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A propósito do livro de Leonardo Padura, O homem que amava os cachorros – Parte 1 Imprimir E-mail
Escrito por Angela Mendes de Almeida   
Qui, 17 de Abril de 2014
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O homem incapaz de matar cachorros

 

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A Editora Boitempo teve a feliz idéia de lançar, no fim de 2013, o livro do escritor cubano Leonardo Padura, O homem que amava os cachorros, publicado primeiro na Espanha, em 2009, e só depois em Cuba. O livro é apaixonante, desses que se lê de um só fôlego. Talvez o seu maior mérito seja o de popularizar a história, já escrita de mil e uma maneiras e ângulos, da vida de Trotsky no exílio e de seu assassinato no México. No romance, o leitor pode privilegiar uma entre as três trajetórias ali narradas. A do escritor cubano insatisfeito com sua vida profissional e narrador das outras duas histórias, Iván Cárdenas Maturell, sofrendo as vicissitudes da pobreza material e intelectual cubana sob o regime de partido único e as peripécias de sua família no país, marcado pelo embargo norte-americano e pela dependência, depois pelo fim da ajuda soviética. Pode também se envolver na trágica história da resistência obstinada de Trotsky, sua família e seus seguidores, perseguidos passo a passo pela trama dos agentes secretos soviéticos. Mas pode também ficar magnetizado pela trajetória do assassino, Jaime Ramón Mercader, militante comunista catalão, e de seus companheiros na “missão especial” de liquidar Trotsky naquele ano de 1940: o judeu russo Kotov, na verdade, Nahum Eitingon, e a mãe do assassino, Caridad del Rio Mercader, todos agentes do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), a polícia política soviética.

 

É essa trajetória que provoca mais impressões contraditórias, emoções facciosas já submersas que brotam de repente, e também curiosidade, já que muitas das questões relativas às ações dos serviços secretos soviéticos só puderam vir à luz depois do esfacelamento da União Soviética.

 

Minha primeira leitura, em 2010, deixou-me várias impressões e outras tantas curiosidades. Porém, ao acompanhar a repercussão da obra no Brasil, sobretudo através do debate que precedeu o lançamento do livro (1), percebi melhor os dilemas e ambiguidades do texto, ensejando outras tantas impressões, interpretações e emoções. No calor do citado debate, houve mesmo quem reivindicasse que, naquelas circunstâncias históricas do contexto mundial de 1940, aceitaria assassinar Trotsky como uma tarefa heróica, honrada e revolucionária.

 

Ramón Mercader era um militante dedicado e disciplinado que, cumprindo ordens das mais altas instâncias da URSS, com o perigo de sua vida, assassinou, covarde e brutalmente, Trotsky. Era necessário... “para salvar a Pátria dos Trabalhadores”. Os militantes dedicados e disciplinados recrutados para as “missões especiais” sabiam que deviam, além de exercer a espionagem, sequestrar, colocar em navios soviéticos os sequestrados para levá-los à URSS, assassinar diretamente por meios violentos ou através de estratagemas, tais como o envenenamento do qual resultasse uma “morte natural”, ou choques de veículos, quedas de janela ou de convés de navios, brigas e fatos de delito comum, dos quais resultasse uma “morte acidental”.

altA confraria dos nostálgicos de uma picareta (2) em busca de algum trotskista incauto que ande por aí vibra com a menção à honra do militante comunista, cumpridor de qualquer tarefa que lhe seja dada pelo “Partido”. Como se sabe, o bolchevique disciplinado, conhecido na casa de Trotsky como o namorado belga da militante trotskista Sylvia Ageloff, Jacques Mornard Van Drendreschd, mas usando para entrar no México o passaporte canadense em nome de Franck Jacson (sem k), matou Trotsky com uma picareta de alpinista. Os passaportes dos serviços secretos soviéticos, nesse período, provinham todos da “fábrica” das Brigadas Internacionais, cuja sede era em Albacete, durante a guerra civil da Espanha. Cada voluntário brigadista era obrigado a entregar seu passaporte, que nunca era devolvido, mesmo se o seu titular tivesse sobrevivido. O historiador Volodarsky, entre outros, menciona esta reutilização dos passaportes (3). Mas o verdadeiro Jacques Mornard estava vivo e, conforme o jornal Ce soir, de Bruxelas, só morreu em 16 de julho de 1966 (4). Talvez fosse outro comunista dedicado que tivesse doado generosamente seu passaporte e seu nome para o crime.

