrogatório, da tortura e da repressão aos movimentos estudantis, populares e revolucionários, está de volta ao nosso país.

 

“El Maestro de La Tortura”, como o classificou o jornal argentino “Clarin” – a cujo funeral, em Richmond, Indiana, EUA, compareceram o ex-presidente Dwight Eisenhower, o secretário de Estado William Rogers, e a quem Frank Sinatra e Jerry Lee Lewis homenagearam com um concerto –, desembarcou semana passada no aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília.

 

Recebido na pista do aeroporto por representantes do Ministério da Justiça, da Polícia Federal, do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, da ABIN, da CBF, da embaixada dos Estados Unidos em Brasília e pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, representando o governo de São Paulo, Dan Mitrione manifestou alegria de voltar ao nosso país, agora com a missão de treinar nossos policiais para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O Ministério dos Esportes não mandou representantes à recepção.

 

Junto com Mitrione desembarcaram paramilitares norte-americanos, especialistas no combate ao terrorismo e às manifestações populares, da empresa Academi, a antiga Blackwater, que mudou de nome depois de ter se envolvido em dezenas de assassinatos de civis no Iraque e no Afeganistão. Eles e o agente da CIA vão treinar policiais-militares e agentes da ABIN e da PF, “para garantir uma Copa do Mundo sem surpresas”, informou autoridade brasileira, presente na recepção do grupo.

 

Depois de cumprimentar as autoridades nacionais, Dan Mitrione quis saber em que fase está a feitura da legislação anti-manifestações, que ele próprio havia recomendado como imprescindível para a segurança da Copa. Ao saber que ela ainda está sendo debatida no Congresso, fez uma observação jocosa sobre o atraso das obras dos estádios e da lei “antiterror”.

 

De qualquer forma, o delegado Sérgio Paranhos Fleury, acompanhado de seu fidelíssimo valete, o policial João Carlos Tralli, o Trailer, aquietou o velho amigo da CIA, dizendo que pouca coisa mudou no Brasil, desde a execução dele, Mitrione, há 44 anos, no Uruguai. Logo, afirmou Fleury, a inexistência de uma legislação “antiterror” não há de impedir uma ação dura da polícia contra manifestantes.

 

Para tranquilizar Dan Mitrione e os homens da ex-Blackwater, o delegado citou as recentes ações da Polícia Militar e das Forças Armadas na tomada do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, com a morte de dezenas de favelados, sem que o fato tivesse qualquer repercussão negativa.

 

Fleury referiu-se ainda à pouca ressonância de matéria recente do jornal Folha de S. Paulo dando conta que milhares de pessoas continuam sendo enterradas (sem identificação ou sob suposta identificação) como indigentes no cemitério de Perus, tal como era feito nos anos 60 e 70, para fazer desaparecer os corpos de militantes políticos ou vítimas do Esquadrão da Morte.

 

Para a satisfação de Dan Mitrione, que por quase dez anos ensinou policiais brasileiros como torturar prisioneiros para arrancar informações, o delegado adicionou que a tortura é hoje uma prática amplamente adotada em delegacias e prisões brasileiras.

 

Acredita-se que perto de mil alunos tenham passado pelas “escolinhas” de Dan Mitrione em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, entre 1960 e 1968, para aprender as técnicas de como bater sem deixar marcas; a otimização do uso do pau-de-arara; as virtudes dos choques elétricos bem aplicados; a simulação de afogamento; a utilização adequada da cadeira do dragão; a aplicação em doses certas do garrote vil; os abusos sexuais como forma de desmoralizar e desestabilizar o prisioneiro, especialmente a prisioneira; o arremedo de fuzilamento e mais.

 

No entanto, Tralli advertiu Mitrione e os homens da ex-Blackwater de que o uso de mendigos e indigentes para a ilustração das aulas, como o agente da CIA fazia largamente em sua passagem anterior pelo país, deveria ser empregado com certo comedimento, para não chamar a atenção de entidades de defesa dos direitos humanos, já que as “lições práticas” provocavam um índice elevado de mortes dos “modelos”.

 

Homens da Regional Security Office, núcleo da CIA na embaixada norte-americana, e que intermediou o treinamento de policiais brasileiros nas instalações da ex-Blackwater nos Estados Unidos, também pediram certa cautela ao agente da CIA.

 

Effective torture was science”, respondeu Mitrione, ao insistir na necessidade das “aulas práticas”.

 

Ainda no aeroporto de Brasília, em uma das salas vip recém-inauguradas pela presidente Dilma, brasileiros e norte-americanos discutiram a conveniência ou não de as forças especiais destacadas para a segurança da Copa usarem uniformes.

 

Dan Mitrione revelou predileção pelos uniformes pretos usados pela ex-Blackwater no Iraque e no Afeganistão. No entanto, quando um dos interlocutores lembrou a semelhança do uniforme com o fardamento das Schutzstaffel, desenhado por Hugo Boss a pedido de seu amigo pessoal Adolf Hitler, Mitrione revelou mais uma vez o seu senso de humor: “Ora, não precisamos acrescentar as runas”.

 

De qualquer forma, ficou assentada uma consulta a Hugo Boss, para que a grife ofereça sugestão de farda, “sem as runas e a cruz”, brincou mais uma vez Mitrione.

 

Por fim, o agente da CIA perguntou a Fleury sobre a repercussão de sua volta ao Brasil e o delegado o tranquilizou: “Não se preocupe Dan, este país não tem memória e pouquíssima gente sabe quem é você. Veja o Malhães – que deus o tenha: falou todo aquele monte de besteira e ninguém deu bola. A mídia, principalmente’’.

 

Ao ouvir o nome de Malhães, Dan Mitrione puxou Fleury de lado e os dois apartaram-se do restante do grupo, cochichando.

 

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José Benedito Pires Trindade e Otto Filgueiras são jornalistas; sendo que Otto está lançando o livro Revolucionários sem rosto: uma história da Ação Popular.

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Última atualização em Quarta, 30 de Abril de 2014
 

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