Entre o discurso e a mentira

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Bandidos, corruptos e tiranos têm em comum o fato de não carregarem a mínima culpa por seus delitos. Só não esperam que sejam revelados à luz do dia.

 

A história dos EUA contém páginas gloriosas que, no entanto, são maculadas pelas inúmeras invasões, pilhagens, saques, explorações e opressões. Quase metade do México foi abocanhada pelo Tio Sam no século XIX. Os territórios dos estados de Texas, Califórnia, Arizona, Colorado, Nevada, Novo México e Utah foram anexados aos EUA. E Porto Rico, apropriada em 1898, ainda hoje padece o jugo colonial.

 

Neste ano o Brasil comemora (= faz memória) 50 anos do golpe militar de 1964. É abundante a documentação de como ele foi operado sob o comando do governo dos EUA.

 

Nas últimas décadas, os crimes perpetrados pela Casa Branca se multiplicaram: prisão em Miami dos cinco cubanos que tentavam evitar ações terroristas contra Cuba; sequestros, em vários pontos do planeta, de supostos terroristas, agora trancafiados, ao arrepio da lei, na base naval de Guantánamo; a invasão do Iraque sob o pretexto de que havia ali armas de destruição em massa; os voos assassinos dos drones sobre o Afeganistão e o Paquistão, ceifando a vida de camponeses inocentes etc.

 

Graças ao avanço tecnológico e à globalização, fica cada vez mais difícil o rei esconder sua nudez. Em anos recentes, vários funcionários do governo estadunidense, culminando com Edward Snowden, vêm revelando as atrocidades arquitetadas sob ordens da Casa Branca.

 

A notícia mais grave é a de que toda a população mundial é vulnerável ao controle da NSA (Agência Nacional de Segurança). Os olhos e ouvidos dessa agência captam conversas da presidente Dilma e da chanceler Merkel; segredos da Petrobras e da Siemens alemã; conversas telefônicas; e qualquer dado embutido em um computador ou smartphone. Os programas e aplicativos não são quase todos “made in USA”?

 

A internet, antes de ser uma rede ao alcance do cidadão comum, na década de 1990, era uma ferramenta militar operada há tempos. Conheci no México, em 2013, um ex-espião soviético que atuou nos EUA na década de 1970. Os russos haviam lhe dado uma velha máquina de escrever na qual ele “datilografava” sem necessidade de envolver o rolo com papel... Óbvio que a mensagem se transmitia por satélite.

 

Agora, quando em sua primeira entrevista na Rússia, à TV alemã, Edward Snowden revela que a NSA promove espionagem industrial, o site BuzzFeed divulga artigos em que agentes da espionagem dos EUA declaram sem escrúpulos a respeito de Snowden: “Adoraria meter uma bala na sua cabeça”.

 

Eis a lógica. Nada de ética. Nada de respeitar a soberania do Brasil e da Alemanha. Suas chefes de Estado devem ser espionadas. Porém, ninguém deveria saber, pois cabe aos EUA passar ao mundo a falsa imagem de um país democrático, respeitoso às liberdades civis, onde todos têm iguais oportunidades de prosperar.

 

Mentira erguida sobre milhões de cadáveres espalhados mundo afora, de Hiroshima a Bagdá, do Vietnã à Nicarágua sandinista, como resultado do intervencionismo ianque.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.

 

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