 

Na nota final do livro, Padura afirma que “se ateve, com a fidelidade possível, aos episódios e à cronologia da vida de Léon Trotsky e que tratou de resgatar o que se conhece com toda a certeza da vida de Ramón Mercader, construída em boa parte na linha fronteiriça da especulação, a partir do que é verificável e histórica e contextualmente possível”. Para quem já leu, para além das biografias de Deutscher sobre Trotsky e Stalin, publicadas no Brasil no fim dos anos 60, hoje já ultrapassadas, algumas das fontes de Padura são transparentes. São em geral memórias, livros escritos em diversas épocas desde 1940 até hoje e, portanto, impactados pelos acontecimentos do momento em que foram escritos. A memória é traiçoeira, os memorialistas, como todos nós, selecionam os fatos, alguns mentem e inventam, fazendo aquilo que os serviços secretos soviéticos sabiam fazer muito bem, a contrainformação.

 

É muito interessante que o romance tenha passado pela Barcelona de 1937, que Ramón Mercader, sob o pseudônimo de Adriano, tenha conversado com George Orwell e que Padura tenha recuperado a sua narrativa ainda fresca, escrita em 1938, sobre as “Jornadas de Maio” na guerra civil espanhola (5). Orwell, miliciano do POUM (Partido Obrero de Unificación Marxista), relata que a batalha entre anarquistas e poumistas contra policiais republicanos, militantes comunistas e agentes soviéticos, nos primeiros dias de maio, teve início quando o edifício da Telefônica, ocupado pela esquerda, foi atacado pela polícia republicana. O que é descrito por muitos como uma provocação dos soviéticos, desencadeou uma rebelião que alcançou toda a cidade. O episódio foi narrado no filme de Ken Loach, “Terra e liberdade”. Fica assim o leitor entrevendo que, dentro da guerra civil entre os fascistas de Franco e os republicanos espanhóis, houve uma guerra civil movida por Stalin contra toda e qualquer esquerda anti-stalinista, que naquele momento e lugar eram os poumistas e os anarquistas. Fica também entrevendo como a guerra da Espanha foi um laboratório stalinista de liquidação-extermínio da esquerda fora da União Soviética, com concentração de agentes secretos formados na disciplina denominada “missões especiais” (isto, é, assassinatos, sequestros etc.). Entre estes agentes, o personagem do romance, Kotov-Eitingon, e o judeu russo Alexander Orlov, este último executor material da tortura e do assassinato de Andrés Nin, o grande dirigente do POUM (6).

 

É sugestivo que desde aquela época, “na linha fronteiriça da especulação”, Padura tenha colocado Ramón Mercader tão preocupado com a sorte de Nin. No romance ele é encarregado de vigiar Nin e testemunha indignado o seu sequestro, quando é levado para uma casa que servirá de prisão clandestina. Mais tarde diz que Nin morreu por não ter confessado. É contrastante com a formulação do irmão de Ramón, Luis Mercader, que escreve com a pretensão de dar voz à história de seu irmão. Com 17 anos, vivendo na União Soviética, onde quase nada foi noticiado, ele só tomou conhecimento do assassinato de Trotsky bem mais tarde. E justifica-o plenamente a partir das “Jornadas de maio,” que culminaram no assassinato de Nin e na prisão e julgamento de poumistas. Para ele foi uma “insurreição de anarquistas e trotskistas (…) uma barbárie nas nossas retaguardas (…) uma rebelião imperdoável”. “Daí nasceu nosso ódio aos trotskistas”. Na terminologia soviética, os poumistas eram trotskistas (7).

 

O livro de memórias de Luís Mercader é fruto de entrevistas concedidas ao jornalista Germán Sanchez, entre julho de 1989 e abril de 1990, na Madri pós-franquista, em plena perestroika de Gorbachev, que antecedeu a implosão total da União Soviética, em dezembro de 1991. Tem como uma espécie de subtítulo “Meu irmão não era um vulgar assassino, mas alguém que acreditava na causa do comunismo”. No entanto, Ramón nunca reivindicou o crime publicamente. Ao contrário, quando foi preso, negou-se formalmente a dizer quem era, embora a sua identidade belga tenha sido desmascarada imediatamente. Cumprindo a lei do silêncio dos agentes secretos, manteve versões esdrúxulas de um crime de caráter pessoal e sem sentido, permanecendo até o fim do cumprimento de sua pena de 20 anos sob o nome de Jacques Mornard. Segundo seu irmão, depois de solto e vivendo na União Soviética, jamais aceitou escrever suas memórias: “Nunca fui traidor. Nunca trairei os meus”. Com a morte de Franco em 1975, Ramón pediu o apoio de Santiago Carrillo para voltar à Espanha, mas não aceitou as condições que o dirigente eurocomunista impôs: contar toda a verdade sobre a sua história.

 

Ramón Mercader

 

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Logo que suas fotografias saíram nos jornais mexicanos após o crime, muitos militantes espanhóis exilados no México o reconheceram. Mas calaram. Por solidariedade com o crime ou por medo. Foi Julián Gorkin, militante do POUM, exilado no México, quem primeiro divulgou o nome de Ramón Mercader e parte de sua história de militante comunista na guerra civil espanhola. Gorkin era um dos dirigentes poumistas presos em virtude das “Jornadas de Maio.” A confissão de Nin, de que seria um agente de Franco, e mais a

s acusações habituais, junto à “prova” pré-fabricada pelo agente Orlov, seria o eixo de um “processo de Moscou” na Espanha. Mas Nin não confessou e as vicissitudes da guerra e da derrota dos republicanos permitiram que Gorkin fugisse. Logo após o crime contra Trotsky, apesar de suas divergências com ele, Gorkin tomou a si o esclarecimento de tudo até chegar aos mandantes, e acompanhou passo a passo a investigação da polícia mexicana com o chefe do Serviço Secreto, Leandro Salazar.

 

Além de acompanhar a materialidade dos depoimentos e dos recursos dos advogados de Mercader, ele pôde ter a colaboração, muito dosada, é verdade, de dois chamados “renegados” do Partido Comunista Espanhol, Jesús Hernandez e Enrique Castro Delgado, que milagrosamente tiveram autorização para deixar a União Soviética no fim da Segunda Guerra Mundial e foram para o México. Contou ainda com a colaboração do militante comunista espanhol Valentim Gonzalez, chamado de “El Campesino”, um dos cerca de seis mil espanhóis exilados na União Soviética, que foi preso por sua oposição ao regime, tentou a fuga duas vezes, tendo conseguido, na segunda, em 1949, a partir do campo de trabalho do Vorkuta, na Sibéria, atingir o Irã e sair, como diz, do “inferno soviético” (8).

 

A primeira denúncia de Gorkin sobre o nome verdadeiro do assassino de Trotsky foi publicada em livro de 1948, traduzido em várias línguas, no qual também aparece como autor Leandro Salazar. Trata-se da obra citada rapidamente por Deutscher. Mais tarde Gorkin publicou o mesmo livro em 1970, com um capítulo adicional dos mais interessantes (9). Pois lá pelas tantas, depois da atualização dos nomes de alguns personagens dos dois atentados sofridos por Trotsky, Gorkin descreve um diálogo havido entre Enrique Castro Delgado e Caridad Mercader, 1943, na União Soviética. Era uma revelação importante que Castro havia omitido a Gorkin nos primeiros anos pós-guerra.

 

Em seu livro Perdi a fé em Moscou (10), escrito no México, em 1950, Castro Delgado relata apenas os anos que passou na União Soviética entre o fim da guerra civil espanhola, em 1939, quando era o representante do PCE junto à Internacional Comunista, e a sua saída, em 1944. Ele denomina o capítulo que trata disso de “fuga”, mas, na verdade, sua saída, protelada por muito tempo, foi afinal autorizada por Dimitrov, então presidente da Internacional, com recomendações paternalistas sobre o mundo capitalista que ele iria encontrar, cheio de inimigos do socialismo. O texto de Castro Delgado é uma crítica bastante moderada ao regime soviético, limitando-se a insistir sobre a pobreza material e o atraso da URSS, bem como a descrever as intrigas da cúpula do partido espanhol no exílio. O suposto suicídio do então principal dirigente do PCE, José Diaz, isolado por motivos de saúde em Tbilisi, na Geórgia, jogando-se de uma janela em ato que muitas obras classificam de assassinato, suscita nele apenas uma atitude de surpresa junto à Dolores Ibarruri, que iria herdar o cargo de principal dirigente. Escrito em vida de Stalin, talvez espelhasse o medo que todos os “renegados” e “trânsfugas” tivessem, com toda razão, de represálias contra seus familiares vivendo ainda na União Soviética, ou de acabar como Trotsky. Ainda mais no México, onde o poderosíssimo Partido Comunista mexicano fazia uma escandalosa campanha de calúnias contra todos os exilados que não rezassem pela cartilha stalinista.

 

Outra foi a conversa de Castro Delgado com Gorkin em 1960, quando voltaram a se encontrar no México. Algo muito importante havia acontecido. Stalin havia morrido em 1953 e, em 1956, no XX Congresso do Partido Comunista da URSS, Kruschev havia tomado a iniciativa de denunciar apenas a mais recente camada dos “crimes de Stalin”, aquela que havia golpeado, sobretudo, stalinistas disciplinados, mistificando a denúncia como “combate ao culto da personalidade”. Quando Gorkin cobra de Castro Delgado a omissão dessa conversa com Caridad Mercader e do fato de que ela e Kotov-Eitingon estivessem a poucos metros da casa de Trotsky no próprio momento em que Ramón o assassinava, com um carro à espera para a fuga, ele lhe responde que foi movido por solidariedade a ela (11). Caridad teria sido quem os alimentou, a ele e a sua esposa, em dias de fome em Moscou, durante o cerco da cidade pelas tropas alemãs, e quem se ativou para que fosse dada a autorização para que eles saíssem do país. Passados tantos anos, a presença dela nesse carro é muito menos importante que o conteúdo do desabafo ouvido um dia por Castro Delgado, que ia sempre ao apartamento dela, na Kaloujskaia, imenso bairro residencial nos arredores de Moscou ocupado por agentes importantes do NKVD.

altA memória engana, prega peças às pessoas, seleciona fatos, omite outros. E trata-se da memória de Castro Delgado transmitida por Gorkin. Tanto um como outro podem ter carregado nas tintas dramáticas. Embora, por sua vez, Luis Mercader, testemunhando já no início dos anos 1990, não tenha negado nem a contínua presença do comunista espanhol na casa de sua mãe nesse período, nem o conteúdo do desabafo, limitando-se a corrigir uma questão de detalhe. O diálogo aconteceu em 1943, quando Castro Delgado já tinha caído em desgraça e Caridad acreditava que sua vida estava em perigo. Segundo ele, “éramos como dois náufragos precisando um do outro”. E um dia Caridad começou a desabafar: “Eles nos enganaram, Enrique. Enganaram-nos com seus livros revolucionários, sua propaganda, seu pretendido paraíso. É pior que o inferno que jamais tenha existido. Nunca poderei me habituar. Só tenho um desejo, um pensamento: fugir, fugir longe daqui (...) Você não conhece essas pessoas como eu, eles não têm alma, não têm consciência. Eles esmagam a sua vontade, obrigam você a matar e fazem você morrer em seguida, de um golpe ou no banho-maria”.

 

Castro Delgado quis deter as confidências, pois a regra de ouro era conhecer o menos possível. Desabafando, ela o comprometeria e o perderia. “Mas nós já estamos perdidos. Aqui ou em outro lugar, se conseguirmos escapar, estamos condenados à morte”. E então narra os detalhes do assassinato de Trotsky e conclui: “Fiz de Ramón um assassino, de meu pobre Luis um refém e de meus outros filhos uma ruína (12). Que recompensa recebi em troca? Duas porcarias!”. E tirava da gaveta as duas medalhas concedidas a ela e a Ramón, a da “Ordem de Lênin” e a de “Herói da União Soviética”. Escrevia constantemente a Beria e a Sudoplatov, as duas mais altas autoridades na esfera policial dos “assuntos internos”, pedindo que a deixassem sair. Afinal, Beria lhe concedeu autorização em fevereiro de 1945. Deu-lhe dinheiro, sob a condição de que não fosse para o México. E foi a primeira coisa que ela fez (13).

 

No romance de Padura, Caridad Mercader aparece quase como uma megera. É a mãe que recruta o hesitante filho insistentemente para uma missão de “sacrifício.” Em certo momento, ele entrevê do que se trata e cobra dela surpreso: vocês me trouxeram para matar? Ela é sempre lembrada por ele com uma espécie de causa fundante do seu envolvimento, ele a todo o momento relembra o momento em que, na frente de combate na Espanha, disse sim, sem saber bem o por quê. Fica a imagem da alma daninha que teria corrompido seu filho.

 

Com efeito, essa impressão fica confirmada no seguinte artigo de Padura: “Caridad del Rio não apenas tinha sido aquela que educou seu filho no ódio e o pôs em contato com os agentes do tétrico NKVD soviético, encarregados de planejar e executar o assassinato, mas que o incentivou e impulsionou em sua missão até a própria tarde de 20 de agosto, quando, em um automóvel e em companhia do criador do plano, viu Ramón Mercader entrar na casa de Trotsky e nas cloacas da história do século” (14).

 

É verdade que na versão de seu irmão, Luis Ramón teria alimentado, depois do crime, grande ressentimento contra Caridad. Acusava-a de ter estragado, em 1945, uma possibilidade de sair da prisão antes do fim da pena, ao tentar se sobrepor e atropelar a comissão permanente do NKVD, instalada no México para gerenciar a defesa jurídica do preso, o bom atendimento das suas regalias na prisão, mas também de velar pelo seu silêncio (15).

 

No romance, enquanto a mãe – “a mãe é sempre a culpada” – é retratada como a alma daninha da trama, Ramón é quase um inocente envolvido no turbilhão da atividade militante das “missões especiais”. Mais do que isso, em seu reencontro com Kotov-Eitingon em 1968, na União Soviética, e nos diálogos na praia cubana entre o narrador, Iván, e o velho que amava os cachorros, Jaime Lopez, na verdade Ramón, ele aparece como alguém marcado pela imensidade do crime que cometeu. Menciona sempre o grito de Trotsky ao ser atingido pela picareta e mantém sempre enfaixada a mão que a vítima mordeu, como se fosse a materialidade simbólica da culpa pelo crime. E ainda, na parte final, “Apocalipsis”, Mercader e Eitingon se desdobram em comentários e recordações impressas por uma certa visão crítica do regime soviético, visto como uma sina desgraçada que golpeou os que estavam a serviço de Stalin, com seus deveres e disciplinas militantes, como um destino ao qual não se podia escapar. Foi horrível, mas era necessário... As circunstâncias da época obrigavam e desculpam. A visão humanista contida nesses diálogos, aquela cordura em não ser capaz de matar cachorros, tem muito mais a ver com a reflexão que faz Iván, o narrador, à luz da implosão da União Soviética, carregando consigo a melancolia da degradação da vida material em Cuba.

 

Notas:

1 Ver http://www.youtube.com/watch?v=fGE_W9FhzRY&feature=c4-overview&list=UUzwfw0utuEVxc4D6ggXcqiQ

2 Ver, por exemplo: http://comunidadestalin.org/

3 Boris Volodarsky, El caso Orlov – Los servicios secretos sovieticos en la guerra civil española. Barcelona, Critica, 2013, p. 89.

4 Cf. José Ramón Garmabella, Operação Trotski. Rio de Janeiro, Record, 1972, p. 191.

5 Hommage à la Catalogne, Paris, Éditions Ivrea, 2009.

6 Cf. Jesus Hernandez, La grande trahison. Paris, Fasquelle, 1953; Pierre Broué, História da Internacional Comunista, São Paulo, Sundermann, 2007, vol. II, p. 883; e Volodarsky, op. cit., p. 167.

7 Luis Mercader-German Sanchez, Mio fratello, l’assassino de Trotsky, Torino, Utet SpA, 1990.http://pt.scribd.com/doc/74328130/Mercader-Luis-e-Sanchez-G-Mio-Fratello-L-Assassino-Di-Trotskij

8 Ver: http://bataillesocialiste.wordpress.com/2009/05/23/valentin-gonzalez-el-campesino-lhomme-qui-vainquit-la-mort-en-espagne-et-en-urss-gorkin/

9 Julian Gorkin, L’assassinat de Trotsky, Paris, Julliard, 1970.

10 Enrique Castro Delgado, J’ai perdu la foi à Moscou, Paris, Gallimard, 1950.

11 Gorkin, op. cit., pp. 305-306

12 Montserrat, sua filha, e Jorge, seu filho, eram agentes do serviço secreto soviético em Paris.

13 Ibid., pp.310-312.

14 Leonardo Padura, “La ultima hora de Caridad Mercader”, http://www.bitacora.com.uy/noticia_915_1.htmL

15 Gorkin, op. cit., pp. 313-314.

 

Angela Mendes de Almeida é historiadora e coordenadora do site Observatório das Violências Policiais.

Originalmente publicado no site Passa Palavra - http://passapalavra.info/

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Última atualização em Qui, 24 de Abril de 2014
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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